sábado, janeiro 17, 2026

Cinema brasileiro - fases

 No Brasil, até a década de 1950, o cinema era feito de forma artesanal e regional, muitas vezes copiando a estrutura das radionovelas. Não existiam políticas públicas para o que era visto como entretenimento menor ou elitista. As produções se concentravam em poucos polos, sobretudo no eixo Rio–São Paulo, com algum destaque para o criativo Recife e para a pacata Cataguases, em Minas Gerais — um polo têxtil rico, com uma jovem burguesia industrial aberta à modernidade e com capacidade de investimento para fomentar a moda e, indiretamente, a cultura.

Cataguases tornou-se um dos núcleos do modernismo brasileiro pelas ações do cineasta Humberto Mauro, que fez do cinema um verdadeiro laboratório de linguagem. Mas fazer cinema é algo que molda a sociedade e exige financiamento contínuo. A ausência de uma política pública consistente acabou por extinguir aquele oásis cultural no interior de Minas.

Diante do domínio cultural americano, o cinema nacional, a partir dos anos 1950, foi naufragando até que o braço cultural protecionista da Era Vargas fez surgir, com financiamento governamental via INCE (Instituto Nacional do Cinema Educativo), a Rádio Nacional e a Atlântida. Nascia um cinema que queria encontrar o povo, criando musicais e sátiras sociais. Era desprezado pela elite intelectual, mas sustentado pelo talento e pelo esforço contínuo de nomes como Oscarito e Grande Otelo.

A revanche intelectual veio a partir de 1958, com o Cinema Novo de Glauber Rocha, Ruy Guerra e Nelson Pereira dos Santos. Influenciados pelo neorrealismo italiano e pelo ambiente artístico efervescente dos anos JK, esses filmes traziam um viés crítico e estético que logo passou a ser visto com desconfiança nos primeiros anos do regime militar. O Cinema Novo teve muito mais reconhecimento externo do que interno e, aos poucos, foi sendo esvaziado. Em 1969, as verbas passaram a ser condicionadas à exaltação do regime e, em 1975, o modelo foi definitivamente desmontado. A antiga INCE deu lugar ao INC, que passou a se ocupar basicamente de classificação indicativa, censura e controle da importação de filmes.

Com a produção cinematográfica praticamente abandonada nos anos 1970, coube às pequenas produções de pornochanchadas manter o sistema respirando por aparelhos. Produziam muito, com qualidade discutível, até que surgiu a Embrafilme, adotando um modelo de financiamento por antecipação de bilheteria. Isso abriu espaço apenas para filmes com garantia de retorno. Foi um prato cheio para Luiz Severiano Ribeiro e, em conjunto com o crescimento da televisão, consolidou grandes sucessos populares, como os filmes dos Trapalhões. Mais uma vez, a comédia aparecia como saída para vencer a crise, sustentada por bilheterias robustas.

Com a queda do regime militar, o cinema caiu junto. Vieram anos de pouco estímulo e de importação quase exclusiva de cinema americano. Enquanto isso, a produção cinematográfica latino-americana florescia. No final do governo Sarney, o modelo de financiamento começou a mudar com a Lei Sarney, permitindo investimentos privados em troca de benefícios fiscais — o embrião de uma lei que ainda renderia muita controvérsia.




Chegou então o colapso do governo Collor. As agências foram desmontadas até serem extintas. O cinema passou a ser algo que sempre podia acabar, visto como um investimento altíssimo e extremamente arriscado. Nesse cenário improvável, a rainha Xuxa acabou salvando a produção nacional, garantindo bilheterias expressivas. Sem ela, o cinema brasileiro teria praticamente desaparecido das salas comerciais nos anos 1990.

Com o governo FHC, surge a Lei Rouanet, uma política pública de Estado que atravessou diferentes governos. A estabilidade permitiu o renascimento da indústria, com o Estado deixando de escolher os filmes e transferindo essa decisão às empresas financiadoras. Isso ampliou a pluralidade temática e estética. Carlota Joaquina, Central do Brasil, O Quatrilho e Cidade de Deus são exemplos claros dessa diversidade.

Com o tempo, o sistema foi se engessando com a criação do Fundo Setorial do Audiovisual, que passou a operar por editais. Os filmes começaram a ser pensados mais para vencer editais do que para dialogar com o público ou buscar risco estético. Ainda assim, a roda seguiu girando, com produções importantes como Carandiru, 2 Filhos de Francisco, Nosso Lar e Deus é Brasileiro, além de modelos seriados de grande sucesso, como Minha Mãe é uma Peça, De Pernas pro Ar, Se Eu Fosse Você e Tropa de Elite. O sistema híbrido — governo e iniciativa privada — deu garantias financeiras e relativa liberdade criativa. Nunca se produziu tanto cinema bom no Brasil.

Entre 2017 e 2022, instalou-se uma crise ideológica profunda e uma paralisia produtiva. Pode-se culpar a pandemia, mas a cultura nacional tornou-se refém de um campo de batalha ideológico. A censura passou a ser indireta, por meio de cortes seletivos de recursos. A desconfiança voltou a rondar produtoras e empresas sérias. Ao mesmo tempo, a saturação do modelo americano, somada às greves de roteiristas e atores, provocou uma redistribuição de talentos pelo mundo. O crescimento do streaming ajudou a manter a indústria viva em meio a uma crise global.

Mais uma vez, os ventos políticos mudam. Sem uma política de Estado sólida, seguimos na gangorra ideológica. Vivemos hoje uma fase especialmente fértil, com grandes produções brasileiras arrebatando prêmios mundo afora, como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto.
Resta saber até quando essa maré favorável vai durar.



O cinema nacional - influência americana

Muito se fala do cinema brasileiro: se é bom ou ruim, se depende demais de incentivos públicos, se é popular ou autoral, político ou intimista. Trata-se de um cinema que, muitas vezes, falha em dialogar com o público e que, para romper essa barreira, acaba escorregando para um popularesco de comédia — frequentemente bem-sucedido em bilheteria, mas limitado em ambição estética.

Em um paralelo com o cinema americano e europeu, o Brasil se aproxima muito mais do modelo do cinema-arte europeu, sustentado por incentivos diretos — e instáveis — do Estado, do que da indústria cinematográfica formada nos Estados Unidos. Lá, o governo percebeu cedo que imagem é poder e passou a financiar, contínua e indiretamente, a indústria cinematográfica.

Primeiro, para empregar pessoas durante a Grande Depressão dos anos 1930 e manter o moral da população. Depois, durante a Segunda Guerra Mundial, como parte estratégica do Departamento de Guerra. Por fim, no pós-guerra, como instrumento de influência cultural global — uma verdadeira arma de propaganda, o chamado soft power.

No contexto do Plano Marshall, o governo americano apostou alto para transformar Hollywood em padrão mundial. Apenas a França reagiu de forma consistente a essa interferência cultural. Já durante a Guerra Fria, o cinema foi vendido como ideologia do American Way of Life, também com apoio governamental. Hollywood criou personagens como Rambo e filmes como Top Gun para apagar a derrota na Guerra do Vietnã. No mesmo período, porém, surgiu o contraponto: Platoon lembrava à opinião pública que aquela guerra fora perdida e marcada por escandalosos crimes de guerra cometidos por soldados americanos.



Enquanto isso, o Brasil seguia preso a mentalidades arcaicas, instituições frágeis e governantes que davam pouca importância à cultura. A França, por sua vez, entendeu cedo que perder o cinema significava perder a capacidade de narrar a si mesma. Fortalecer sua cultura tornou-se uma questão de Estado — não apenas uma indústria capitalista, como nos Estados Unidos.

Desde 1946, a França mantém um departamento de cinema que funciona sem interrupção, com financiamento automático e retorno do lucro para o próprio sistema. Trata-se de uma política pública de longo prazo, e não de uma política de governo, como ocorre no Brasil.

Aqui nos trópicos, diversas agências surgiram e desapareceram entre descasos governamentais, corrupção e falta de investimento. Durante décadas, o cinema brasileiro dependeu quase exclusivamente do esforço dos artistas. Nenhum governo militar deu real importância ao cinema; a principal discussão era se os filmes deveriam ser legendados ou dublados.

Um dos expoentes mais promissores desse período, Vladimir Herzog, terminou como chefe de redação da TV Cultura — e o final dessa história todos conhecem. O INC deu lugar à Embrafilme, depois ao Concine e, por fim, à Ancine. Ainda hoje, os recursos de financiamento seguem travados por disputas ideológicas.

Pior: no Brasil, vê-se cinema, mas pouco se entende do que se vê. Não se ensina estética, linguagem audiovisual ou leitura crítica da imagem. Vivemos uma adesão passiva ao cinema americano, com mínima interação com o riquíssimo cinema latino-americano.

Esse protecionismo cultural em favor dos Estados Unidos reflete muito do que somos culturalmente.

Vira-latas!


sábado, dezembro 20, 2025

Salomé por trás da arte

Se você tem mais de 40 anos, provavelmente se lembra de uma personagem criada por Chico Anysio: Salomé Maria da Anunciação, mais conhecida como Salomé do Passo Fundo. Para quem não se recorda, Salomé ligava para políticos e pessoas influentes assumindo um curioso ar de intimidade com o poder, comentando fatos do cotidiano político de forma ácida, irônica e extremamente crítica.


O personagem mais citado na época de sua criação, no final dos anos 1970, foi João Baptista de Oliveira Figueiredo, então presidente do Brasil. Com ele, Salomé aparentava uma intimidade ainda maior: chamava-o de “guri”, de “João” e dizia ter sido sua professora.

O cenário político daquele período era de uma abertura lenta, gradual e ainda trêmula. O presidente parecia precisar de um “empurrãozinho” para avançar em medidas como o fim dos Atos Institucionais, a Lei da Anistia e outras reformas que colocariam fim a mais de vinte anos de ditadura. Ainda havia censura nos meios de comunicação. Nesse contexto repressivo, o público se surpreendia com a liberdade de Salomé para criticar o governo. O humor funcionava de forma indireta e simbólica, permitindo leituras sociais que o confronto direto não permitiria.

Diferente do que se poderia esperar de um regime militar, Figueiredo recebeu a sátira com entusiasmo, chegando a convidar Chico Anysio para uma apresentação no Palácio do Planalto, em dezembro de 1979.

Figueiredo talvez na foto mais clássica do fotojornalismo brasileiro

A inspiração para a personagem parece ter vindo de Djanira de Oliveira Lângaro, viúva de um ex-político gaúcho. No passado, Djanira fora considerada uma mulher belíssima: foi eleita Rainha do Carnaval em 1919 e A Mais Bela Gaúcha dos Pampas em 1923. Tinha o hábito de ligar para políticos influentes, governadores e até presidentes, mantendo com eles uma relação peculiar.


Djanira num carro alegórico do carnaval num desfile em Passo Fundo

À esquerda, Djanira Lângaro. À direita, Chico Anysio caracterizado como Salomé (1979).

Do ponto de vista psicológico, o arquétipo criado por Chico Anysio se aproxima de um narcisismo defensivo (exatamente como o presidente parecia se colocar). Salomé se coloca como irresistível, desejada por todos, ocupando o centro absoluto das atenções. Essa autoimagem inflada funciona como mecanismo de defesa, possivelmente como resposta à solidão, ao medo do esquecimento e ao avanço da idade (exatamente como a ditadura parecia estar). O erotismo, em Salomé, não aparece como prazer, mas como instrumento de controle: ela insinua, constrange e provoca. Não é uma sedutora clássica, mas uma provocadora invasiva, que se sustenta mais na erotização do passado do que na presença real de uma senhora de cerca de 70 anos.

Salomé também apresenta uma histeria teatral: fala alto, exagera nos gestos, dramatiza tudo. Remete à histeria freudiana clássica, marcada pela necessidade constante de palco, pelo medo do silêncio e pelo horror à invisibilidade — mesmo em uma personagem que já venceu o tempo. Ela acredita na própria narrativa, ainda que atue silenciosamente nos bastidores.

O nome Salomé, no entanto, não é casual. Ele nos remete simbolicamente à Salomé bíblica, não de forma literal, mas arquetípica. Sua história aparece nos evangelhos de Marcos (6:17–29) e Mateus (14:3–12). ambas as narrativas começam descrevendo como João Batista foi capturado por Herodes por dizer que o casamento de Herodes com Herodias, esposa de seu irmão Filipe, é ilegal (Lev 20:21). Em Marcos, Herodias guarda rancor contra João por isso e quer matá-lo, mas ela se abstém porque Herodes o teme. Em Mateus, Herodes quer matá-lo, mas se abstém porque teme o povo, que acredita que ele é um profeta.  Em ambas as narrativas, Salomé dança em um banquete realizado no aniversário do rei Herodes. Em troca de suas danças agradáveis, Herodes promete que dará tudo o que ela pedir. 

Hans Horions - A dança de Salomé para Herodes 1634

Quando pergunta à mãe, Herodias, o que deve pedir, a mãe a instrui a pedir "a cabeça de João, o Batizador." Quando Salomé pede isso a Herodes, ela acrescenta às palavras da mãe "em bandeja" (Marcos 6:24–25). Chico Anysio subverte essa tragédia em humor por meio do bordão:

“Eu faço a cabeça de João Baptista ou não me chamo Salomé.”


Gustave Moreau, L'Apparition, 1876–77, mostra Salomé



O nome Salomé também aparece no Evangelho de Tiago, texto apócrifo atribuído a Tiago, irmão de Jesus. Nessa narrativa, uma Salomé, incrédula de uma virgem ter dado dado luz a um filho parte para a manjedoura para "inserir o dedo e comprovar a natureza dela" (Maria). Percebendo que ela era realmente virgem, sua mão pega fogo mas um anjo lhe diz para colocar a mão flamejante no neném (Jesus), ao fazer isso sua mão é curada sendo assim o primeiro milagre e fazendo com que Salomé fosse considerada a primeira discípula de Cristo, embora marcada para sempre pelo estigma da incredulidade. mas que ficou marcada como incrédula. Assim como incrédulos estavam todos diante da vontade política de Figueiredo de acabar com a ditadura.


domingo, dezembro 07, 2025

O descanso da alma com amizades verdadeiras

A confiança de uma amizade nos permite desarmar, retirar aquela armadura pesada que tantas vezes precisamos vestir na caminhada diária. O mundo pode ser hostil, e por isso erguemos defesas mentais para proteger nossas convicções e nossa individualidade. Essa armadura, no entanto, não deve ser rígida a ponto de nos engessar, mas sim flexível, como uma malha de ferro que nos resguarda sem nos impedir de mudar. Ainda assim, é um fardo difícil de carregar o tempo todo. Por isso, precisamos de um refúgio sereno, livre de perigos, onde possamos descansar e aliviar o peso das costas — e esse abrigo é oferecido pelos amigos.

Aristóteles já afirmava que as amizades verdadeiras são essenciais para a felicidade humana. É nesse espaço de essencialidade que florescem a confiança, a entrega e o compromisso genuíno, não como cobrança, mas como fruto da partilha de valores como amor, respeito e gratidão.

Se a armadura existe para proteger quem realmente somos, as boas amizades cumprem o papel de nos resguardar quando estamos despidos, oferecendo acolhimento sem julgamentos. Afinal, é na presença dos amigos que encontramos a liberdade de sermos inteiros, sem máscaras, e ainda assim protegidos e respeitados.

 



Os ciclos que a vida faz

 Dentro de um clima tropical, nem sempre percebemos o mudar das estações. Não percebemos, mas a natureza é forte e constante, e a mudança está ali: constância dentro da mudança. Há ciclos!

Quando viajamos no inverno, isso fica evidente. O frio se impõe. O ar muda, a luz muda, a duração do dia muda. O silêncio das ruas anuncia uma estação inteira.

Já foi diversamente estudado como o ritmo de vida do ser humano mudou ao longo dos séculos por conta de novas tecnologias. Como a luz elétrica, a vigília noturna acabou; a vida noturna passou a ter mais agito. Com isso, perdemos o silêncio para reflexões mais profundas, o espaço de contemplação do universo e de como somos pequenos diante das estrelas. Talvez por isso tenhamos nos tornado tão megalomaníacos.

Deus é perfeito em Sua concepção; nós é que somos imperfeitos ao tentar impor nosso próprio ritmo à vida. A natureza ensina: se o corpo pede descanso, descanse; se o mundo se transforma, transforme-se também. . Transformar é como renascer, é como a natureza que nasce, cresce, morre e renasce transformando-se.  

Os exemplos estão a nossa volta: desde o girino, que tem que deixar de ser o que é para se tornar sapo, até uma cobra, que tem que deixar sua pele de lado de tempos em tempos; os ursos, que hibernam para se preparar par as mudanças; os insetos, que reservam comida para enfrentar o inverno; e o exemplo clássico da borboleta. É a sutil evolução da vida. Sim estamos em constante evolução, e não adianta remar contra a maré, é uma Lei Universal.

Quem quiser chegar a ser o que não é, deverá principiar por não ser o que é. Esse é o princípio de uma Lei Universal da mudança. Entender como funcionam essas Leis são verdadeiros pontos de apoio para entendermos como somos influenciados por aquela natureza que muda diante dos nossos olhos, mas que nem sempre percebemos. 

É como entender outra Lei Universal, a da gravidade, e conseguir tirar o melhor proveito dela para a nossa vida. Percebendo sua atuação ou não, ela está lá, em tudo: transformando, tropeços em quedas, mas também facilitando nossa vida quando sabemos usá-la; Por exemplo, ao se aproveitar uma queda d'agua para produzir energia elétrica (aquela mesmo que nos fez perder o brilhos das estrelas).

Leis assim, são poderosas e constantes, independente de onde estivermos. Ou seja, os ciclos existem mesmo que não estejamos dando atenção a eles. Ver os ciclos da natureza e estarmos sintonizados a movimentos sutis é de sábia importância para entender nosso humor e nossa vida. 

 Uma primavera que lembra a sensação de voltar a acreditar em algo: o tempo esquenta, os dias se alongam e as energias se renovam. Primavera é um tempo de sorrir e de recomeçar, com a euforia e a esperança de iniciar um novo ciclo. Alegre e harmonioso.

No verão, chegamos a um auge da renovação. É hora de doarmos a energia que recebemos; é tempo de expandir, criar planos, viver com intensidade - e as vezes até com exaustão, como pensou Vivaldi.

O outono chega como preparação para a introspecção do inverno. É hora de abrir mão da expansão de vida do verão, de reservar energias, soltar coisas que não vamos precisar no inverno. Como as árvores que se despedem de suas folhas, soltar é confiar no processo do ciclo que se renova; é aceitar finais para termos recomeços; é entender que nem toda perda é negativa e que pode-se abrir espaço para a renovação. Vivaldi mostra aqui uma maior consciência e controle das emoções.

E novamente o inverso: silêncio, pausa, recolhimento. É quando parecemos morrer, mas que estamos só nos recolhendo, hibernando para aceitar a passagem do tempo (mais uma daquelas Leis Universais impossíveis de reagirmos). Entendendo o silêncio, gastando pouca energia: eis o inverno de Vivaldi.

Temer invernos é reagir contra a ordem natural das coisas, que são mais fortes que nós. Isso funciona para a natureza que está ao nosso redor e para o que funciona dentro de nós. Invernos emocionais, psíquicos e intelectuais acontecem na nossa vida. Temos que saber reconhecê-los, respeitar nossos silêncios internos, nossa preparação; extravasar quando precisamos, calar também, com a certeza de que são ciclos e que nada dura para sempre. Todos os ciclos são necessários. E cada um tem uma característica bela que devemos reconhecer e acolher.


Relembre sua infância 


quinta-feira, novembro 20, 2025

Tenho saudade de tudo

 Tenho saudade da casa,

uma nostalgia profunda

e uma reflexão serena

sobre como poderia ter sido com você.

Tenho saudade em silêncio, 

Nas inquietudes da vida.

Mas nunca vou saber 

Da vida com você.

Saudade da segurança da sua voz,

Da decisão do teu amar,

Do incentivo, 

e do carinho do teu cuidar.

Tenho saudade de te amar!



Saudade das noites quentes,

Dos nossos corpos ardentes.

Tenho saudade de tudo

E não me arrependo de nada: 

De como moldamos a vida,

De como seguimos em frente 

E de como demos um passo pra trás, 

tentando buscar no passado 

a saudade do que fomos nós.

E me pego pensando que, diante de tanta saudade, 

se foi mesmo separação...

Uma realidade diversa, uma loucura ou alucinação.

Você ainda está aqui dentro, e não tenho saudade de nada.

Revivo tudo a cada instante -

um tormento:

Ter tudo, e depois não ter nada.

Aí, guardo você no meu peito

e, dentro de cada saudade que parece ser pouca,

junto os cacos da vida.

esqueço a nossa partida,

Perco a paz e a calma.

Tenho saudade de tudo, 

Como tatuagem na alma,

Como eco que não se desfaz.

E se o tempo não permitir reencontros,

que ao menos a saudade me embale

nas memórias que ainda sabem teu nome.

terça-feira, novembro 11, 2025

O que fica de eterno em nós ...

Se Heráclito nos ensinou que tudo flui, há também uma sabedoria que nos convida a perceber o que permanece — aquilo que não se dissolve com o tempo, que não se curva às circunstâncias, que não se apaga com o esquecimento.
O permanente não é o oposto da mudança, mas o eixo silencioso que sustenta o movimento.

Enquanto o mundo gira em torno da impermanência, há uma dimensão do ser que se mantém intacta: o espírito, a consciência profunda, a essência que nos conecta ao eterno. É nessa dimensão que encontramos o que é verdadeiramente real — não o que muda, mas o que dá sentido à mudança. Rochas não são eternas, mas no meio do turbilhão das coisas, muitas vezes elas são o ponto seguro para nos apoiar, aí está a importância do eterno.


O que é o seu eterno? A fé? O que você carrega dentro de si ? Suas convicções ou suas crenças? Os conhecimentos que o levam a transcender, percebendo o sentido das coisas? O espírito?

Dentro das concepções que temos de Deus, é possível afirmar que Ele é eterno. E, se o ser humano foi criado à Sua imagem e semelhança, não seria lógico supor que também carregamos algo de eterno em nós?

Qual parte de nós perece, e qual parte segue?
A parte de Deus que habita em nós pode ser chamada de alma ou espírito — mas se pensarmos na alma como algo mais ligado à personalidade e ao corpo, então o espírito seria essa entidade imperecível, incorpórea e eterna. Essa essência não se altera com o tempo, não se desgasta com as emoções, não se perde nas ideias. É ela que nos permite pensar e sentir o eterno, mesmo em meio ao caos da existência.

A consciência do eterno nos liberta da tirania do efêmero. Quando cultivamos o espírito, não nos desesperamos com o tempo físico — serenamo-nos, como quem se ancora no centro da eternidade. E é nesse ponto que nascem as aspirações mais nobres que podemos ter:

  • A vontade de evoluir, mesmo diante das quedas.

  • A busca pelo justo, pelo belo, pelo verdadeiro — e por outros valores que não se desgastam.

  • A memória afetiva que resiste ao tempo e transforma dor em sabedoria.

  • O conhecimento transcendente, que não se consome como o metal, mas se multiplica e se eterniza dentro de nós.

O permanente não nega a mudança — ele a orienta. É como o caule que sustenta a flor, mesmo quando ela murcha. É como o céu que permanece, mesmo quando as nuvens passam.
O espírito é esse céu interior, onde podemos cultivar ações que não perecem, pensamentos que não se dissolvem, sentimentos e valores morais que não se corrompem.

Na filosofia oriental — especialmente no budismo, no taoismo e no hinduísmo — encontramos uma visão que dialoga profundamente com essa ideia de que “o permanente não nega a mudança, ele a orienta”.
O budismo ensina a impermanência (anicca), reconhecendo que tudo está em constante transformação, mas que há um campo de consciência serena — como o céu por trás das nuvens — que observa o fluxo sem se confundir com ele.

O céu contempla o turbilhão as nuvens na placidez do lago? O tempo muda tudo, mas o céu permanece. 

O taoismo expressa essa harmonia entre o mutável e o imutável através do Dao, o princípio invisível que sustenta o movimento das coisas.
Já o hinduísmo, com a noção de Atman ou Brahman, vê o espírito como o núcleo eterno da realidade — imutável e silencioso — que dá sentido à dança da vida.
Embora cada tradição tenha sua linguagem, todas convergem na mesma intuição: há uma dimensão interior — seja consciência, Dao ou espírito — que permanece, orientando as mudanças externas e permitindo cultivar pensamentos e valores que atravessam o tempo sem se corromper.

Se tudo passa, o eterno permanece como direção.
Ele não é um lugar fixo, mas um estado de consciência.
E é nesse estado que podemos afirmar o melhor de nossas vidas — como navegantes que enfrentam as ondas, mas seguem guiados pelas estrelas que não se apagam.

O mundo gira, as ondas vão e vem, as estrelas rompem o tempo, demoram mas se vão... a luz fica em meio a escuridão.

O permanente é o que nos torna humanos em nossa dimensão mais elevada.
É o que nos conecta ao divino, ao tempo profundo, à sabedoria que não envelhece.
Em meio à metamorfose ambulante, é o que nos permite ser sem deixar de evoluir.
Se o impermanente nos ensina a desapegar, o permanente nos ensina a consagrar.



domingo, novembro 09, 2025

Preste atenção ... O mundo é um moinho

 Heráclito de Éfeso com a noção de que tudo está em constante mudança, registrou pela primeira vez a constatação do devir, paradoxalmente é uma noção que ... fica! Se aproximando bastante com as filosofias orientais (a impermanência é um dos três pilares do budismo e o ciclo de samsara do hinduísmo que mostra a existência como um fluxo contínuo e o Taoísmo chinês como o Tao sendo o caminho natural do universo, fluído e em transformação), Heráclito teve a atenção de combinar Homem e Natureza, na sua frase famosa:

"Nenhum homem entra duas vezes no mesmo rio, pois nem o homem é o mesmo, nem o rio."

Essa citação expressa a ideia de que tudo flui (panta rhei, em grego), e nada permanece igual. Tanto o rio (com sua água corrente) quanto o homem (com suas experiências e pensamentos) estão em constante transformação.

Heráclito acreditava que a mudança é a essência da realidade — uma visão que influenciou profundamente a filosofia ocidental. A partir daí a arte e a ciência se apropriaram da noção da impermanência, demonstrando até com a física quântica moderna e termodinâmica que energia e matéria estão em constante movimento, que o Universo está em expansão, e nada é estático - nem o tempo, como demonstrou a teoria da relatividade de Einstein. (que coloca em cheque até o fluir do tempo).

Filósofos existencialistas começaram a abordar o lado humano disso, com Nietzsche e Sartre destacando o ser humano sempre em construção e uma identidade não fixa, sendo moldada pelas circunstâncias, escolhas e experiências. E nem precisa ser um gênio inconstante como o de Salvador Dali ou Vicent Van Gogh, basta ver os diferentes heterônimos de múltiplas identidades de Fernando Pessoa. A ideia também foi abordada pelas artes.

A Persistência da Memória - Salvador Dali


A Noite Estrelada - Vicent van Gogh transmitindo sensação de turbulência emocional e transformação interior do artista, a Lua e estrelas brilham enquanto a cidade dorme. É um cosmo vivo e eterno diante da efemeridade da vida.


“Nossa cabeça é redonda para permitir ao pensamento mudar de direção”- Francis Picabia.

Diante dessa "Metamorfose Ambulante", tudo passa... tudo muda, inclusive nossas idéias e emoções e aí podemos " dizer o contrário do que dizemos antes.... ou se hoje eu te odeio, amanhã já se apagou". O Homem como um turbilhão de ideias e sentimentos pode se proteger da ideia de que esta em constante transformação, "do que ter a velha opinião formada sobre tudo!" afinal o próprio mundo a nossa volta muda e "nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia".





sábado, outubro 25, 2025

A Educação que Forma o Ser

Vivemos tempos em que o sistema educacional parece cada vez mais voltado para resultados técnicos, provas padronizadas e conteúdos que, embora importantes, não dão conta da complexidade da vida. A escola ensina matemática, ciências, línguas — mas muitas vezes esquece de ensinar o que é o Ser humano, além do sentido biológico. Esquece de preparar o indivíduo para lidar com suas emoções, tomar decisões éticas, enfrentar desafios econômicos e construir uma vida com propósito.

É urgente repensar a educação. Precisamos de uma formação que vá além do intelecto e alcance o coração, a consciência, o caráter.

Educar para o caráter é cultivar valores como respeito, empatia, honestidade e responsabilidade. Não se trata de doutrinar, mas de oferecer espaços de reflexão, diálogo e vivência. O aluno precisa entender que suas escolhas têm impacto — em si mesmo, nos outros e no mundo.

Educar para a autonomia econômica é ensinar o valor do trabalho, do planejamento, da gestão financeira. É preparar o jovem para lidar com dinheiro de forma consciente, para empreender, para buscar sua independência com dignidade. Isso é liberdade.

Educar para o cumprimento das obrigações é formar cidadãos comprometidos com o coletivo. A escola deve ensinar que disciplina, pontualidade e responsabilidade não são apenas regras, mas ferramentas para construir confiança e respeito mútuo.

Cultivar bem as sementes, deixar que raízes fortes em valores sustentem galhos voltados para o conhecimento e o futuro.

Educar para o amor ao trabalho e ao progresso é inspirar o aluno a enxergar o trabalho como expressão de criatividade e transformação. É mostrar que o progresso não é apenas tecnológico, mas também moral, espiritual e comunitário.

Educar para a inteligência emocional é oferecer ferramentas para que o aluno reconheça suas emoções, lide com frustrações, desenvolva resiliência e construa relações saudáveis. Em um mundo cada vez mais acelerado e exigente, essa habilidade é essencial.

Educar para a vida em sociedade é preparar o indivíduo para conviver com o diferente, respeitar a diversidade, dialogar com maturidade e contribuir para o bem comum. A escola é o primeiro laboratório da cidadania.

A educação que queremos é integral, humanista, prática e transformadora. Uma educação que forma não apenas profissionais, mas pessoas conscientes, livres e comprometidas com o bem.

Educar é um ato de amor, coragem e esperança. Que nossas escolas sejam jardins onde floresçam seres humanos inteiros, livres de preconceitos, medos e com os olhos voltados para as oportunidades da vida propõe, buscando sempre o desenvolvimento integral pessoal e da sociedade, pois esse é o verdadeiro sentido da vida.

sábado, outubro 18, 2025

Somos sociais

Sobre a interdependência humana...

Vivemos cercados por conquistas que não são exclusivamente nossas.  
O alimento que consumimos, muitas vezes, não foi plantado por nossas mãos — e mesmo quando foi, as sementes são fruto de séculos de seleção e conhecimento acumulado por outros.

Vestimos roupas que não costuramos.  
Comunicamo-nos em línguas que não inventamos.  
Pensamos com base em conceitos matemáticos que não descobrimos. Entendemos um pouco de nós pelo esforço de físicos, biólogos e filósofos que detinham um pensamento muita vezes diferenciado do nosso.

Somos protegidos por leis que não criamos, e que são mantidas por pessoas que sequer conhecemos.

A tecnologia que usamos diariamente — dos processadores ao software — é resultado do trabalho de mentes brilhantes que vieram antes de nós.

Somos tocados por músicas que não compusemos. Por poemas escritos antes de nascermos.

Somos curados por médicos, medicamentos e práticas desenvolvidas por gerações de cientistas e profissionais da saúde.

Somos um mosaico de saberes e devemos gratidão a tudo que veio até nós pelas obras de outros semelhantes .... somos feitos de um pouco dos outros, somos sociais na essência.

Tudo o que fazemos está ancorado em uma vasta rede de conhecimento, cultura, esforço e sacrifício humano.  
Somos profundamente interdependentes por tudo que é criado ou foi criado por gerações passadas, somos um acúmulo de experiências e realizações da nossa civilização e ser grato a tudo isso é um ato de humildade e reconhecimento de que somos seres sociais.

quarta-feira, outubro 01, 2025

Entrelaçados


No meio do caos da semana,
num instante que escapa da pressa,

o pensamento sussurra silêncio, 
a saudade que tenho de ti.

Então no reencontro ...
corpos se amassam
bocas se acham

e nossas mãos se procuram
como abrigo antigo.

Na cama, o cansaço,
mas o último suspiro do dia
é a prece muda da gratidão:
estarmos ainda lado a lado,
porto seguro um do outro.

Mesmo que a rotina nos empurre
para lados opostos,
há sempre uma lembrança sutil
dos motivos que nos enlaçaram.

Levar uma vida mais leve
Ter gestos simples diante da vida
Um admirar o outro ...
Entre brigas, risos e distrações 
nos reconectar sempre.

É olhando pra nós que entendemos:
a vida é simples,
o tempo molda,
e o afeto amadurece como fruto

Seguimos assim...

no agito da vida,
no enlace do olhar,
na certeza serena
de que ainda é amor.


terça-feira, setembro 09, 2025

Fizeram amor

Como casal maduro que são, e cansados do dia que ficou pra trás, combinaram de fazer amor mais descansados no dia seguinte bem cedinho para dormirem logo. 

Acordo feito... Se meteram embaixo das cobertas, enquanto ela apoiava a cabeça no ombro dele, ele colocava sua mão nas coxas dela, entrelaçadas as pernas e com os pés juntinhos.... dormiram assim! 

Despertaram bem cedo, trocaram um beijo ainda com o bafo da noite, colocaram uma música suave para tocar ... enquanto ele colocava a mesa do café, ela arrumava a cama, ele fazia ovos mexidos, enquanto ela pegava as coisas na geladeira ... comeram entre olhares carinhosos e risadas. 

Um cuidando do outro, pois sem esse cuidado recíproco, não existe química, paixão ou qualquer outra coisa que consiga fazer um relacionamento perdurar no tempo. No começo, tudo é mágico, as descobertas fazem o relacionamento transbordar nossas vidas, tudo é intenso e as coisas fluem naturalmente. As palavras fluem, as histórias contadas são inéditas e cheias de interesse mútuo de um descobrir um pouco mais sobre o outro. Os gestos encantam e os dias ficam curtos para tanta conexão. Mas aos poucos vamos vendo que o mundo gira ao redor dessa realidade a dois, e temos que voltar para outra realidade, aí emerge a atenção e o esforço no cuidado com o outro, quem ama ... cuida. As conversas perdem um pouco o brilho, os abraços e beijos de outrora, viram rotina e não é que o amor morre de repente, mas ele vai se desfazendo aos poucos. No lugar dele amizade, intimidade, paz, cuidado, gratidão e os lampejos de paixão para incendiar a brasa adormecida.

O calor da noite ditava o desejo da vida, depois do café, ela foi colocar uma roupa bem bonita enquanto ele lavava a louça, foram passear na praia, olhares dizendo mais que palavras, mãos dadas, pausas para abraços, um beijinho numa pedra com a vista do mar.


Estavam mantendo o combinado e fazendo um amor explícito, na frente de todos e sem se importar com o que pensavam. Um amor que não se esconde mas que pulsa e vive a liberdade da entrega, um amor sem tempo e livre para fazerem o que bem quisessem e quando quisessem.


sexta-feira, julho 25, 2025

Culto ao luxo fake que lucra com a alienação coletiva

 Em tempos de redes sociais aceleradas e vitrines digitais infinitas, o culto ao luxo fake se estabeleceu como um fenômeno que vai muito além da estética: ele alimenta uma lógica de alienação coletiva — fabricando desejos, deformando valores e lucrando com a ilusão.

Não é preciso ter para parecer. Essa é a nova regra do jogo.

O cenário atual é dominado por influencers que ostentam marcas de grife, carros de alto padrão e estilos de vida glamourosos — frequentemente sustentados por empréstimos, permutas ou réplicas. Nesse universo, o luxo deixou de ser expressão de sucesso real e passou a ser uma performance: um papel social cuidadosamente encenado para ganhar atenção, seguidores, validação. O consumo virou espetáculo, e quem não entra em cena fica invisível.

Essa encenação não é inofensiva: ela movimenta uma indústria que explora, sem pudor, o desejo por pertencimento. Vendas de produtos falsificados, aluguel de itens de luxo, marcas paralelas e publicidade aspiracional são apenas algumas das engrenagens desse sistema.


As plataformas digitais ajudam a perpetuar o ciclo, recompensando quem parece ter mais — independentemente de como ou por que. Por trás da promessa de sucesso imediato, há uma armadilha emocional. A busca compulsiva por status provoca frustração, ansiedade, baixa autoestima. Muitos consomem como resposta ao vazio, tentando preencher com likes aquilo que falta em si mesmos. Nessa lógica, não há tempo para reflexão, nem espaço para autenticidade: o que importa é ser notado, mesmo que seja só pela casca.

Esse culto ao luxo fake distorce relações, neutraliza a empatia e enfraquece noções importantes como propósito, comunidade e essência. Em vez de fortalecer identidades, uniformiza comportamentos. Em vez de inspirar transformação, promove comparação.

E nesse ritmo acelerado, perdemos o que mais importa: o valor da verdade, do tempo e daquilo que não pode ser comprado. Reconhecer o luxo fake como uma construção vazia é o primeiro passo para romper esse ciclo. É preciso coragem para se desconectar da lógica da aparência e reconectar-se com o que é real: o afeto, a simplicidade, os processos verdadeiros — que não cabem em vitrines, mas preenchem a vida.

Luxo de verdade é viver com significado.




quinta-feira, julho 24, 2025

Quando a evolução nos deixou em pé

Graças a Charles Darwin, fomos capazes de comprovar cientificamente aquilo que já intuíamos: o ser humano, assim como os outros animais e toda a natureza, está em constante evolução. Essa verdade sutil explica as dezenas de inadaptações que ainda habitam nosso organismo — traços herdados de uma vida instintiva que hoje coexistem com uma realidade racional e até espiritual.

Em algum ponto da jornada evolutiva, nossa espécie deu um salto cognitivo que continua envolto em mistério. Alguns atribuem isso ao refinamento da técnica manual; outros à conquista da locomoção bípede, que libertou nossas mãos; há quem defenda que foi nossa alimentação — especialmente entre caçadores coletores — que despertou a mente, com a ingestão de cogumelos alucinógenos desencadeando novas formas de percepção, imaginação e raciocínio.

Mas por que esse salto não ocorreu em outras espécies?

Fato é que, num momento chave da nossa história evolutiva, nosso corpo mudou drasticamente. As sinapses se aceleraram, os sentidos se refinaram, o poder de cognição expandiu. O cérebro cresceu tanto que já não cabia na antiga estrutura. E para sustentá-lo, erguemos a cabeça, perdemos a cauda, assumimos a postura vertical. Nossos quadris e coluna não estavam prontos, e ainda hoje sofremos com a sobrecarga na lombar, nos joelhos, nas articulações.


Ao se erguer, o humano viu mais longe. Caçou, em vez de ser caçado. A visão tornou-se mais importante que o olfato, a cabeça cresceu precocemente — criando um novo desafio à reprodução. Fêmeas tiveram de reduzir o tempo gestacional para acomodar crânios cada vez maiores. Por isso, somos os recém-nascidos mais dependentes do reino animal: enquanto uma girafa já nasce caminhando, nós precisamos de quase um ano só para dar os primeiros passos.

A verticalidade trouxe ganhos, mas também exigiu compensações. O coração teve que se adaptar para bombear sangue contra a gravidade, o sistema digestivo abandonou o processo de ruminação, dependendo cada vez mais das bactérias intestinais. Os sisos tornaram-se vestígios de uma era em que mastigar exigia mais esforço.

E aqui estamos. Bípedes, cabeçudos, frágeis ao nascer, mas gigantes na imaginação ... e se ainda estamos evoluindo é de se supor que ainda estamos pelo caminho.

A evolução não é um caminho de perfeição, mas de transformações. Ela nos deixou com dores nas costas e joelhos problemáticos, mas também com a capacidade de pensar sobre tudo isso — e de contar a nossa própria história com palavras. 

Se a evolução do corpo nos parece mais perceptível, a evolução mental nos mostra a cada dia como éramos e onde chegamos sem nos dar indícios de onde podemos chegar. Resta a questão espiritual que saiu do medo, passou por crenças e que vai nos levando para um encontro consigo mesmo e com o que chamamos por Deus ... aí sim, a perfeição!


quarta-feira, julho 23, 2025

Você é o que sonhou?

Dar certo na vida. O que isso significa, afinal?
Para muitos, é sinônimo de status, conquistas, posses, uma carreira sólida, uma agenda cheia, um perfil que impressiona.
Mas essa definição quase sempre vem de fora — expectativas sociais, padrões impostos, comparações sem fim.

E se mudássemos o foco?
Em vez de olhar para o olhar do outro, que tal olhar para dentro?
Perguntar, com coragem e ternura:
A criança que eu fui teria orgulho do adulto que sou hoje?

A primeira vez que me deparei com essa reflexão estava num momento difícil da vida, tinha conquistado tudo e por fim estava numa cama sem ter absolutamente nada, carreia em transformação filhos longe, amor perdido, dívidas ... e tudo o que conquistei sendo uma pessoa boa? E os amigos que fiz, naturalmente, preocupados com as próprias vidas. Quem poderia me ajudar? Sem ter algo para enfeitar as paredes brancas de um quarto vazio.... encontrei um velho retrato meu de criança e me olhar todo o dia ... o orgulho do que fui perceber que qualquer quer fosse a saída para minha situação, ela estaria dentro de mim mesmo.


Lembrei desse poema do Fernando Pessoa:


A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

Fernando Pessoa 

Aos poucos fui resgatando minha essência, o sorriso e inocência que sempre tive, parei de me culpar pelo que não fiz, descobri que muitos dos erros não estavam realmente em mim, mas que tinha me perdido no emaranhado da vida.

Criança não valoriza cargo nem currículo. Ela quer leveza, verdade, afeto, liberdade. Ela acredita no impossível, faz amigos em minutos, chora sem medo e sonha sem limites. A alma infantil não está preocupada com aparências — ela se importa com sensações. Com a alegria genuína, com o brilho nos olhos, com a aventura do simples.

E você? Será que hoje você ainda ri como antes? Você ainda se emociona com uma música, com um pôr do sol, com uma conversa despretensiosa? Ainda se permite errar e recomeçar?

Dar certo na vida pode ser, sim, conquistar grandes coisas.
Mas também pode ser manter a capacidade de sentir, de amar com inteireza, de brincar mesmo cansado, de cuidar do outro e de si. 
Talvez o sucesso seja simplesmente conseguir preservar a alma de criança em meio à dureza dos dias adultos.

terça-feira, julho 22, 2025

Asas ao vento na beleza de final de tarde

O sol do fim da tarde acaricia as asas das andorinhas em voo,
elas cortam o ar como ases indomáveis,
rasgando o céu com a elegância dos que conhecem o vento.

Brincam como se despreocupadas,
mas por trás da dança há propósito —
a eterna busca da natureza para matar a fome.

Num sistema invisível aos olhos distraídos,
as andorinhas seguem o rastro das nuvens de insetos,
voando com precisão, caçando com instinto,
vivendo a rotina selvagem
que sustenta o equilíbrio silencioso do mundo.



segunda-feira, julho 21, 2025

A Linguagem como Território

Falar é uma coisa curiosa. Ao mesmo tempo em que expressamos aquilo que nos torna comuns, revelamos o que temos de mais singular. A linguagem carrega a marca da coletividade e, também, a assinatura da individualidade.

Existe uma cumplicidade silenciosa entre quem escreve e quem lê. As palavras têm o poder de criar laços, mas também de romper acordos — são pontos de conflito e, paradoxalmente, os instrumentos mais eficazes para resolvê-los. Usar a linguagem é quase um milagre: ela transforma ideias em redes invisíveis que nos conectam.

Assim como as palavras se espalham pelas ruas, reinventando a linguagem falada, nossos pensamentos brotam em formas imprevisíveis. A singularidade de uma ideia pode se manifestar por meio de gírias, sotaques, neologismos. Cada letra forma palavras, que se unem em discursos, que constroem relações — e dentro delas, a própria vida.

O português do Brasil, por exemplo, é uma língua única: resultado de uma fusão rica de outros idiomas, uma identidade linguística que se desdobra e se reinventa. Linguagem é uma das maiores riquezas de um povo. E a forma como ela define o mundo ao nosso redor é o que nos eleva a novos patamares de cultura e consciência.

Compreender a língua que se fala vai além do respeito à gramática ou à norma culta. É reconhecer o outro, sua história, sua identidade. Respeitar diferentes formas de expressão é, sobretudo, respeitar culturas diversas — e esse talvez seja um dos grandes desafios da onda civilizatória, especialmente quando se trata dos povos indígenas originários.

Afinal, o que significa "evoluir"? É abandonar formas antigas ou aprender a conviver com a diversidade?

Impor uma cultura não é apenas silenciar outra — é arrancar sua raiz mais profunda. Às vezes, entender corretamente uma palavra pode ser mais poderoso do que qualquer lei: proteger a “terra” para os povos indígenas não é apenas garantir território físico, mas assegurar que ali permaneça viva sua alma, sua visão de mundo, suas raízes e cultura, enfim ... sua conexão com a vida.

 

domingo, julho 20, 2025

No agito da vida ... no enlace de olhar

Quando paramos no corre corre das nossas vidas, repentinamente o pensamento remete para a paz e o silêncio de ter nossas mãos entrelaçadas.
Quando deitamos nossos corpos  cansados na cama o último suspiro do dia nos remete a gratidão de termos um ao outro como porto seguro. 
E se muitas vezes nossas vidas agitadas parecem nos mover para campos opostos, lembramos das razões que nos trouxeram a estarmos juntos. Seguimos assim ... sempre acreditando com esperança de que é possível melhorar, e basta um cinema as segundas feiras, passeio aleatório, um jantar feito às pressas ... Uns momentos juntos para conectarmos novamente um com o outro.

Nos vendo é possível perceber o quão simples é a vida e que o passar do tempo nos faz mais estáveis, mais maduros, mais cautelosos um com o outro.

Vamos seguindo assim .. no agito da vida, no enlace de olhar!

sábado, julho 19, 2025

Vidas em fragmentos - Quando o tempo parava para ouvir um disco

Houve um tempo em que, nas casas, ouvia-se o último disco de um cantor: um trabalho completo, com princípio, meio e fim. Muitos minutos de música que, na maioria das vezes, atuavam como um ator em cena — regidos por um texto, pela cenografia, pelo som e pelos demais atores. Cada faixa compunha uma parte de algo maior, e não o todo. Não era raro visitar um amigo só para ouvir o disco novo do Chico — ou, no mínimo, o compacto de alguma banda. Alguns álbuns continuam inteiros, analisados em sua totalidade, como verdadeiras obras que marcam o tempo.

Aos poucos, as músicas se dividiram entre as rádios. Os grandes sucessos tornaram-se solitários, órfãos das canções que davam sentido ao conjunto. O disco foi perdendo sua essência como unidade artística — uma representação do momento íntimo de um criador. Tudo ficou mais rápido, mais volátil, mais raso. Os livros afinaram, os jornais perderam páginas, conteúdo, escritores, profundidade. Os textões viraram tweets de 256 caracteres. O mundo perdeu a forma.

Busca-se amor platônico nas dedadas do Tinder. Amores ficaram mais inconstantes, fugazes, superficiais. As vidas ficaram vazias. O medo não nos deixa sair de casa, nos impede de nos conectar. Relações se tornaram fugazes. Ninguém entrega corpo e alma à vida. Espera-se pelo fim de semana, pela quarta à noite, pelo dia sem chuva, pelas férias, pela aposentadoria... pelo prêmio da loteria. E, quando se percebe, não se viveu. Não se amou. Não se sofreu.

Perde-se o sentido da vida porque se corre contra o tempo — sem fazer o devido uso dele.

O que sobra são fragmentos de uma vida inacabada como músicas perdidas e solitárias de um disco bom.


Eu e você ....

 Dá pra explicar o que nos faz gostar de alguém? Dizem que a conexão entre duas pessoas não está nas semelhanças, mas sim na compreensão das diferenças.

Ela é de sol, eu sou de sombra.

Ela é música, eu sou silêncio. 

Eu falo e ela não me escuta.

Ela fala e eu não a escuto.

Ela é de malhar e eu de espreguiçar.

Eu acordo feliz e ela mal humorada.

Eu tenho hora pra acordar, ela não!

Ela é do vinho e eu do refri. 

Sou da surpresa, ela precisa de tudo planejado.

Eu planejo e não cumpro .... ela não planeja mas cumpre.

Ela é do stress e eu sou Zen. 

Sou do mar, e ela da areia.

Prefiro calor e ela frio.

Ela canta e eu ouço.

Ela grita e eu respiro.

Como muito e ela pouco.

Ela é TV e eu sou internet.

Eu chamo ... ela não vem !

Amor não necessariamente é algo construído num plano divino em linhas que se encontram ao longo da vida, muitas vezes a relação e o sentimento são construídos a partir de pequenas e grandes decisões. Criadas e protegidas para se manter, porém não há como negar... o sorriso brota, a preocupação vem na cabeça, o cuidado com o outro prevalece e a vida acaba por sorrir prá nós.

Amar é um ato de coragem, é uma ousadia com nós mesmos. É perder um pouco das nossas autoafirmações e convicções para amar o outro, é ceder em prol de um amor conjunto. Ousar é perder nosso chão momentaneamente. Não ousar é perder a nós mesmos....

quinta-feira, julho 03, 2025

Tudo vai

Os minutos passam e a gente não sente, quando percebemos passaram os minutos, as horas ...

Os dias vão se acumulando em pequenos sentimentos de uma vida frívola e frágil.

Semanas vão passando, quando olhamos, já são meses e o ano surpreendentemente acabou.

O ano que começou depois do carnaval passa pelo interminável agosto onde aguardamos ansiosos pelas festas de fim de ano.

O frisson toma conta de nós e contamos os dias para ver mais um ano se acumular em nossas vidas.

 Os anos passam e a gente não sente 

Sentimos a ausência de um ente querido

Sentimos o que dói a alma 

O que cala a voz

O que estremece o corpo

Quando damos por nós, nossos cabelos caíram

Nossa flexibilidade foi embora 

E o que fica são grandes sentimentos, saudades, gratidões

Um olhar pra trás com orgulho e uma vontade de ficar mais um pouquinho pelo mundo.

Quando somos jovens não temos a sabedoria de ver o tempo passar e temos pressa.

Quando somos velhos temos pouco tempo .... e nem por isso temos pressa

Descobrimos que sentir com calma a vida e ver tudo o que passa por nós nos ajuda a pegar um pouco mais do que a vida nos traz.

E um dia tudo se acaba ... não passa mais.

O tempo segue e a vida para.

nos ajuda a pegar

quarta-feira, junho 04, 2025

Vida que vai

Das peças que a vida nos prega, já passei por muita coisa, passei mas nunca, sem pegar algo de bom de uma situação .... uma lembrança, um aprendizado... e as vezes o gosto amargo de um revés fica, mas se desfaz com o tempo.
Deixei um pouco de mim, também deixei um pouco de vida por onde passei, mas aí você me pergunta: deixou a vida ir embora?  Sim, do contrario o que seria?  A vida é uma ampulheta, nascer o que mais é, senão o inicio da morte. 

Não perderia a vida em vivê-la, perderia se ela passasse e eu não vivesse cada oportunidade que ela descortina dentro da rotina que nos adsorve. Ela esta esvaindo-se a cada minuto, a cada segundo? Então o que melhor se faz é viver cada segundo como se fosse o último. A única coisa imutável na vida é que ela pode mudar a cada segundo, inclusive acabar!

domingo, junho 01, 2025

mais um domingo

Chega o fim de mais um domingo, mais uma semana se passou e o sentimento de sucesso e alívio toma conta de mim. Além do trabalho e das centenas de atribuições de quem tenta reconstruir a vida e criar uma nova família. O sentimento de orgulho próprio é por mais um final de semana. Pouco tempo para saber das novidades, conversar, educar, resolver problemas, se emocionar com a perpetuação da vida, criar laços e construir a nossa própria história .... Viver a vida, com que ela nos propõe. 

Foram anos de muito esforço, planejando as coisas conciliando interesses e me colocando numa posição de elo para fazer a vida fluir. E se hoje o orgulho de ver os filhos fortes, inteligentes e construindo a história deles, não era esse mesmo sentimento, lá atrás quando a insegurança me tirava o sono e quando eu não conseguia ter orgulho nem de mim. Fracassar por vezes é perturbador, mas se fracassei no casamento, espero não ter fracassado como pai, fiz o meu melhor...

Se existe algo difícil numa separação e a perda do convívio com os filhos, e muitas vezes fazia mais que a maioria, mas ainda sim reconheço que não fiz tudo o que podia. Mesmo assim, tudo o que eu fiz foi com um amor imenso, e um sentido de gratidão que vai se.perpetuar até o fim dos meus dias.

sexta-feira, maio 23, 2025

Rio que mora no mar

Vivo numa cidade que enfeitiça, com tudo de bom e de ruim. Entre o silêncio da montanha e o murmurinho da praia cheia, se esconde uma cidade barulhenta.  
Um Rio que não é rio de verdade mas é tão caudaloso no seu encontro com o mar como se fosse. 
Rio verdejante, de batuque cadenciado e sem pressa. 
Rio agitado da correria do dia e da noite frenética.
Rio do chopp Dourado da felicidade, dos botequins quiosques e afins. 
Rio colorido das feiras, cinzento e bonito no inverno, claudicante do calor do verão.
Um Rio de ritmos 
Um Rio sonoro de poesias 
Lar de piratas, de índios onde o mar faz esquina na Baia da Guanabara e faz história, na vida libertária, na vergonha escravista.
Rio preto, branco... Mulato ! 
Rio do mar e do mato.
Da cores e sons, do samba do funk e do jazz ....
De Antônio Cícero a Drummond, de Cazuza a Cartola. O Rio é de Rita, de Tom, de Vinícius, de Leny, de Erasmo... É um Rio baiano de Gil e Caetano ...

É samba, história e poesia. Um lugar onde as letras encontram as melodias, onde as curvas do mar tocam as montanhas acoitadas pelo sol. Onde a beleza toca a alegria, açoitada pela violência.

quarta-feira, maio 21, 2025

Vendo a poesia da vida

Brincadeira que fazem uma criança sorrir 
Sorriso de orgulho da vida
Por do sol iluminando namorados
Nascer de sol inundando de vida mais um dia
Um abrir de olhos 
Um fechar de boca para um beijo
O ir e vir do mar
E as ondas batendo num cais
Se eu gosto de poesia?

Se considerarmos que a poesia está em todas as coisas, desde a natureza até o concreto dos prédios..
Gostar da vida é gostar de poesia 
E entenda-se disso como ver o mundo com os olhos de um expectador de arte
Gente, bichos, plantas todos tem sua poesia escondida
Basta ter olhos abertos para observá-los, na repetição do cotidiano ou nas surpresas da vida.

Para tudo existe poesia, se você estiver aberto a ela, se você tem a sensibilidade na alma.

Visitar lugares
Comer bem 
Se lambuzar com chocolate
Beber um vinho, pensando muito mais no terroir que o criou do que no paladar.
Papos amenos
Conversas sérias
Amizade
Amor
Respeito 
Tem poesia nisso tudo também ... nas sensações, no nosso observar, nas atitudes diante do mundo, nas nuances da vida e que não fica presa nos versos formais.

Muitas vezes os detalhes do cotidiano passam despercebidos pelos nosso olhos, muitas vezes porque esses olhos estão muito treinados a só ver o que se quer, muito porque perdemos o hábito de flanar, de olhar o céu, de ficar em silêncio, de ter empatia. Nos fechamos no nosso mundo, e pouco conhecemos de nós. Quem olha o mundo por um lado poético tem que aprender a desaprender, tem que esquecer o que os dogmas ensinaram, tem que mudar de pensamento para experimentar as nuances da vida e observar tudo como se fosse a primeira vez.

É como ler um texto mais uma vez e entender significados que não observamos no primeiro passar de olhos, é como perceber numa música um solo de guitarra que se perdeu no meio da bateria, e ver num quadro impressionista de Monet nuances de luz e imaginar essa mesma percepção para ele. É muito mais que ter arte em tudo, é saber observar a beleza onde ela não é aparente.

Pra quem tem um olhar atento, a poesia está sempre perto e nos acompanhando. Seja nas pessoas que amamos ou no vinho que compartilhamos, nas pessoas que nos rodeiam ou na natureza e sentimentos. A poesia está nas interações humanas, na obra de Deus. A poesia é uma atitude de abertura pra vida, de enxergar beleza no comum, no simples, no efêmero.

Por isso, basta olhar com alma aberta, com olhos curiosos, com o coração disposto a sentir. A poesia está por toda parte, esperando para ser percebida. No cotidiano e nas surpresas, na simplicidade e no extraordinário. Afinal, viver é, por si só, um ato poético.