Uma fábula sobre presentes principescos, generosidade misteriosa e os segredos que o tempo não consegue esconder.
Conta-se que, em um reino tropical, onde os palácios eram majestosos e a nobreza cultivava amizades tão valiosas quanto os tesouros da Coroa, vivia um príncipe que apreciava os refinamentos da vida.
Entre seus conhecidos encontrava-se um influente mecenas, homem versado nas leis, habituado a frequentar os salões do poder e a transitar entre magistrados, conselheiros e grandes senhores.
Certo dia, segundo relatos que mais tarde circulariam pelo reino, esse generoso personagem teria presenteado o príncipe com um relógio extraordinário.
Não era um relógio comum, desses que os mercadores utilizavam para marcar a abertura das feiras ou que os camponeses consultavam para saber quando regressar aos campos.
Era uma verdadeira joia da relojoaria, adornada com metais preciosos e mecanismos tão sofisticados que seu valor equivaleria ao de uma pequena morada.
— Que admirável amizade! — exclamaram os bobos da corte.
— Que extraordinária generosidade! — acrescentaram os conselheiros.
— E que horas marca tão precioso instrumento? — perguntou um velho filósofo.
— As mesmas horas que qualquer outro relógio — respondeu o relojoeiro.
O filósofo acariciou a barba e murmurou:
— Então talvez seu verdadeiro valor não esteja nas horas que marca, mas nas perguntas que desperta.
E as perguntas não tardaram a surgir.
Antigos conhecidos do príncipe passaram a divulgar mensagens e documentos que sugeriam a existência de outros presentes custosos, equipamentos luxuosos e encontros reservados nos quais os prazeres da nobreza pareciam escapar aos olhos dos habitantes do reino.
Falava-se de banquetes discretos, convidados cuidadosamente escolhidos e festividades que, segundo os relatos, não constavam dos calendários oficiais do palácio. E as dançarinas que diziam ter poderes de enfeitiçar até os bastiões mais imponentes da justiça e do clero, pareciam enfeitiçar toda a corte, dos magistrados aos amigos do chefe dos vassalos, de lordes de reinos longínquos a outros mecenas importantes. Bruxas diziam uns, feiticeiras diziam outros ... pelos relatos eram simples e belas dançarinas.
Os boatos atravessaram as tavernas, ganharam os mercados e finalmente chegaram aos ouvidos dos cronistas.
Mas havia um detalhe importante: nem todas aquelas histórias estavam comprovadas. Algumas dependiam da autenticidade e da interpretação de mensagens, outras provinham de testemunhos contestáveis, e nenhuma deveria ser transformada em sentença apenas pela força dos rumores.
Ainda assim, o povo começou a fazer perguntas.
Por que um mecenas ofereceria presente tão valioso a um príncipe?
Seria apenas amizade?
Seria admiração?
Ou esperaria o generoso benfeitor que, em algum momento, as portas do palácio se abrissem com maior facilidade diante de sua presença?
Não havia resposta definitiva.
E, enquanto os conselheiros discutiam as virtudes da generosidade, um jovem aprendiz procurou o velho filósofo.
— Mestre, receber um presente caro é necessariamente um crime?
— Não, meu rapaz. O valor de um presente, por si só, não demonstra qualquer delito.
— Então por que tantos habitantes desconfiam?
— Porque, quando homens próximos ao poder recebem benefícios extraordinários, torna-se legítimo perguntar se a generosidade é desinteressada ou se pretende comprar influência.
— E como descobriremos a verdade?
O filósofo apontou para a torre do relógio da praça.
— Com documentos, investigação justa e transparência. Não com boatos, nem com a crença de que os poderosos sejam culpados ou inocentes apenas por serem quem são.
O jovem permaneceu em silêncio.
Naquela noite, o príncipe continuou em seus aposentos, os conselheiros regressaram aos banquetes e os habitantes voltaram às suas ocupações.
O relógio, verdadeiro, permanecia como símbolo de uma história ainda envolta em perguntas.
E o reino seguiu sua pacata vida, acostumado aos mistérios da nobreza, aos presentes extraordinários e às explicações que pareciam sempre chegar depois das festividades.
Até que o velho filósofo deixou registrada uma última observação:
“Um relógio pode custar uma fortuna, mas não compra o tempo necessário para apagar as perguntas que a generosidade desperta.”
E assim passaram os dias, os meses e os anos.
Os ponteiros continuaram girando.
Os sinos continuaram tocando.
E o povo continuou esperando.
Porque, naquele reino de faz de conta, até os relógios mais caros conseguiam marcar as horas. O que ninguém sabia era quando chegaria a hora das respostas.






