quarta-feira, outubro 21, 2026

O príncipe e o segredo do cofre templário - capítulo 11

Uma fábula sobre tesouros escondidos, alquimia, segredos de família e a misteriosa Pedra Filosofal.


Conta-se que, em um reino tropical, onde os palácios guardavam segredos e as fortunas da nobreza despertavam a curiosidade dos vassalos nos mais distantes recantos do reino, existia uma antiga casa de custódia administrada por uma ordem de respeitáveis templários.

Suas muralhas eram espessas, suas portas protegidas por pesadas fechaduras e seus cofres tão seguros que nem os mais habilidosos ladrões ousavam desafiá-los.

Era ali, segundo antigos registros, que o príncipe, seu irmão e o rei mantinham um compartimento reservado havia muitos anos.

Ninguém sabia exatamente o que repousava em seu interior.

Poderiam ser documentos, joias, recordações familiares ou simplesmente objetos que seus proprietários preferiam guardar longe dos olhos curiosos.

Entretanto, certo dia, os investigadores do reino encontraram uma anotação que despertou sua atenção.

O misterioso cofre havia sido acessado em data próxima à realização de uma negociação imobiliária que, anos depois, também seria examinada pelos fiscais reais.

A coincidência temporal foi suficiente para despertar perguntas.

— Que tesouros estariam escondidos naquela caixa? — perguntou um mercador.

— Talvez as joias presenteadas pela família real de algum reino amigo! — sugeriu uma dama da corte.

— Ou mapas de antigas terras conquistadas! — arriscou um aventureiro.


Mas um velho alquimista, conhecido por suas teorias extravagantes, apresentou uma explicação ainda mais extraordinária:

— Meus senhores, estou convencido de que ali repousa a lendária Pedra Filosofal!

Fez-se um silêncio na praça.

A Pedra Filosofal era um objeto mítico que, segundo as antigas lendas, possuía o poder de transformar metais comuns em ouro.

— Então está explicado! — exclamou um dos bobos da corte. — Eis o segredo das fortunas principescas!

— Basta colocar algumas moedas de cobre no cofre e retirá-las transformadas em ouro! — acrescentou outro.

Um terceiro, lembrando-se das histórias da fantástica loja de chocolates, gritou:

— Agora compreendo! Primeiro o príncipe transforma cacau em moedas de chocolate, depois a Pedra Filosofal transforma as moedas em ouro!

Os habitantes começaram a rir.

Mas os mais prudentes lembraram que nenhuma prova demonstrava a existência da lendária pedra, tampouco que o cofre tivesse sido utilizado para guardar recursos ilícitos.

O conteúdo do compartimento permanecia desconhecido.

O príncipe e sua família tinham, como quaisquer habitantes do reino, o direito de manter bens particulares em segurança.

Ainda assim, a proximidade entre o acesso ao cofre e a negociação imobiliária examinada pelos fiscais alimentava a curiosidade pública.

Um jovem aprendiz procurou o velho filósofo.

— Mestre, se ninguém sabe o que havia no cofre, podemos afirmar que escondia ouro?

— Não, meu rapaz. O desconhecimento não autoriza transformar imaginação em prova.

— Mas também não podemos afirmar que estivesse vazio!

— Exatamente. E é por isso que a investigação deve procurar fatos, em vez de escolher antecipadamente uma história. Mas afinal quem usa um cofre é porque fortuna tem? Mas num reinado que vive a falar de segurança e vive em palácios com muros altos e milícias dando proteção porque haveriam de guardar moedas num cofre se existiam tantos baús nos palácios ?

O aprendiz refletiu por alguns instantes.

— Então a Pedra Filosofal pode não passar de uma invenção?

O filósofo sorriu.

— A alquimia sempre prometeu transformar metais em ouro. Mas há uma transformação ainda mais perigosa, meu jovem.

— Qual, mestre?

— Aquela que transforma suspeitas em certezas sem passar pelo trabalho da demonstração.

Os anos passaram, e o cofre continuou ocupando lugar especial nas histórias do reino.

Alguns acreditavam que guardara documentos sem importância. Outros imaginavam riquezas extraordinárias. E os bobos da corte, encantados com a hipótese da Pedra Filosofal, continuavam contando suas versões nas tavernas.

Nenhuma delas, entretanto, revelava o que realmente existira dentro do compartimento.

Até que, certa noite, o velho filósofo escreveu em seu diário:

“Um cofre fechado pode guardar ouro, documentos ou apenas lembranças. O que não pode guardar para sempre é a curiosidade de um povo que deseja compreender os negócios daqueles que o governam.”

E acrescentou:

“Mas que ninguém se esqueça: uma fechadura não é confissão, um segredo não é delito e uma coincidência não é prova.”

Assim terminou a história do cofre templário.

Ou talvez não.

Porque, naquele reino de faz de conta, os alquimistas continuavam procurando a Pedra Filosofal, os fiscais continuavam seguindo os registros e os habitantes continuavam fazendo perguntas.

E os bobos da corte permaneciam divididos: alguns acreditavam que o príncipe escondia a Pedra Filosofal; outros tinham absoluta certeza de que ele próprio era o maior alquimista do reino.

Afinal, dizia uma velha senhora na praça:

“Neste reino, o verdadeiro mistério nunca foi saber como transformar chumbo em ouro, mas descobrir por que tantas histórias sobre moedas acabam chegando às portas dos mesmos palácios.”

O príncipe e a quinta de seis milhões de moedas - capítulo 10

Uma fábula sobre castelos, chocolates, banqueiros generosos e a misteriosa arte de multiplicar fortunas.



Era uma vez, em um reino tropical onde os palácios se erguiam majestosos e os nobres pareciam conhecer segredos financeiros desconhecidos pelos simples camponeses, um príncipe que decidiu adquirir uma magnífica quinta na capital.

Não era uma propriedade qualquer. Possuía amplos salões, jardins cuidadosamente cultivados, aposentos confortáveis e espaço suficiente para abrigar uma pequena corte, uma verdadeira Casa da Dinda.

Segundo os registros dos tesoureiros reais, a aquisição custara aproximadamente seis milhões de moedas.

Quando a notícia se espalhou pelas aldeias, os habitantes ficaram admirados.

— Seis milhões! — exclamou um camponês. — Quantas colheitas seriam necessárias para reunir tamanha fortuna?

— Depende — respondeu um mercador. — Talvez o príncipe tenha descoberto uma plantação que produz moedas em vez de frutos!

Um dos bobos da corte, sempre disposto a defender as virtudes comerciais da nobreza, apressou-se em explicar:

— Não sejam ignorantes! Nosso príncipe é um extraordinário negociante. Já não ouviram falar de sua fantástica loja de chocolates?

Todos se lembraram imediatamente do estabelecimento onde, segundo antigas suspeitas dos fiscais, as moedas pareciam circular com uma desenvoltura que despertara grande curiosidade.

— Ah, sim! — comentou um padeiro. — A famosa fábrica onde alguns acreditavam que o cacau podia transformar-se em ouro!

Mas o príncipe apresentou uma explicação bem menos fantástica.

Declarou que a aquisição fora realizada com recursos provenientes de negócios anteriores, da venda de outra propriedade e de um financiamento concedido por uma instituição bancária.

Os registros confirmavam a compra e a existência do financiamento. Nada disso, por si só, demonstrava qualquer irregularidade.

Ainda assim, alguns habitantes começaram a fazer perguntas.

— Qual teria sido o lucro da loja de chocolates?

— Quanto rendera a venda das propriedades anteriores?

— E em que condições o banqueiro concedera tão generoso empréstimo?

Os conselheiros mais entusiasmados logo se irritaram.

— Que insolência! — protestou um deles. — Desde quando um príncipe precisa explicar como compra seu castelo?

Um velho filósofo, que escutava a conversa, respondeu serenamente:

— Desde que a transparência passou a ser considerada uma virtude daqueles que exercem funções públicas.

— Mas a riqueza não é crime! — retrucou o conselheiro.

— Naturalmente que não — concordou o sábio. — E tampouco o financiamento bancário. Contudo, perguntar sobre a origem de uma fortuna não equivale a acusar alguém de roubá-la.

A discussão ganhou os mercados, as tavernas e os corredores do palácio.

Alguns viam na aquisição uma demonstração da habilidade empresarial do príncipe. Outros consideravam legítimo examinar se seus rendimentos e negócios anteriores eram compatíveis com o valor da propriedade.

Os bobos da corte, entretanto, não conseguiam chegar a um acordo.

Um deles proclamava:

— Nosso príncipe possui o toque de Midas! Tudo o que negocia se transforma em ouro!

Outro, menos impressionado, perguntou:

— Então por que precisou pedir moedas emprestadas ao banqueiro?

Fez-se um silêncio constrangedor.

Até que um terceiro bobo, desejando encerrar a discussão, declarou:

— Porque até os homens mais ricos podem preferir financiar uma compra! É sinal de sabedoria fazer as moedas circularem.

E, desta vez, o velho filósofo concordou.

— Exatamente. Contrair um empréstimo não é sinal de fraude. O importante é que as condições sejam legítimas e que a origem dos recursos próprios possa ser esclarecida quando houver razões justificadas para examiná-la.

O jovem aprendiz, que acompanhava a conversa, aproximou-se do sábio.

— Mestre, afinal, o príncipe tinha direito de comprar aquela quinta?

— Certamente, meu rapaz. A lei não proíbe os governantes de possuir bens.

— E o povo tinha direito de perguntar como ele pagou?

— Também. O direito à propriedade não elimina o dever de prestar esclarecimentos sobre questões de interesse público.

— Então por que os bobos da corte discutem tanto?

O filósofo sorriu.

— Porque alguns acreditam que toda fortuna é suspeita, enquanto outros imaginam que toda fortuna de seu príncipe é necessariamente virtuosa. Ambos se esquecem de examinar os fatos.

E assim a grande quinta permaneceu de pé, cercada por jardins, muralhas e perguntas.

A compra era verdadeira, os valores estavam registrados e o príncipe havia apresentado suas justificativas. As dúvidas levantadas pelos habitantes não constituíam, isoladamente, prova de crime.

Mas a história continuou sendo contada nas praças, sobretudo quando alguém mencionava chocolates, negócios imobiliários ou banqueiros.

Certa manhã, o velho filósofo deixou uma reflexão escrita na porta da biblioteca:

“Não há desonra em possuir um castelo. A desonra estaria em adquiri-lo por meios ilícitos, caso isso fosse demonstrado. E não há injustiça em fazer perguntas, desde que não se transformem suspeitas em condenações.”

Os habitantes leram a mensagem e regressaram aos seus afazeres.

Alguns continuaram admirando a fortuna do príncipe. Outros continuaram desejando compreender melhor seus negócios.

E nem todos os bobos da corte acreditavam nas mesmas fábulas.

Pois, naquele reino de faz de conta, o verdadeiro mistério não era saber se o chocolate podia transformar-se em ouro, mas compreender como as moedas encontravam tão facilmente o caminho dos grandes castelos.


terça-feira, outubro 20, 2026

O príncipe e as casas que se multiplicavam em ouro - capítulo 9

Uma fábula sobre terras improdutivas, negócios extraordinários e as moedas que despertaram a curiosidade do fisco real.



Conta-se que, em um reino tropical, onde as terras eram vastas e os palácios frequentemente escondiam mais segredos que os antigos castelos, vivia um príncipe que demonstrava notável interesse pelo comércio de propriedades.

Não se contentava com as responsabilidades da corte. Entre uma reunião de conselheiros e outra, encontrava tempo para negociar quintas, solares e tenências, revelando um talento comercial que despertava a admiração de seus mais fiéis seguidores.

Certa ocasião, adquiriu duas propriedades por uma quantia relativamente modesta. Eram, segundo suas explicações, quintas pouco produtivas, que não ofereciam grandes rendimentos nem despertavam especial interesse.

Entretanto, algum tempo depois, aquelas mesmas propriedades foram vendidas por uma soma extraordinariamente superior.

A notícia percorreu o reino.

— Que maravilha! — exclamou um dos bobos da corte. — Nosso príncipe descobriu como fazer as terras produzirem ouro sem sequer plantar uma única semente!

— Talvez tenha encontrado uma mina! — sugeriu outro.

— Ou quem sabe as propriedades tenham sido abençoadas por alguma fada imobiliária! — acrescentou um terceiro.

Os conselheiros mais entusiasmados logo proclamaram que o príncipe possuía o raro dom de transformar terras improdutivas em fortunas.

Mas os fiscais do reino, pouco inclinados a acreditar em encantamentos, resolveram examinar os livros de registros.

E foi então que encontraram movimentações de moedas que despertaram sua atenção.

Havia pagamentos em espécie, valores declarados nas escrituras e circunstâncias financeiras que, segundo os investigadores, mereciam esclarecimentos.

Começaram a perguntar se todas as moedas envolvidas nas negociações haviam sido devidamente informadas ao tesouro real.

Seria apenas uma operação imobiliária especialmente lucrativa?

Teriam as propriedades adquirido valor por circunstâncias legítimas do mercado?

Ou existiriam pagamentos que não haviam sido integralmente registrados?

O príncipe afirmou que seus negócios eram honestos, que as propriedades haviam sido adquiridas e vendidas legitimamente e que nenhuma irregularidade fora cometida.

Seus defensores lembravam, com razão, que comprar barato e vender caro não constitui crime, assim como enriquecer por meio de negócios legítimos não é privilégio exclusivo da nobreza.

Mas os investigadores desejavam compreender o percurso das moedas.

Reuniram documentos, examinaram registros e levaram suas suspeitas aos tribunais.

Foi então que a história encontrou um novo personagem: a própria Justiça do reino.

Entre recursos, decisões e discussões sobre a validade das provas, parte dos elementos utilizados nas investigações acabou sendo invalidada. As acusações não resultaram em condenação definitiva do príncipe.

Os bobos da corte celebraram.

— Vejam! — gritavam. — Está provado que as terras eram mágicas!

Mas um velho filósofo, que acompanhava os acontecimentos da praça, corrigiu:

— Não, meus amigos. A ausência de condenação não prova a existência de magia. Significa que não houve uma decisão judicial definitiva estabelecendo a culpa. E isso deve ser respeitado.

Um jovem aprendiz aproximou-se e perguntou:

— Mestre, então o príncipe não poderia ter obtido um lucro tão grande de maneira honesta?

— Naturalmente que poderia — respondeu o sábio. — O mercado pode valorizar propriedades de forma extraordinária. O que os fiscais procuravam descobrir era se todas as transações haviam sido corretamente declaradas.

— E por que os habitantes continuam fazendo perguntas?

O filósofo apontou para as muralhas do palácio.

— Porque os homens públicos não são proibidos de enriquecer, mas devem compreender que sua proximidade com o poder torna legítimo o interesse da sociedade pela transparência de seus negócios.

O aprendiz pensou por alguns instantes.

— Então uma propriedade improdutiva pode produzir uma grande fortuna?

— Pode, meu rapaz. Mas não deveria produzir explicações tão difíceis de compreender quanto os encantamentos dos antigos alquimistas.

E assim, no Reino Tropical, as duas propriedades passaram a integrar as histórias mais curiosas da corte.

Para alguns, eram demonstração do talento comercial do príncipe. Para outros, permaneciam motivo de perguntas sobre valores e movimentações financeiras.

E, sem uma condenação que comprovasse as suspeitas, cabia aos habitantes distinguir a curiosidade legítima da acusação precipitada.

O velho filósofo, antes de recolher-se à biblioteca, deixou registrada sua última reflexão:

“A terra pode multiplicar seu valor sem produzir uma única espiga de trigo. Mas a confiança pública somente floresce quando os negócios dos poderosos podem ser examinados à luz do dia.”

E os bobos da corte continuaram anunciando o extraordinário talento imobiliário do príncipe.

Pois, naquele reino de faz de conta, havia propriedades que não produziam frutos, não criavam animais e não cultivavam trigo — mas, segundo os relatos, eram capazes de render uma verdadeira colheita de ouro.


segunda-feira, outubro 19, 2026

O príncipe e os espiões das sombras - capítulo 8

 Uma fábula sobre segredos de Estado, lealdades perigosas e os olhos invisíveis do poder.



Conta-se que, em um reino tropical, cercado por terras distantes e governado por uma família que muito apreciava proclamar seu amor à pátria, existia uma poderosa organização de espiões.

Sua missão era nobre: proteger o reino contra inimigos estrangeiros, descobrir ameaças ocultas e garantir a segurança de seus habitantes.

Seus agentes conheciam línguas desconhecidas, dominavam a arte dos disfarces e possuíam instrumentos capazes de revelar segredos que nem os mais astutos mercadores conseguiriam esconder.

Eram, em teoria, os olhos e os ouvidos do reino.

Mas, como acontece nas histórias em que o poder se acostuma a confundir o palácio com o próprio Estado, começaram a circular rumores inquietantes.

Diziam que alguns espiões, em vez de vigiar ameaças vindas de terras estrangeiras, haviam passado a observar os próprios habitantes do reino.

Não se tratava apenas de ladrões, conspiradores ou inimigos da Coroa.

Entre os alvos mencionados nas investigações estavam adversários políticos, pessoas consideradas inconvenientes e até funcionários encarregados de examinar assuntos delicados envolvendo a família real.

Um velho conselheiro, ao ouvir as primeiras notícias, teria perguntado:

— Mas, afinal, os espiões não foram criados para proteger o reino?

— Certamente! — respondeu um outro conselheiro real.

— Então por que estariam interessados em descobrir o que fazem aqueles que investigam os negócios do príncipe?

O conselheiro ajeitou o colarinho, olhou discretamente para as portas e respondeu:

— São questões de segurança, meu caro.

— Segurança de quem? Da corte? — insistiu o conselheiro.

E foi nesse instante que a conversa terminou.

Os anos passaram, e os investigadores começaram a reunir mensagens, registros e relatos sobre possíveis utilizações indevidas da organização de espiões reais.

Entre os acontecimentos examinados estava uma reunião no palácio, da qual teriam participado o velho rei, um importante chefe dos espiões e representantes da defesa do príncipe.

O encontro passou a integrar as apurações sobre uma possível tentativa de obter informações relacionadas aos fiscais que investigavam assuntos da família real.

O rei, acostumado a dar ordens e receber reverências, viu-se diante de perguntas que não podiam ser respondidas apenas com discursos nas praças.

Os registros daquela reunião passaram a ser examinados pelos investigadores, que procuravam compreender o que fora discutido e se alguma estrutura pública teria sido utilizada para interesses particulares.

O príncipe, por sua vez, não poderia ser considerado culpado apenas porque seu nome aparecia entre os assuntos investigados. Não havia condenação que demonstrasse que ele tivesse ordenado ou recebido serviços ilegais da organização.

Mas a dúvida persistia.

Se os espiões eram pagos com as moedas dos habitantes, a quem deveriam sua lealdade?

Ao rei?

Ao príncipe?

Ou às leis que governavam o reino?

Certa noite, um jovem aprendiz encontrou o velho filósofo diante da biblioteca real.

— Mestre, é errado que um rei procure informações para proteger sua família?

O sábio respondeu:

— Um pai pode desejar proteger seus filhos. Mas um governante não pode transformar os instrumentos do Estado em propriedade de sua casa.

— E se os espiões agiram sem que o príncipe soubesse?

— Então é preciso investigar quem lhes deu ordens, quais atos praticaram e quem deles se beneficiou. A suspeita não substitui a prova, assim como o silêncio não substitui a explicação.

O jovem refletiu.

— Mas, mestre, se os espiões conseguem descobrir os segredos de todos, quem descobre os segredos dos espiões?

O filósofo sorriu.

— Eis a pergunta que distingue um reino de cidadãos de um reino de súditos.

E acrescentou:

— Onde há leis, até os homens que trabalham nas sombras precisam responder à luz da Justiça.

E assim, enquanto os agentes continuavam seus trabalhos e os investigadores examinavam os registros do palácio, os habitantes do reino aprenderam que o maior perigo de uma organização secreta nem sempre vem de seus inimigos.

Às vezes, surge quando aqueles que a comandam esquecem a diferença entre servir ao Estado e servir aos interesses da corte.

Porque os olhos do reino devem vigiar as ameaças à liberdade, jamais transformar a liberdade em ameaça ao poder.

E o velho filósofo deixou uma última reflexão:

“Quando os espiões passam a observar aqueles que fiscalizam os poderosos, talvez seja o próprio poder que precise ser observado.”


domingo, outubro 18, 2026

O príncipe e o mistério do cavalo negro - capítulo 7

Uma fábula sobre vaidade, espetáculos grandiosos e as moedas que circulavam nos bastidores.



Conta-se que, em um reino tropical, onde a nobreza apreciava tanto os aplausos quanto os privilégios, surgiu um projeto destinado a eternizar os grandes feitos do velho rei.

Não seria uma simples apresentação nas praças, dessas em que artistas mambembes divertiam os camponeses em troca de algumas moedas. Pretendia-se criar um espetáculo grandioso, capaz de percorrer feiras, teatros e salões, narrando as aventuras do monarca como se fossem as façanhas de um herói lendário.

A obra recebeu um nome misterioso: O Azarão. 

Os arautos anunciaram que o público conheceria a coragem do soberano, suas batalhas e as dificuldades que enfrentara para alcançar o trono.

Entretanto, enquanto os artistas ensaiavam suas falas e os carpinteiros construíam os cenários, outra história começava a se desenrolar longe dos palcos.

Era a história das moedas.

Para financiar tamanho espetáculo, seriam necessários baús de ouro, carruagens, figurinos, músicos e toda uma companhia de artistas.

E, como frequentemente acontece quando o poder se aproxima das artes, apareceram mecenas interessados em contribuir para a glorificação do rei.

Alguns possuíam fortunas tão extraordinárias que suas moedas pareciam não conhecer o fundo dos cofres.

Certo dia, chegaram aos ouvidos dos conselheiros notícias de pedidos e possíveis transferências de somas gigantescas destinadas à produção.

As quantias eram tão elevadas que um velho contador, acostumado a calcular os tributos de aldeias inteiras, teria exclamado:

— Por todos os santos do reino! Com tamanho tesouro, poderíamos construir não apenas um teatro, mas uma cidade inteira para assistir ao espetáculo!

Os investigadores começaram então a examinar documentos, relatos e movimentações financeiras.

Quem havia prometido tantas moedas?

Quem efetivamente as entregara?

Por quais cofres teriam passado?

E que destino lhes fora reservado?

O nome do príncipe também surgiu nas apurações, em meio a relatos sobre pedidos de financiamento a um famoso mecenas. Ele negou qualquer irregularidade, enquanto os responsáveis pela investigação procuravam distinguir negociações legítimas, promessas e eventuais transferências de recursos.

Era importante, afinal, não confundir suspeitas com fatos comprovados.

Mas as perguntas começaram a incomodar os habitantes do reino.

Por que senhores tão poderosos desejariam financiar a glorificação do monarca?

Seria puro amor às artes?

Admiração pela história?

Ou esperariam os generosos mecenas conquistar alguma influência junto à família real?

Enquanto isso, no teatro, os atores continuavam ensaiando.

Um deles, encarregado de representar o velho rei, ergueu sua espada de madeira e proclamou:

— Sou o defensor das virtudes e o inimigo dos privilégios!

Nesse instante, um aprendiz, que acompanhava os ensaios, cochichou ao ouvido do diretor:

— Mestre, se o espetáculo é sobre as virtudes do rei, por que os fiscais estão tão interessados nos tesoureiros?

O diretor, temendo perder o financiamento, respondeu:

— Silêncio, rapaz! No teatro, cada personagem deve conhecer seu papel!

O jovem insistiu:

— Mas quem escreveu a história?

— Os dramaturgos, naturalmente!

— E quem paga aos dramaturgos?

O diretor permaneceu calado.

A pergunta atravessou os bastidores e chegou aos ouvidos de um velho filósofo que assistia aos ensaios.

Este sorriu e comentou:

— Meu jovem, todo espetáculo possui duas histórias. A primeira é aquela que os artistas representam diante do público. A segunda é a que se desenrola atrás das cortinas.

— E qual delas é a verdadeira? — perguntou o aprendiz.

— Ambas podem conter verdades. Mas a segunda, quando envolve grandes fortunas e homens da corte, exige livros de contas tão claros quanto o texto apresentado no palco.

Os meses passaram.

O Azarão continuou cercado de expectativas, enquanto os investigadores procuravam esclarecer a origem e a destinação dos recursos mencionados nas apurações.

Não havia sentença que autorizasse transformar todas as suspeitas em crimes demonstrados.

Mas o velho filósofo deixou uma reflexão aos habitantes:

“Quando os poderosos financiam a própria glória, cabe ao povo perguntar quem paga pelo espetáculo e o que espera receber em troca.”

E assim, no Reino Tropical, enquanto os artistas preparavam a história oficial do grande monarca, outra narrativa se escrevia silenciosamente nos bastidores.

Uma narrativa de mecenas, moedas, promessas e perguntas ainda sem resposta e moedas que não chegavam para pagar as despesas do espetáculo.

Pois, naquele reino de faz de conta, o Azarão talvez fosse apenas o título de uma peça. A verdadeira sorte estava em descobrir quem segurava as rédeas dessa fábula.

sábado, outubro 17, 2026

O príncipe e o relógio das horas douradas - capítulo 6

Uma fábula sobre presentes principescos, generosidade misteriosa e os segredos que o tempo não consegue esconder.


Conta-se que, em um reino tropical, onde os palácios eram majestosos e a nobreza cultivava amizades tão valiosas quanto os tesouros da Coroa, vivia um príncipe que apreciava os refinamentos da vida.

Entre seus conhecidos encontrava-se um influente mecenas, homem versado nas leis, habituado a frequentar os salões do poder e a transitar entre magistrados, conselheiros e grandes senhores.

Certo dia, segundo relatos que mais tarde circulariam pelo reino, esse generoso personagem teria presenteado o príncipe com um relógio extraordinário.

Não era um relógio comum, desses que os mercadores utilizavam para marcar a abertura das feiras ou que os camponeses consultavam para saber quando regressar aos campos.

Era uma verdadeira joia da relojoaria, adornada com metais preciosos e mecanismos tão sofisticados que seu valor equivaleria ao de uma pequena morada.

— Que admirável amizade! — exclamaram os bobos da corte.

— Que extraordinária generosidade! — acrescentaram os conselheiros.

— E que horas marca tão precioso instrumento? — perguntou um velho filósofo.

— As mesmas horas que qualquer outro relógio — respondeu o relojoeiro.

O filósofo acariciou a barba e murmurou:

— Então talvez seu verdadeiro valor não esteja nas horas que marca, mas nas perguntas que desperta.

E as perguntas não tardaram a surgir.

Antigos conhecidos do príncipe passaram a divulgar mensagens e documentos que sugeriam a existência de outros presentes custosos, equipamentos luxuosos e encontros reservados nos quais os prazeres da nobreza pareciam escapar aos olhos dos habitantes do reino.

Falava-se de banquetes discretos, convidados cuidadosamente escolhidos e festividades que, segundo os relatos, não constavam dos calendários oficiais do palácio. E as dançarinas que diziam ter poderes de enfeitiçar até os bastiões mais imponentes da justiça e do clero, pareciam enfeitiçar toda a corte, dos magistrados aos amigos do chefe dos vassalos, de lordes de reinos longínquos a outros mecenas importantes. Bruxas diziam uns, feiticeiras diziam outros ... pelos relatos eram simples e belas dançarinas. 

Os boatos atravessaram as tavernas, ganharam os mercados e finalmente chegaram aos ouvidos dos cronistas.

Mas havia um detalhe importante: nem todas aquelas histórias estavam comprovadas. Algumas dependiam da autenticidade e da interpretação de mensagens, outras provinham de testemunhos contestáveis, e nenhuma deveria ser transformada em sentença apenas pela força dos rumores.

Ainda assim, o povo começou a fazer perguntas.

Por que um mecenas ofereceria presente tão valioso a um príncipe?

Seria apenas amizade?

Seria admiração?

Ou esperaria o generoso benfeitor que, em algum momento, as portas do palácio se abrissem com maior facilidade diante de sua presença?

Não havia resposta definitiva.

E, enquanto os conselheiros discutiam as virtudes da generosidade, um jovem aprendiz procurou o velho filósofo.

— Mestre, receber um presente caro é necessariamente um crime?

— Não, meu rapaz. O valor de um presente, por si só, não demonstra qualquer delito.

— Então por que tantos habitantes desconfiam?

— Porque, quando homens próximos ao poder recebem benefícios extraordinários, torna-se legítimo perguntar se a generosidade é desinteressada ou se pretende comprar influência.

— E como descobriremos a verdade?

O filósofo apontou para a torre do relógio da praça.

— Com documentos, investigação justa e transparência. Não com boatos, nem com a crença de que os poderosos sejam culpados ou inocentes apenas por serem quem são.

O jovem permaneceu em silêncio.

Naquela noite, o príncipe continuou em seus aposentos, os conselheiros regressaram aos banquetes e os habitantes voltaram às suas ocupações.

O relógio, verdadeiro, permanecia como símbolo de uma história ainda envolta em perguntas.

E o reino seguiu sua pacata vida, acostumado aos mistérios da nobreza, aos presentes extraordinários e às explicações que pareciam sempre chegar depois das festividades.

Até que o velho filósofo deixou registrada uma última observação:

“Um relógio pode custar uma fortuna, mas não compra o tempo necessário para apagar as perguntas que a generosidade desperta.”

E assim passaram os dias, os meses e os anos.

Os ponteiros continuaram girando.

Os sinos continuaram tocando.

E o povo continuou esperando.

Porque, naquele reino de faz de conta, até os relógios mais caros conseguiam marcar as horas. O que ninguém sabia era quando chegaria a hora das respostas.

Nem o príncipe, nem os nobres, nem os magistrados, nem o líder dos vassalos responderam com convicção para as hordas de bobos da corte que os seguem, cegos diante da verdade.


sexta-feira, outubro 16, 2026

O príncipe e a fantástica loja de chocolates - Capítulo 5

Uma fábula sobre doces, moedas misteriosas e os prodígios da contabilidade real.



Era uma vez, em um reino tropical onde os palácios reluziam ao sol e os nobres pareciam possuir talentos que escapavam à compreensão dos simples mortais, um príncipe que resolveu aventurar-se no comércio.

Cansado, talvez, das intermináveis discussões do palácio legislativo, tornou-se sócio de uma pequena loja de chocolates, instalada em uma movimentada feira comercial do reino.

Ali se vendiam bombons, trufas, barras de cacau e outras delícias capazes de adoçar até o humor dos mais rabugentos conselheiros reais.

Mas a lojinha possuía uma característica extraordinária: parecia ter uma habilidade especial para movimentar moedas.

E não, meu caro leitor, não estamos falando de moedas de chocolate!

Certo dia, os fiscais do reino, munidos de pergaminhos, ábacos e uma curiosidade inconveniente, resolveram comparar os registros comerciais com as quantias depositadas nos cofres da empresa.

Foi então que encontraram diferenças que lhes pareceram dignas de investigação.

Os números registrados em determinados documentos não correspondiam exatamente aos valores que circulavam pelas contas da pequena loja.

Os fiscais coçaram suas barbas.

Os contadores conferiram seus ábacos.

E os conselheiros começaram a cochichar pelos corredores.

— Seria alquimia? — perguntou um.

— Magia negra? — sugeriu outro.

— Bruxaria! — exclamou um terceiro, que nunca compreendera muito bem a matemática.

Um velho mercador, mais experiente, levantou uma hipótese ainda mais extraordinária:

— Talvez o príncipe tenha descoberto o segredo do lendário rei Midas, aquele que transformava em ouro tudo o que tocava!

E assim nasceu a famosa Teoria do Midas Tropical.

Segundo seus entusiasmados defensores, bastaria o príncipe tocar uma caixa de bombons para que dela brotassem moedas de ouro.

Os bobos da corte ficaram maravilhados.

— Que talento comercial! — gritavam.

— Que extraordinário empreendedor! — aplaudiam.

— Se o príncipe transforma cacau em ouro, por que não o nomeamos Ministro das Finanças? — perguntou um deles, provocando gargalhadas no salão.

Mas os investigadores, pouco afeitos à magia, levantaram uma possibilidade menos encantadora: suspeitaram que parte das moedas pudesse ter origem diferente da venda de chocolates e que a loja talvez estivesse sendo utilizada para disfarçar sua procedência.

Os responsáveis pelo estabelecimento contestaram as suspeitas. Alegaram que suas atividades eram legítimas e que as diferenças apontadas não demonstravam qualquer irregularidade.

Os tribunais não produziram condenação que confirmasse a utilização da loja para esconder dinheiro ilícito.

Ainda assim, a história percorreu tavernas, mercados e salões de banquetes.

Certa tarde, um jovem aprendiz perguntou ao velho sábio:

— Mestre, afinal, o príncipe possuía mesmo o toque de Midas?

O sábio sorriu.

— Não sei, meu rapaz. E tampouco podemos afirmar que tenha praticado algum crime sem provas válidas. Mas existe uma diferença entre a magia dos contos e a contabilidade dos comerciantes.

— Qual diferença, mestre?

— Nos contos, basta acreditar para que o encantamento funcione. Na contabilidade, é preciso demonstrar de onde vieram as moedas.

O jovem refletiu por alguns instantes.

— Então por que tantos bobos da corte acreditavam na teoria de Midas?

O velho respondeu:

— Porque há quem confunda admiração com explicação. E, quando um príncipe é muito admirado, até uma pergunta sobre números pode ser recebida como ofensa à Coroa.

E assim, a pequena loja continuou sendo lembrada não apenas pelos doces que vendia, mas pelas perguntas que despertou.

A Teoria do Midas Tropical jamais foi reconhecida pelos sábios como explicação científica, tampouco as suspeitas dos fiscais se converteram em condenação criminal.

Mas os habitantes aprenderam uma lição que nenhum alquimista poderia contestar:

O chocolate pode adoçar a boca, o ouro pode encantar os olhos, mas somente a transparência consegue esclarecer a origem das moedas.

E o velho sábio encerrou a história com uma última observação:

“Em um reino de faz de conta, acredita-se que o príncipe transforma chocolate em ouro. Em um reino de cidadãos, espera-se que todo comerciante consiga explicar suas contas.”


quinta-feira, outubro 15, 2026

O príncipe e o fiel guardião dos tesouros - Capítulo 4

Uma fábula sobre confiança, lealdade e os mistérios que se escondem nos cofres do poder.



Era uma vez, em um reino tropical onde os palácios brilhavam sob o sol e os cofres da nobreza pareciam guardar mais segredos do que moedas, um príncipe que possuía um companheiro de longa data.

Não era um simples servidor. Era um homem de confiança, daqueles que conheciam os corredores do palácio, os hábitos de seus moradores e as portas que deveriam permanecer fechadas aos visitantes.

O príncipe confiava tanto naquele guardião que lhe permitia cuidar de assuntos delicados da corte. E, como acontece em muitos reinos, a confiança era considerada uma virtude — embora nem sempre viesse acompanhada da necessária fiscalização.

Durante anos, a rotina transcorreu sem grandes sobressaltos nas vielas escuras do reino. Os vassalos recebiam seus salários, os nobres participavam dos banquetes e o guardião continuava circulando discretamente pelos salões.

Até que, certo dia, os fiscais do reino resolveram examinar os livros de contas.

E encontraram algo curioso.

Grandes quantidades de moedas atravessavam os registros financeiros do fiel guardião. Algumas chegavam das mãos de servidores que trabalhavam para o príncipe. Outras seguiam caminhos tortuosos, passando por diferentes contas e personagens, como se percorressem um labirinto construído especialmente para confundir os curiosos.

Os investigadores começaram a se perguntar por que um homem encarregado de servir ao palácio movimentava tamanha quantidade de riquezas.

Seriam empréstimos? Presentes? Negócios particulares? Ou existiria, como suspeitavam os fiscais, uma espécie de pedágio secreto cobrado daqueles que desejavam permanecer a serviço da nobreza?

O guardião foi acusado de organizar a arrecadação de moedas que, segundo os investigadores, deveriam permanecer nos bolsos dos trabalhadores.

Mas havia outra pergunta, ainda mais delicada, que percorria os corredores do reino:

Como um guardião poderia administrar tantos recursos, durante tanto tempo, sem que seu príncipe soubesse o que acontecia?

O príncipe negava conhecer qualquer irregularidade. Dizia que confiara em seu antigo companheiro e que não poderia ser responsabilizado por movimentações financeiras que desconhecia.

Os fiscais reuniram documentos, examinaram contas e apresentaram acusações aos tribunais. Entretanto, decisões judiciais invalidaram provas importantes, comprometendo o andamento do processo real. Nenhuma condenação definitiva estabeleceu a responsabilidade criminal do príncipe ou do guardião naquele caso.

O tempo passou, mas a história continuou sendo contada nas tavernas, nos mercados e nas praças.

Certa tarde, um jovem perguntou ao velho sábio do reino:

— Mestre, se os juízes não condenaram o guardião, podemos afirmar que ele roubou as moedas?

O sábio respondeu:

— Não, meu rapaz. Uma acusação não é uma sentença, e ninguém deve ser considerado culpado sem provas válidas e julgamento justo.

O jovem insistiu:

— Então não há mais nada a perguntar?

O sábio fechou lentamente seu livro.

— Há sempre perguntas legítimas sobre o destino das moedas públicas. A ausência de condenação não transforma toda suspeita em verdade, mas também não explica, por si só, cada movimentação financeira investigada.

E acrescentou:

— A confiança é uma virtude preciosa. Entretanto, quando se governa em nome do povo, ela jamais deveria substituir a transparência. E isso nesse reino, nem o chefe dos vassalos faz!

E assim, o príncipe continuou sua jornada, enquanto o fiel guardião permaneceu como personagem de uma história marcada por acusações, decisões e perguntas sem respostas conclusivas.

Porque, em qualquer reino, a lealdade pode abrir as portas do palácio, mas somente a transparência permite que seus habitantes saibam o que acontece atrás delas.

E o velho sábio deixou uma última reflexão:

“Um príncipe pode escolher seus amigos. Mas, quando lhes entrega responsabilidades públicas, também assume o dever de zelar pela maneira como elas são exercidas.”


quarta-feira, outubro 14, 2026

O príncipe e o estranho caminho das moedas - Capítulo 3

Uma fábula sobre cofres públicos, lealdades compradas e rios de ouro.



Era uma vez, em um reino tropical, um majestoso palácio legislativo onde homens e mulheres trabalhavam a serviço da Coroa. Todos os meses, os servidores recebiam suas moedas dos cofres do reino, como recompensa pelo trabalho que deveriam prestar ao povo.

Mas, certo dia, os investigadores reais perceberam algo curioso: algumas moedas pareciam conhecer um caminho secreto de volta.

Saíam dos cofres públicos, atravessavam os corredores do palácio, chegavam às mãos dos empregados e, segundo as suspeitas, retornavam silenciosamente aos aposentos de um administrador muito próximo ao príncipe.

Era como se existisse um tributo invisível, não previsto nas leis do reino, que determinados servidores precisassem pagar para conservar seus lugares junto à nobreza.

E o mais extraordinário era que, embora as moedas desaparecessem dos bolsos de alguns trabalhadores, pareciam reaparecer, multiplicadas, em outros lugares.

Os boatos diziam que o fosso que cercava o palácio não estava cheio de água, mas de moedas de ouro. Por canais subterrâneos, aquele rio dourado atravessaria as muralhas e irrigaria as propriedades de outros senhores feudais, que prosperavam à sombra do poder.

Enquanto os camponeses trabalhavam para sustentar o reino, os investigadores procuravam descobrir se parte do tesouro público estaria alimentando fortunas particulares.

O príncipe, naturalmente, negava conhecer qualquer caminho secreto. Afirmava que as moedas eram legítimas e que as suspeitas não passavam de histórias inventadas por seus adversários e inimigos do reino.

Os investigadores reuniram documentos, seguiram rastros e apresentaram acusações. Entretanto, os tribunais consideraram inválidas provas importantes, e o caso terminou sem condenação do príncipe.

Numa noite silenciosa, um velho contador do reino, observando as águas do fosso, comentou:

— Há uma diferença entre a riqueza que nasce do trabalho e aquela que, segundo as suspeitas, precisa percorrer túneis escondidos para encontrar seu verdadeiro destino.

Um jovem aprendiz perguntou:

— Mas, mestre, se os juízes não condenaram o príncipe, podemos afirmar que ele desviou as moedas?

O velho respondeu:

— Não, meu rapaz. A Justiça exige provas válidas, e uma suspeita não é uma sentença. Suspeitas existem até para o líder dos vassalos, mas os habitantes do reino têm o direito de perguntar como seu tesouro é administrado e exigir que a corte prestem contas das suas regalias.

E assim permaneceu a história do estranho caminho das moedas: uma investigação interrompida, acusações contestadas e perguntas que continuaram circulando entre os habitantes.

Porque, em um reino verdadeiramente justo, o dinheiro público deve percorrer caminhos transparentes. E nenhuma moeda destinada aos vassalos deveria precisar atravessar túneis secretos para chegar às mãos da corte.


terça-feira, outubro 13, 2026

O príncipe e a medalha do cavaleiro sombrio - Capítulo 2

Uma fábula sobre honrarias, escolhas e o peso das amizades.




Era uma vez, em um reino tropical de palácios imponentes e corredores onde os segredos pareciam caminhar mais depressa que a verdade, um príncipe que decidiu conceder a um cavaleiro uma das mais prestigiosas honrarias de sua terra.

A medalha, reservada àqueles cujos feitos deveriam servir de exemplo ao povo, representava coragem, honra e serviços prestados ao reino. Recebê-la era ter o próprio nome inscrito entre os homens dignos de reconhecimento.

Havia, entretanto, um detalhe bastante curioso: o cavaleiro homenageado encontrava-se nas masmorras do reino, acusado de ter tirado a vida de outro homem.

Isso não impediu o príncipe de prestar-lhe a homenagem.

E assim, enquanto outros cavaleiros recebiam suas condecorações diante de multidões e trombetas, aquele recebeu a distinção atrás das grades, onde o brilho do metal contrastava com a escuridão das celas.

Os anos passaram, e o nome do cavaleiro voltou a circular pelos corredores do reino. Desta vez, não por atos de bravura, mas por suspeitas muito mais sombrias. Investigadores passaram a apontá-lo como possível comandante de uma irmandade de assassinos de aluguel, homens que, segundo as acusações, transformavam a morte em mercadoria.

Como se a história precisasse de mais um capítulo, descobriu-se que familiares do cavaleiro haviam ocupado funções no palácio do príncipe, recebendo moedas dos cofres públicos pelos serviços prestados.

Quando os habitantes do reino começaram a fazer perguntas, o príncipe explicou que, na época da homenagem, acreditava estar reconhecendo um servidor exemplar.

Talvez os conselheiros do palácio tivessem se esquecido de mencionar que aquele servidor exemplar estava justamente confinado nas masmorras, acusado de homicídio.

É verdade que nunca se comprovou que o príncipe participasse dos crimes atribuídos ao cavaleiro. Também é verdade que uma acusação não transforma automaticamente um homem em culpado.

Mas havia uma pergunta que continuava ecoando pelas ruas:

Se a medalha representava a honra do reino, que prudência deveria orientar a escolha daqueles que a receberiam?

Um velho sábio, que observava a história da praça do mercado, comentou:

— Majestade, uma medalha não torna virtuoso aquele que a recebe. Mas a escolha de quem será homenageado revela muito sobre os valores de quem a concede.

E acrescentou:

— A Justiça deve decidir quem é culpado. Mas cabe à consciência decidir quem merece ser celebrado.

O príncipe seguiu seu caminho, a medalha permaneceu nos registros do reino e o cavaleiro acabou envolvido em uma história cujo desfecho não apagou as perguntas do passado.

E os habitantes aprenderam que a honra não está apenas nas medalhas que carregamos no peito, mas também na responsabilidade de escolher em qual peito decidimos colocá-las.

Porque, em qualquer reino, o ouro pode conservar seu brilho por séculos. A reputação de quem o distribui, nem sempre. Como a de seu pai o Rei que bradava aos ventos e exaltava os antigos carrascos do reino.

segunda-feira, outubro 12, 2026

Crônicas de um reino onde nem tudo que reluz é ouro - capítulo 1 - Introdução

Era uma vez, em um reino tropical de praias encantadoras e palácios imponentes, um príncipe que sonhava com grandes conquistas. Seu caminho, entretanto, foi acompanhado por acontecimentos curiosos, personagens controversos e perguntas que nem os mais sábios conselheiros conseguiram responder completamente.



Inspiradas em acontecimentos reais, recontadas como fábulas. As suspeitas e os mistérios podem virar certezas. 

E assim seguia a vida do príncipe.

Alguns acontecimentos estavam registrados nos livros do reino. Outros haviam sido investigados, contestados ou encerrados por pedido de seu pai o rei. 

Os habitantes mais prudentes aprenderam que uma história pode despertar perguntas legítimas sem que todas as respostas estejam disponíveis.

E que, em qualquer reino, uma medalha não prova virtude, uma fortuna não prova crime e uma acusação não substitui uma sentença. Mas o tipo de pensamento que se tem, os amigos que carrega muitas vezes demonstra o tipo de alianças que o reino faz.



quarta-feira, junho 24, 2026

Reducionismo histórico

 


Qual a diferença entre a Balaiada, no Maranhão, e a Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul? Por que uma se tornou parte importante da identidade regional e nacional, enquanto a outra permanece esquecida dentro de uma quase marginalidade?

Existe uma tendência de reduzir ou ignorar histórias regionais. Quando isso acontece, populações inteiras perdem parte de suas referências, de seu orgulho e de seu senso de pertencimento. Sem contexto histórico próprio, muitos acabam apenas reproduzindo narrativas construídas por outros.

A história de um país deveria ser formada pela soma de suas histórias regionais. No entanto, muitas vezes ela acaba sendo construída em torno de grandes personagens e acontecimentos escolhidos como símbolos nacionais, enquanto outros são deixados de lado. Esses símbolos escolhidos, em geral vão sustentar narrativas e não necessariamente verdades.

É o que acontece quando determinados heróis históricos são exaltados e outros movimentos são esquecidos. Tiradentes, por exemplo, tornou-se símbolo nacional mais de um século depois da Inconfidência Mineira. Ao mesmo tempo, diversos episódios regionais que tiveram impacto profundo em suas localidades acabaram desaparecendo da memória coletiva.

A diferença entre preservar e apagar uma história não está apenas nos livros. Ela influencia a forma como um povo enxerga a si mesmo. O orgulho que os gaúchos mantêm da Guerra dos Farrapos ajudou a fortalecer uma identidade regional muito clara. Já o esquecimento de movimentos como a Balaiada privou gerações inteiras de uma parte importante de sua própria narrativa. E quantas outras histórias não são apagadas? Por um acaso o Grito do Ipiranga, retratado com pompa é mais importante que as cartas de Leopoldina (uma mulher a frente de sua época)? É mais importante que a as Guerras de Independência que seguiram e sustentaram o grito do imperador ? Movimentos anti lusitanos da Setembrada e da Balaiada ainda não são movimentos de independência contra Portugal ? 

E as lutas populares de Canudos, o Contestado, as Guerras Guaraníticas que marcam a imagem de um país pacífico assim como a independência como contada nos livros que reforça a transição pacífica de independência de um imperador português contra Portugal. As lutas regionais mostram o contrário do que o que se quer mostrar com a história oficial. Esse reducionismo histórico reduz o poder de fala  do povo, reduz sua ambição.

Parece clichê pensar que quando um povo perde sua história, perde também uma parte de sua identidade. E quem não conhece a própria história acaba aceitando com mais facilidade a história contada pelos outros, acaba sendo manipulado e tratado como coadjuvante da própria história.


sábado, janeiro 17, 2026

Cinema brasileiro - fases

 No Brasil, até a década de 1950, o cinema era feito de forma artesanal e regional, muitas vezes copiando a estrutura das radionovelas. Não existiam políticas públicas para o que era visto como entretenimento menor ou elitista. As produções se concentravam em poucos polos, sobretudo no eixo Rio–São Paulo, com algum destaque para o criativo Recife e para a pacata Cataguases, em Minas Gerais — um polo têxtil rico, com uma jovem burguesia industrial aberta à modernidade e com capacidade de investimento para fomentar a moda e, indiretamente, a cultura.

Cataguases tornou-se um dos núcleos do modernismo brasileiro pelas ações do cineasta Humberto Mauro, que fez do cinema um verdadeiro laboratório de linguagem. Mas fazer cinema é algo que molda a sociedade e exige financiamento contínuo. A ausência de uma política pública consistente acabou por extinguir aquele oásis cultural no interior de Minas.

Diante do domínio cultural americano, o cinema nacional, a partir dos anos 1950, foi naufragando até que o braço cultural protecionista da Era Vargas fez surgir, com financiamento governamental via INCE (Instituto Nacional do Cinema Educativo), a Rádio Nacional e a Atlântida. Nascia um cinema que queria encontrar o povo, criando musicais e sátiras sociais. Era desprezado pela elite intelectual, mas sustentado pelo talento e pelo esforço contínuo de nomes como Oscarito e Grande Otelo.

A revanche intelectual veio a partir de 1958, com o Cinema Novo de Glauber Rocha, Ruy Guerra e Nelson Pereira dos Santos. Influenciados pelo neorrealismo italiano e pelo ambiente artístico efervescente dos anos JK, esses filmes traziam um viés crítico e estético que logo passou a ser visto com desconfiança nos primeiros anos do regime militar. O Cinema Novo teve muito mais reconhecimento externo do que interno e, aos poucos, foi sendo esvaziado. Em 1969, as verbas passaram a ser condicionadas à exaltação do regime e, em 1975, o modelo foi definitivamente desmontado. A antiga INCE deu lugar ao INC, que passou a se ocupar basicamente de classificação indicativa, censura e controle da importação de filmes.

Com a produção cinematográfica praticamente abandonada nos anos 1970, coube às pequenas produções de pornochanchadas manter o sistema respirando por aparelhos. Produziam muito, com qualidade discutível, até que surgiu a Embrafilme, adotando um modelo de financiamento por antecipação de bilheteria. Isso abriu espaço apenas para filmes com garantia de retorno. Foi um prato cheio para Luiz Severiano Ribeiro e, em conjunto com o crescimento da televisão, consolidou grandes sucessos populares, como os filmes dos Trapalhões. Mais uma vez, a comédia aparecia como saída para vencer a crise, sustentada por bilheterias robustas.

Com a queda do regime militar, o cinema caiu junto. Vieram anos de pouco estímulo e de importação quase exclusiva de cinema americano. Enquanto isso, a produção cinematográfica latino-americana florescia. No final do governo Sarney, o modelo de financiamento começou a mudar com a Lei Sarney, permitindo investimentos privados em troca de benefícios fiscais — o embrião de uma lei que ainda renderia muita controvérsia.




Chegou então o colapso do governo Collor. As agências foram desmontadas até serem extintas. O cinema passou a ser algo que sempre podia acabar, visto como um investimento altíssimo e extremamente arriscado. Nesse cenário improvável, a rainha Xuxa acabou salvando a produção nacional, garantindo bilheterias expressivas. Sem ela, o cinema brasileiro teria praticamente desaparecido das salas comerciais nos anos 1990.

Com o governo FHC, surge a Lei Rouanet, uma política pública de Estado que atravessou diferentes governos. A estabilidade permitiu o renascimento da indústria, com o Estado deixando de escolher os filmes e transferindo essa decisão às empresas financiadoras. Isso ampliou a pluralidade temática e estética. Carlota Joaquina, Central do Brasil, O Quatrilho e Cidade de Deus são exemplos claros dessa diversidade.

Com o tempo, o sistema foi se engessando com a criação do Fundo Setorial do Audiovisual, que passou a operar por editais. Os filmes começaram a ser pensados mais para vencer editais do que para dialogar com o público ou buscar risco estético. Ainda assim, a roda seguiu girando, com produções importantes como Carandiru, 2 Filhos de Francisco, Nosso Lar e Deus é Brasileiro, além de modelos seriados de grande sucesso, como Minha Mãe é uma Peça, De Pernas pro Ar, Se Eu Fosse Você e Tropa de Elite. O sistema híbrido — governo e iniciativa privada — deu garantias financeiras e relativa liberdade criativa. Nunca se produziu tanto cinema bom no Brasil.

Entre 2017 e 2022, instalou-se uma crise ideológica profunda e uma paralisia produtiva. Pode-se culpar a pandemia, mas a cultura nacional tornou-se refém de um campo de batalha ideológico. A censura passou a ser indireta, por meio de cortes seletivos de recursos. A desconfiança voltou a rondar produtoras e empresas sérias. Ao mesmo tempo, a saturação do modelo americano, somada às greves de roteiristas e atores, provocou uma redistribuição de talentos pelo mundo. O crescimento do streaming ajudou a manter a indústria viva em meio a uma crise global.

Mais uma vez, os ventos políticos mudam. Sem uma política de Estado sólida, seguimos na gangorra ideológica. Vivemos hoje uma fase especialmente fértil, com grandes produções brasileiras arrebatando prêmios mundo afora, como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto.
Resta saber até quando essa maré favorável vai durar.



O cinema nacional - influência americana

Muito se fala do cinema brasileiro: se é bom ou ruim, se depende demais de incentivos públicos, se é popular ou autoral, político ou intimista. Trata-se de um cinema que, muitas vezes, falha em dialogar com o público e que, para romper essa barreira, acaba escorregando para um popularesco de comédia — frequentemente bem-sucedido em bilheteria, mas limitado em ambição estética.

Em um paralelo com o cinema americano e europeu, o Brasil se aproxima muito mais do modelo do cinema-arte europeu, sustentado por incentivos diretos — e instáveis — do Estado, do que da indústria cinematográfica formada nos Estados Unidos. Lá, o governo percebeu cedo que imagem é poder e passou a financiar, contínua e indiretamente, a indústria cinematográfica.

Primeiro, para empregar pessoas durante a Grande Depressão dos anos 1930 e manter o moral da população. Depois, durante a Segunda Guerra Mundial, como parte estratégica do Departamento de Guerra. Por fim, no pós-guerra, como instrumento de influência cultural global — uma verdadeira arma de propaganda, o chamado soft power.

No contexto do Plano Marshall, o governo americano apostou alto para transformar Hollywood em padrão mundial. Apenas a França reagiu de forma consistente a essa interferência cultural. Já durante a Guerra Fria, o cinema foi vendido como ideologia do American Way of Life, também com apoio governamental. Hollywood criou personagens como Rambo e filmes como Top Gun para apagar a derrota na Guerra do Vietnã. No mesmo período, porém, surgiu o contraponto: Platoon lembrava à opinião pública que aquela guerra fora perdida e marcada por escandalosos crimes de guerra cometidos por soldados americanos.



Enquanto isso, o Brasil seguia preso a mentalidades arcaicas, instituições frágeis e governantes que davam pouca importância à cultura. A França, por sua vez, entendeu cedo que perder o cinema significava perder a capacidade de narrar a si mesma. Fortalecer sua cultura tornou-se uma questão de Estado — não apenas uma indústria capitalista, como nos Estados Unidos.

Desde 1946, a França mantém um departamento de cinema que funciona sem interrupção, com financiamento automático e retorno do lucro para o próprio sistema. Trata-se de uma política pública de longo prazo, e não de uma política de governo, como ocorre no Brasil.

Aqui nos trópicos, diversas agências surgiram e desapareceram entre descasos governamentais, corrupção e falta de investimento. Durante décadas, o cinema brasileiro dependeu quase exclusivamente do esforço dos artistas. Nenhum governo militar deu real importância ao cinema; a principal discussão era se os filmes deveriam ser legendados ou dublados.

Um dos expoentes mais promissores desse período, Vladimir Herzog, terminou como chefe de redação da TV Cultura — e o final dessa história todos conhecem. O INC deu lugar à Embrafilme, depois ao Concine e, por fim, à Ancine. Ainda hoje, os recursos de financiamento seguem travados por disputas ideológicas.

Pior: no Brasil, vê-se cinema, mas pouco se entende do que se vê. Não se ensina estética, linguagem audiovisual ou leitura crítica da imagem. Vivemos uma adesão passiva ao cinema americano, com mínima interação com o riquíssimo cinema latino-americano.

Esse protecionismo cultural em favor dos Estados Unidos reflete muito do que somos culturalmente.

Vira-latas!


sábado, dezembro 20, 2025

Salomé por trás da arte

Se você tem mais de 40 anos, provavelmente se lembra de uma personagem criada por Chico Anysio: Salomé Maria da Anunciação, mais conhecida como Salomé do Passo Fundo. Para quem não se recorda, Salomé ligava para políticos e pessoas influentes assumindo um curioso ar de intimidade com o poder, comentando fatos do cotidiano político de forma ácida, irônica e extremamente crítica.


O personagem mais citado na época de sua criação, no final dos anos 1970, foi João Baptista de Oliveira Figueiredo, então presidente do Brasil. Com ele, Salomé aparentava uma intimidade ainda maior: chamava-o de “guri”, de “João” e dizia ter sido sua professora.

O cenário político daquele período era de uma abertura lenta, gradual e ainda trêmula. O presidente parecia precisar de um “empurrãozinho” para avançar em medidas como o fim dos Atos Institucionais, a Lei da Anistia e outras reformas que colocariam fim a mais de vinte anos de ditadura. Ainda havia censura nos meios de comunicação. Nesse contexto repressivo, o público se surpreendia com a liberdade de Salomé para criticar o governo. O humor funcionava de forma indireta e simbólica, permitindo leituras sociais que o confronto direto não permitiria.

Diferente do que se poderia esperar de um regime militar, Figueiredo recebeu a sátira com entusiasmo, chegando a convidar Chico Anysio para uma apresentação no Palácio do Planalto, em dezembro de 1979.

Figueiredo talvez na foto mais clássica do fotojornalismo brasileiro

A inspiração para a personagem parece ter vindo de Djanira de Oliveira Lângaro, viúva de um ex-político gaúcho. No passado, Djanira fora considerada uma mulher belíssima: foi eleita Rainha do Carnaval em 1919 e A Mais Bela Gaúcha dos Pampas em 1923. Tinha o hábito de ligar para políticos influentes, governadores e até presidentes, mantendo com eles uma relação peculiar.


Djanira num carro alegórico do carnaval num desfile em Passo Fundo

À esquerda, Djanira Lângaro. À direita, Chico Anysio caracterizado como Salomé (1979).

Do ponto de vista psicológico, o arquétipo criado por Chico Anysio se aproxima de um narcisismo defensivo (exatamente como o presidente parecia se colocar). Salomé se coloca como irresistível, desejada por todos, ocupando o centro absoluto das atenções. Essa autoimagem inflada funciona como mecanismo de defesa, possivelmente como resposta à solidão, ao medo do esquecimento e ao avanço da idade (exatamente como a ditadura parecia estar). O erotismo, em Salomé, não aparece como prazer, mas como instrumento de controle: ela insinua, constrange e provoca. Não é uma sedutora clássica, mas uma provocadora invasiva, que se sustenta mais na erotização do passado do que na presença real de uma senhora de cerca de 70 anos.

Salomé também apresenta uma histeria teatral: fala alto, exagera nos gestos, dramatiza tudo. Remete à histeria freudiana clássica, marcada pela necessidade constante de palco, pelo medo do silêncio e pelo horror à invisibilidade — mesmo em uma personagem que já venceu o tempo. Ela acredita na própria narrativa, ainda que atue silenciosamente nos bastidores.

O nome Salomé, no entanto, não é casual. Ele nos remete simbolicamente à Salomé bíblica, não de forma literal, mas arquetípica. Sua história aparece nos evangelhos de Marcos (6:17–29) e Mateus (14:3–12). ambas as narrativas começam descrevendo como João Batista foi capturado por Herodes por dizer que o casamento de Herodes com Herodias, esposa de seu irmão Filipe, é ilegal (Lev 20:21). Em Marcos, Herodias guarda rancor contra João por isso e quer matá-lo, mas ela se abstém porque Herodes o teme. Em Mateus, Herodes quer matá-lo, mas se abstém porque teme o povo, que acredita que ele é um profeta.  Em ambas as narrativas, Salomé dança em um banquete realizado no aniversário do rei Herodes. Em troca de suas danças agradáveis, Herodes promete que dará tudo o que ela pedir. 

Hans Horions - A dança de Salomé para Herodes 1634

Quando pergunta à mãe, Herodias, o que deve pedir, a mãe a instrui a pedir "a cabeça de João, o Batizador." Quando Salomé pede isso a Herodes, ela acrescenta às palavras da mãe "em bandeja" (Marcos 6:24–25). Chico Anysio subverte essa tragédia em humor por meio do bordão:

“Eu faço a cabeça de João Baptista ou não me chamo Salomé.”


Gustave Moreau, L'Apparition, 1876–77, mostra Salomé



O nome Salomé também aparece no Evangelho de Tiago, texto apócrifo atribuído a Tiago, irmão de Jesus. Nessa narrativa, uma Salomé, incrédula de uma virgem ter dado dado luz a um filho parte para a manjedoura para "inserir o dedo e comprovar a natureza dela" (Maria). Percebendo que ela era realmente virgem, sua mão pega fogo mas um anjo lhe diz para colocar a mão flamejante no neném (Jesus), ao fazer isso sua mão é curada sendo assim o primeiro milagre e fazendo com que Salomé fosse considerada a primeira discípula de Cristo, embora marcada para sempre pelo estigma da incredulidade. mas que ficou marcada como incrédula. Assim como incrédulos estavam todos diante da vontade política de Figueiredo de acabar com a ditadura.