sábado, outubro 17, 2026

O príncipe e o relógio das horas douradas - capítulo 6

Uma fábula sobre presentes principescos, generosidade misteriosa e os segredos que o tempo não consegue esconder.


Conta-se que, em um reino tropical, onde os palácios eram majestosos e a nobreza cultivava amizades tão valiosas quanto os tesouros da Coroa, vivia um príncipe que apreciava os refinamentos da vida.

Entre seus conhecidos encontrava-se um influente mecenas, homem versado nas leis, habituado a frequentar os salões do poder e a transitar entre magistrados, conselheiros e grandes senhores.

Certo dia, segundo relatos que mais tarde circulariam pelo reino, esse generoso personagem teria presenteado o príncipe com um relógio extraordinário.

Não era um relógio comum, desses que os mercadores utilizavam para marcar a abertura das feiras ou que os camponeses consultavam para saber quando regressar aos campos.

Era uma verdadeira joia da relojoaria, adornada com metais preciosos e mecanismos tão sofisticados que seu valor equivaleria ao de uma pequena morada.

— Que admirável amizade! — exclamaram os bobos da corte.

— Que extraordinária generosidade! — acrescentaram os conselheiros.

— E que horas marca tão precioso instrumento? — perguntou um velho filósofo.

— As mesmas horas que qualquer outro relógio — respondeu o relojoeiro.

O filósofo acariciou a barba e murmurou:

— Então talvez seu verdadeiro valor não esteja nas horas que marca, mas nas perguntas que desperta.

E as perguntas não tardaram a surgir.

Antigos conhecidos do príncipe passaram a divulgar mensagens e documentos que sugeriam a existência de outros presentes custosos, equipamentos luxuosos e encontros reservados nos quais os prazeres da nobreza pareciam escapar aos olhos dos habitantes do reino.

Falava-se de banquetes discretos, convidados cuidadosamente escolhidos e festividades que, segundo os relatos, não constavam dos calendários oficiais do palácio. E as dançarinas que diziam ter poderes de enfeitiçar até os bastiões mais imponentes da justiça e do clero, pareciam enfeitiçar toda a corte, dos magistrados aos amigos do chefe dos vassalos, de lordes de reinos longínquos a outros mecenas importantes. Bruxas diziam uns, feiticeiras diziam outros ... pelos relatos eram simples e belas dançarinas. 

Os boatos atravessaram as tavernas, ganharam os mercados e finalmente chegaram aos ouvidos dos cronistas.

Mas havia um detalhe importante: nem todas aquelas histórias estavam comprovadas. Algumas dependiam da autenticidade e da interpretação de mensagens, outras provinham de testemunhos contestáveis, e nenhuma deveria ser transformada em sentença apenas pela força dos rumores.

Ainda assim, o povo começou a fazer perguntas.

Por que um mecenas ofereceria presente tão valioso a um príncipe?

Seria apenas amizade?

Seria admiração?

Ou esperaria o generoso benfeitor que, em algum momento, as portas do palácio se abrissem com maior facilidade diante de sua presença?

Não havia resposta definitiva.

E, enquanto os conselheiros discutiam as virtudes da generosidade, um jovem aprendiz procurou o velho filósofo.

— Mestre, receber um presente caro é necessariamente um crime?

— Não, meu rapaz. O valor de um presente, por si só, não demonstra qualquer delito.

— Então por que tantos habitantes desconfiam?

— Porque, quando homens próximos ao poder recebem benefícios extraordinários, torna-se legítimo perguntar se a generosidade é desinteressada ou se pretende comprar influência.

— E como descobriremos a verdade?

O filósofo apontou para a torre do relógio da praça.

— Com documentos, investigação justa e transparência. Não com boatos, nem com a crença de que os poderosos sejam culpados ou inocentes apenas por serem quem são.

O jovem permaneceu em silêncio.

Naquela noite, o príncipe continuou em seus aposentos, os conselheiros regressaram aos banquetes e os habitantes voltaram às suas ocupações.

O relógio, verdadeiro, permanecia como símbolo de uma história ainda envolta em perguntas.

E o reino seguiu sua pacata vida, acostumado aos mistérios da nobreza, aos presentes extraordinários e às explicações que pareciam sempre chegar depois das festividades.

Até que o velho filósofo deixou registrada uma última observação:

“Um relógio pode custar uma fortuna, mas não compra o tempo necessário para apagar as perguntas que a generosidade desperta.”

E assim passaram os dias, os meses e os anos.

Os ponteiros continuaram girando.

Os sinos continuaram tocando.

E o povo continuou esperando.

Porque, naquele reino de faz de conta, até os relógios mais caros conseguiam marcar as horas. O que ninguém sabia era quando chegaria a hora das respostas.

Nem o príncipe, nem os nobres, nem os magistrados, nem o líder dos vassalos responderam com convicção para as hordas de bobos da corte que os seguem, cegos diante da verdade.


sexta-feira, outubro 16, 2026

O príncipe e a fantástica loja de chocolates - Capítulo 5

Uma fábula sobre doces, moedas misteriosas e os prodígios da contabilidade real.



Era uma vez, em um reino tropical onde os palácios reluziam ao sol e os nobres pareciam possuir talentos que escapavam à compreensão dos simples mortais, um príncipe que resolveu aventurar-se no comércio.

Cansado, talvez, das intermináveis discussões do palácio legislativo, tornou-se sócio de uma pequena loja de chocolates, instalada em uma movimentada feira comercial do reino.

Ali se vendiam bombons, trufas, barras de cacau e outras delícias capazes de adoçar até o humor dos mais rabugentos conselheiros reais.

Mas a lojinha possuía uma característica extraordinária: parecia ter uma habilidade especial para movimentar moedas.

E não, meu caro leitor, não estamos falando de moedas de chocolate!

Certo dia, os fiscais do reino, munidos de pergaminhos, ábacos e uma curiosidade inconveniente, resolveram comparar os registros comerciais com as quantias depositadas nos cofres da empresa.

Foi então que encontraram diferenças que lhes pareceram dignas de investigação.

Os números registrados em determinados documentos não correspondiam exatamente aos valores que circulavam pelas contas da pequena loja.

Os fiscais coçaram suas barbas.

Os contadores conferiram seus ábacos.

E os conselheiros começaram a cochichar pelos corredores.

— Seria alquimia? — perguntou um.

— Magia negra? — sugeriu outro.

— Bruxaria! — exclamou um terceiro, que nunca compreendera muito bem a matemática.

Um velho mercador, mais experiente, levantou uma hipótese ainda mais extraordinária:

— Talvez o príncipe tenha descoberto o segredo do lendário rei Midas, aquele que transformava em ouro tudo o que tocava!

E assim nasceu a famosa Teoria do Midas Tropical.

Segundo seus entusiasmados defensores, bastaria o príncipe tocar uma caixa de bombons para que dela brotassem moedas de ouro.

Os bobos da corte ficaram maravilhados.

— Que talento comercial! — gritavam.

— Que extraordinário empreendedor! — aplaudiam.

— Se o príncipe transforma cacau em ouro, por que não o nomeamos Ministro das Finanças? — perguntou um deles, provocando gargalhadas no salão.

Mas os investigadores, pouco afeitos à magia, levantaram uma possibilidade menos encantadora: suspeitaram que parte das moedas pudesse ter origem diferente da venda de chocolates e que a loja talvez estivesse sendo utilizada para disfarçar sua procedência.

Os responsáveis pelo estabelecimento contestaram as suspeitas. Alegaram que suas atividades eram legítimas e que as diferenças apontadas não demonstravam qualquer irregularidade.

Os tribunais não produziram condenação que confirmasse a utilização da loja para esconder dinheiro ilícito.

Ainda assim, a história percorreu tavernas, mercados e salões de banquetes.

Certa tarde, um jovem aprendiz perguntou ao velho sábio:

— Mestre, afinal, o príncipe possuía mesmo o toque de Midas?

O sábio sorriu.

— Não sei, meu rapaz. E tampouco podemos afirmar que tenha praticado algum crime sem provas válidas. Mas existe uma diferença entre a magia dos contos e a contabilidade dos comerciantes.

— Qual diferença, mestre?

— Nos contos, basta acreditar para que o encantamento funcione. Na contabilidade, é preciso demonstrar de onde vieram as moedas.

O jovem refletiu por alguns instantes.

— Então por que tantos bobos da corte acreditavam na teoria de Midas?

O velho respondeu:

— Porque há quem confunda admiração com explicação. E, quando um príncipe é muito admirado, até uma pergunta sobre números pode ser recebida como ofensa à Coroa.

E assim, a pequena loja continuou sendo lembrada não apenas pelos doces que vendia, mas pelas perguntas que despertou.

A Teoria do Midas Tropical jamais foi reconhecida pelos sábios como explicação científica, tampouco as suspeitas dos fiscais se converteram em condenação criminal.

Mas os habitantes aprenderam uma lição que nenhum alquimista poderia contestar:

O chocolate pode adoçar a boca, o ouro pode encantar os olhos, mas somente a transparência consegue esclarecer a origem das moedas.

E o velho sábio encerrou a história com uma última observação:

“Em um reino de faz de conta, acredita-se que o príncipe transforma chocolate em ouro. Em um reino de cidadãos, espera-se que todo comerciante consiga explicar suas contas.”


quinta-feira, outubro 15, 2026

O príncipe e o fiel guardião dos tesouros - Capítulo 4

Uma fábula sobre confiança, lealdade e os mistérios que se escondem nos cofres do poder.



Era uma vez, em um reino tropical onde os palácios brilhavam sob o sol e os cofres da nobreza pareciam guardar mais segredos do que moedas, um príncipe que possuía um companheiro de longa data.

Não era um simples servidor. Era um homem de confiança, daqueles que conheciam os corredores do palácio, os hábitos de seus moradores e as portas que deveriam permanecer fechadas aos visitantes.

O príncipe confiava tanto naquele guardião que lhe permitia cuidar de assuntos delicados da corte. E, como acontece em muitos reinos, a confiança era considerada uma virtude — embora nem sempre viesse acompanhada da necessária fiscalização.

Durante anos, a rotina transcorreu sem grandes sobressaltos nas vielas escuras do reino. Os vassalos recebiam seus salários, os nobres participavam dos banquetes e o guardião continuava circulando discretamente pelos salões.

Até que, certo dia, os fiscais do reino resolveram examinar os livros de contas.

E encontraram algo curioso.

Grandes quantidades de moedas atravessavam os registros financeiros do fiel guardião. Algumas chegavam das mãos de servidores que trabalhavam para o príncipe. Outras seguiam caminhos tortuosos, passando por diferentes contas e personagens, como se percorressem um labirinto construído especialmente para confundir os curiosos.

Os investigadores começaram a se perguntar por que um homem encarregado de servir ao palácio movimentava tamanha quantidade de riquezas.

Seriam empréstimos? Presentes? Negócios particulares? Ou existiria, como suspeitavam os fiscais, uma espécie de pedágio secreto cobrado daqueles que desejavam permanecer a serviço da nobreza?

O guardião foi acusado de organizar a arrecadação de moedas que, segundo os investigadores, deveriam permanecer nos bolsos dos trabalhadores.

Mas havia outra pergunta, ainda mais delicada, que percorria os corredores do reino:

Como um guardião poderia administrar tantos recursos, durante tanto tempo, sem que seu príncipe soubesse o que acontecia?

O príncipe negava conhecer qualquer irregularidade. Dizia que confiara em seu antigo companheiro e que não poderia ser responsabilizado por movimentações financeiras que desconhecia.

Os fiscais reuniram documentos, examinaram contas e apresentaram acusações aos tribunais. Entretanto, decisões judiciais invalidaram provas importantes, comprometendo o andamento do processo real. Nenhuma condenação definitiva estabeleceu a responsabilidade criminal do príncipe ou do guardião naquele caso.

O tempo passou, mas a história continuou sendo contada nas tavernas, nos mercados e nas praças.

Certa tarde, um jovem perguntou ao velho sábio do reino:

— Mestre, se os juízes não condenaram o guardião, podemos afirmar que ele roubou as moedas?

O sábio respondeu:

— Não, meu rapaz. Uma acusação não é uma sentença, e ninguém deve ser considerado culpado sem provas válidas e julgamento justo.

O jovem insistiu:

— Então não há mais nada a perguntar?

O sábio fechou lentamente seu livro.

— Há sempre perguntas legítimas sobre o destino das moedas públicas. A ausência de condenação não transforma toda suspeita em verdade, mas também não explica, por si só, cada movimentação financeira investigada.

E acrescentou:

— A confiança é uma virtude preciosa. Entretanto, quando se governa em nome do povo, ela jamais deveria substituir a transparência. E isso nesse reino, nem o chefe dos vassalos faz!

E assim, o príncipe continuou sua jornada, enquanto o fiel guardião permaneceu como personagem de uma história marcada por acusações, decisões e perguntas sem respostas conclusivas.

Porque, em qualquer reino, a lealdade pode abrir as portas do palácio, mas somente a transparência permite que seus habitantes saibam o que acontece atrás delas.

E o velho sábio deixou uma última reflexão:

“Um príncipe pode escolher seus amigos. Mas, quando lhes entrega responsabilidades públicas, também assume o dever de zelar pela maneira como elas são exercidas.”


quarta-feira, outubro 14, 2026

O príncipe e o estranho caminho das moedas - Capítulo 3

Uma fábula sobre cofres públicos, lealdades compradas e rios de ouro.



Era uma vez, em um reino tropical, um majestoso palácio legislativo onde homens e mulheres trabalhavam a serviço da Coroa. Todos os meses, os servidores recebiam suas moedas dos cofres do reino, como recompensa pelo trabalho que deveriam prestar ao povo.

Mas, certo dia, os investigadores reais perceberam algo curioso: algumas moedas pareciam conhecer um caminho secreto de volta.

Saíam dos cofres públicos, atravessavam os corredores do palácio, chegavam às mãos dos empregados e, segundo as suspeitas, retornavam silenciosamente aos aposentos de um administrador muito próximo ao príncipe.

Era como se existisse um tributo invisível, não previsto nas leis do reino, que determinados servidores precisassem pagar para conservar seus lugares junto à nobreza.

E o mais extraordinário era que, embora as moedas desaparecessem dos bolsos de alguns trabalhadores, pareciam reaparecer, multiplicadas, em outros lugares.

Os boatos diziam que o fosso que cercava o palácio não estava cheio de água, mas de moedas de ouro. Por canais subterrâneos, aquele rio dourado atravessaria as muralhas e irrigaria as propriedades de outros senhores feudais, que prosperavam à sombra do poder.

Enquanto os camponeses trabalhavam para sustentar o reino, os investigadores procuravam descobrir se parte do tesouro público estaria alimentando fortunas particulares.

O príncipe, naturalmente, negava conhecer qualquer caminho secreto. Afirmava que as moedas eram legítimas e que as suspeitas não passavam de histórias inventadas por seus adversários e inimigos do reino.

Os investigadores reuniram documentos, seguiram rastros e apresentaram acusações. Entretanto, os tribunais consideraram inválidas provas importantes, e o caso terminou sem condenação do príncipe.

Numa noite silenciosa, um velho contador do reino, observando as águas do fosso, comentou:

— Há uma diferença entre a riqueza que nasce do trabalho e aquela que, segundo as suspeitas, precisa percorrer túneis escondidos para encontrar seu verdadeiro destino.

Um jovem aprendiz perguntou:

— Mas, mestre, se os juízes não condenaram o príncipe, podemos afirmar que ele desviou as moedas?

O velho respondeu:

— Não, meu rapaz. A Justiça exige provas válidas, e uma suspeita não é uma sentença. Suspeitas existem até para o líder dos vassalos, mas os habitantes do reino têm o direito de perguntar como seu tesouro é administrado e exigir que a corte prestem contas das suas regalias.

E assim permaneceu a história do estranho caminho das moedas: uma investigação interrompida, acusações contestadas e perguntas que continuaram circulando entre os habitantes.

Porque, em um reino verdadeiramente justo, o dinheiro público deve percorrer caminhos transparentes. E nenhuma moeda destinada aos vassalos deveria precisar atravessar túneis secretos para chegar às mãos da corte.


terça-feira, outubro 13, 2026

O príncipe e a medalha do cavaleiro sombrio - Capítulo 2

Uma fábula sobre honrarias, escolhas e o peso das amizades.




Era uma vez, em um reino tropical de palácios imponentes e corredores onde os segredos pareciam caminhar mais depressa que a verdade, um príncipe que decidiu conceder a um cavaleiro uma das mais prestigiosas honrarias de sua terra.

A medalha, reservada àqueles cujos feitos deveriam servir de exemplo ao povo, representava coragem, honra e serviços prestados ao reino. Recebê-la era ter o próprio nome inscrito entre os homens dignos de reconhecimento.

Havia, entretanto, um detalhe bastante curioso: o cavaleiro homenageado encontrava-se nas masmorras do reino, acusado de ter tirado a vida de outro homem.

Isso não impediu o príncipe de prestar-lhe a homenagem.

E assim, enquanto outros cavaleiros recebiam suas condecorações diante de multidões e trombetas, aquele recebeu a distinção atrás das grades, onde o brilho do metal contrastava com a escuridão das celas.

Os anos passaram, e o nome do cavaleiro voltou a circular pelos corredores do reino. Desta vez, não por atos de bravura, mas por suspeitas muito mais sombrias. Investigadores passaram a apontá-lo como possível comandante de uma irmandade de assassinos de aluguel, homens que, segundo as acusações, transformavam a morte em mercadoria.

Como se a história precisasse de mais um capítulo, descobriu-se que familiares do cavaleiro haviam ocupado funções no palácio do príncipe, recebendo moedas dos cofres públicos pelos serviços prestados.

Quando os habitantes do reino começaram a fazer perguntas, o príncipe explicou que, na época da homenagem, acreditava estar reconhecendo um servidor exemplar.

Talvez os conselheiros do palácio tivessem se esquecido de mencionar que aquele servidor exemplar estava justamente confinado nas masmorras, acusado de homicídio.

É verdade que nunca se comprovou que o príncipe participasse dos crimes atribuídos ao cavaleiro. Também é verdade que uma acusação não transforma automaticamente um homem em culpado.

Mas havia uma pergunta que continuava ecoando pelas ruas:

Se a medalha representava a honra do reino, que prudência deveria orientar a escolha daqueles que a receberiam?

Um velho sábio, que observava a história da praça do mercado, comentou:

— Majestade, uma medalha não torna virtuoso aquele que a recebe. Mas a escolha de quem será homenageado revela muito sobre os valores de quem a concede.

E acrescentou:

— A Justiça deve decidir quem é culpado. Mas cabe à consciência decidir quem merece ser celebrado.

O príncipe seguiu seu caminho, a medalha permaneceu nos registros do reino e o cavaleiro acabou envolvido em uma história cujo desfecho não apagou as perguntas do passado.

E os habitantes aprenderam que a honra não está apenas nas medalhas que carregamos no peito, mas também na responsabilidade de escolher em qual peito decidimos colocá-las.

Porque, em qualquer reino, o ouro pode conservar seu brilho por séculos. A reputação de quem o distribui, nem sempre. Como a de seu pai o Rei que bradava aos ventos e exaltava os antigos carrascos do reino.

segunda-feira, outubro 12, 2026

Crônicas de um reino onde nem tudo que reluz é ouro - capítulo 1 - Introdução

Era uma vez, em um reino tropical de praias encantadoras e palácios imponentes, um príncipe que sonhava com grandes conquistas. Seu caminho, entretanto, foi acompanhado por acontecimentos curiosos, personagens controversos e perguntas que nem os mais sábios conselheiros conseguiram responder completamente.



Inspiradas em acontecimentos reais, recontadas como fábulas. As suspeitas e os mistérios podem virar certezas. 

E assim seguia a vida do príncipe.

Alguns acontecimentos estavam registrados nos livros do reino. Outros haviam sido investigados, contestados ou encerrados por pedido de seu pai o rei. 

Os habitantes mais prudentes aprenderam que uma história pode despertar perguntas legítimas sem que todas as respostas estejam disponíveis.

E que, em qualquer reino, uma medalha não prova virtude, uma fortuna não prova crime e uma acusação não substitui uma sentença. Mas o tipo de pensamento que se tem, os amigos que carrega muitas vezes demonstra o tipo de alianças que o reino faz.



quarta-feira, junho 24, 2026

Reducionismo histórico

 


Qual a diferença entre a Balaiada, no Maranhão, e a Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul? Por que uma se tornou parte importante da identidade regional e nacional, enquanto a outra permanece esquecida dentro de uma quase marginalidade?

Existe uma tendência de reduzir ou ignorar histórias regionais. Quando isso acontece, populações inteiras perdem parte de suas referências, de seu orgulho e de seu senso de pertencimento. Sem contexto histórico próprio, muitos acabam apenas reproduzindo narrativas construídas por outros.

A história de um país deveria ser formada pela soma de suas histórias regionais. No entanto, muitas vezes ela acaba sendo construída em torno de grandes personagens e acontecimentos escolhidos como símbolos nacionais, enquanto outros são deixados de lado. Esses símbolos escolhidos, em geral vão sustentar narrativas e não necessariamente verdades.

É o que acontece quando determinados heróis históricos são exaltados e outros movimentos são esquecidos. Tiradentes, por exemplo, tornou-se símbolo nacional mais de um século depois da Inconfidência Mineira. Ao mesmo tempo, diversos episódios regionais que tiveram impacto profundo em suas localidades acabaram desaparecendo da memória coletiva.

A diferença entre preservar e apagar uma história não está apenas nos livros. Ela influencia a forma como um povo enxerga a si mesmo. O orgulho que os gaúchos mantêm da Guerra dos Farrapos ajudou a fortalecer uma identidade regional muito clara. Já o esquecimento de movimentos como a Balaiada privou gerações inteiras de uma parte importante de sua própria narrativa. E quantas outras histórias não são apagadas? Por um acaso o Grito do Ipiranga, retratado com pompa é mais importante que as cartas de Leopoldina (uma mulher a frente de sua época)? É mais importante que a as Guerras de Independência que seguiram e sustentaram o grito do imperador ? Movimentos anti lusitanos da Setembrada e da Balaiada ainda não são movimentos de independência contra Portugal ? 

E as lutas populares de Canudos, o Contestado, as Guerras Guaraníticas que marcam a imagem de um país pacífico assim como a independência como contada nos livros que reforça a transição pacífica de independência de um imperador português contra Portugal. As lutas regionais mostram o contrário do que o que se quer mostrar com a história oficial. Esse reducionismo histórico reduz o poder de fala  do povo, reduz sua ambição.

Parece clichê pensar que quando um povo perde sua história, perde também uma parte de sua identidade. E quem não conhece a própria história acaba aceitando com mais facilidade a história contada pelos outros, acaba sendo manipulado e tratado como coadjuvante da própria história.


sábado, janeiro 17, 2026

Cinema brasileiro - fases

 No Brasil, até a década de 1950, o cinema era feito de forma artesanal e regional, muitas vezes copiando a estrutura das radionovelas. Não existiam políticas públicas para o que era visto como entretenimento menor ou elitista. As produções se concentravam em poucos polos, sobretudo no eixo Rio–São Paulo, com algum destaque para o criativo Recife e para a pacata Cataguases, em Minas Gerais — um polo têxtil rico, com uma jovem burguesia industrial aberta à modernidade e com capacidade de investimento para fomentar a moda e, indiretamente, a cultura.

Cataguases tornou-se um dos núcleos do modernismo brasileiro pelas ações do cineasta Humberto Mauro, que fez do cinema um verdadeiro laboratório de linguagem. Mas fazer cinema é algo que molda a sociedade e exige financiamento contínuo. A ausência de uma política pública consistente acabou por extinguir aquele oásis cultural no interior de Minas.

Diante do domínio cultural americano, o cinema nacional, a partir dos anos 1950, foi naufragando até que o braço cultural protecionista da Era Vargas fez surgir, com financiamento governamental via INCE (Instituto Nacional do Cinema Educativo), a Rádio Nacional e a Atlântida. Nascia um cinema que queria encontrar o povo, criando musicais e sátiras sociais. Era desprezado pela elite intelectual, mas sustentado pelo talento e pelo esforço contínuo de nomes como Oscarito e Grande Otelo.

A revanche intelectual veio a partir de 1958, com o Cinema Novo de Glauber Rocha, Ruy Guerra e Nelson Pereira dos Santos. Influenciados pelo neorrealismo italiano e pelo ambiente artístico efervescente dos anos JK, esses filmes traziam um viés crítico e estético que logo passou a ser visto com desconfiança nos primeiros anos do regime militar. O Cinema Novo teve muito mais reconhecimento externo do que interno e, aos poucos, foi sendo esvaziado. Em 1969, as verbas passaram a ser condicionadas à exaltação do regime e, em 1975, o modelo foi definitivamente desmontado. A antiga INCE deu lugar ao INC, que passou a se ocupar basicamente de classificação indicativa, censura e controle da importação de filmes.

Com a produção cinematográfica praticamente abandonada nos anos 1970, coube às pequenas produções de pornochanchadas manter o sistema respirando por aparelhos. Produziam muito, com qualidade discutível, até que surgiu a Embrafilme, adotando um modelo de financiamento por antecipação de bilheteria. Isso abriu espaço apenas para filmes com garantia de retorno. Foi um prato cheio para Luiz Severiano Ribeiro e, em conjunto com o crescimento da televisão, consolidou grandes sucessos populares, como os filmes dos Trapalhões. Mais uma vez, a comédia aparecia como saída para vencer a crise, sustentada por bilheterias robustas.

Com a queda do regime militar, o cinema caiu junto. Vieram anos de pouco estímulo e de importação quase exclusiva de cinema americano. Enquanto isso, a produção cinematográfica latino-americana florescia. No final do governo Sarney, o modelo de financiamento começou a mudar com a Lei Sarney, permitindo investimentos privados em troca de benefícios fiscais — o embrião de uma lei que ainda renderia muita controvérsia.




Chegou então o colapso do governo Collor. As agências foram desmontadas até serem extintas. O cinema passou a ser algo que sempre podia acabar, visto como um investimento altíssimo e extremamente arriscado. Nesse cenário improvável, a rainha Xuxa acabou salvando a produção nacional, garantindo bilheterias expressivas. Sem ela, o cinema brasileiro teria praticamente desaparecido das salas comerciais nos anos 1990.

Com o governo FHC, surge a Lei Rouanet, uma política pública de Estado que atravessou diferentes governos. A estabilidade permitiu o renascimento da indústria, com o Estado deixando de escolher os filmes e transferindo essa decisão às empresas financiadoras. Isso ampliou a pluralidade temática e estética. Carlota Joaquina, Central do Brasil, O Quatrilho e Cidade de Deus são exemplos claros dessa diversidade.

Com o tempo, o sistema foi se engessando com a criação do Fundo Setorial do Audiovisual, que passou a operar por editais. Os filmes começaram a ser pensados mais para vencer editais do que para dialogar com o público ou buscar risco estético. Ainda assim, a roda seguiu girando, com produções importantes como Carandiru, 2 Filhos de Francisco, Nosso Lar e Deus é Brasileiro, além de modelos seriados de grande sucesso, como Minha Mãe é uma Peça, De Pernas pro Ar, Se Eu Fosse Você e Tropa de Elite. O sistema híbrido — governo e iniciativa privada — deu garantias financeiras e relativa liberdade criativa. Nunca se produziu tanto cinema bom no Brasil.

Entre 2017 e 2022, instalou-se uma crise ideológica profunda e uma paralisia produtiva. Pode-se culpar a pandemia, mas a cultura nacional tornou-se refém de um campo de batalha ideológico. A censura passou a ser indireta, por meio de cortes seletivos de recursos. A desconfiança voltou a rondar produtoras e empresas sérias. Ao mesmo tempo, a saturação do modelo americano, somada às greves de roteiristas e atores, provocou uma redistribuição de talentos pelo mundo. O crescimento do streaming ajudou a manter a indústria viva em meio a uma crise global.

Mais uma vez, os ventos políticos mudam. Sem uma política de Estado sólida, seguimos na gangorra ideológica. Vivemos hoje uma fase especialmente fértil, com grandes produções brasileiras arrebatando prêmios mundo afora, como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto.
Resta saber até quando essa maré favorável vai durar.



O cinema nacional - influência americana

Muito se fala do cinema brasileiro: se é bom ou ruim, se depende demais de incentivos públicos, se é popular ou autoral, político ou intimista. Trata-se de um cinema que, muitas vezes, falha em dialogar com o público e que, para romper essa barreira, acaba escorregando para um popularesco de comédia — frequentemente bem-sucedido em bilheteria, mas limitado em ambição estética.

Em um paralelo com o cinema americano e europeu, o Brasil se aproxima muito mais do modelo do cinema-arte europeu, sustentado por incentivos diretos — e instáveis — do Estado, do que da indústria cinematográfica formada nos Estados Unidos. Lá, o governo percebeu cedo que imagem é poder e passou a financiar, contínua e indiretamente, a indústria cinematográfica.

Primeiro, para empregar pessoas durante a Grande Depressão dos anos 1930 e manter o moral da população. Depois, durante a Segunda Guerra Mundial, como parte estratégica do Departamento de Guerra. Por fim, no pós-guerra, como instrumento de influência cultural global — uma verdadeira arma de propaganda, o chamado soft power.

No contexto do Plano Marshall, o governo americano apostou alto para transformar Hollywood em padrão mundial. Apenas a França reagiu de forma consistente a essa interferência cultural. Já durante a Guerra Fria, o cinema foi vendido como ideologia do American Way of Life, também com apoio governamental. Hollywood criou personagens como Rambo e filmes como Top Gun para apagar a derrota na Guerra do Vietnã. No mesmo período, porém, surgiu o contraponto: Platoon lembrava à opinião pública que aquela guerra fora perdida e marcada por escandalosos crimes de guerra cometidos por soldados americanos.



Enquanto isso, o Brasil seguia preso a mentalidades arcaicas, instituições frágeis e governantes que davam pouca importância à cultura. A França, por sua vez, entendeu cedo que perder o cinema significava perder a capacidade de narrar a si mesma. Fortalecer sua cultura tornou-se uma questão de Estado — não apenas uma indústria capitalista, como nos Estados Unidos.

Desde 1946, a França mantém um departamento de cinema que funciona sem interrupção, com financiamento automático e retorno do lucro para o próprio sistema. Trata-se de uma política pública de longo prazo, e não de uma política de governo, como ocorre no Brasil.

Aqui nos trópicos, diversas agências surgiram e desapareceram entre descasos governamentais, corrupção e falta de investimento. Durante décadas, o cinema brasileiro dependeu quase exclusivamente do esforço dos artistas. Nenhum governo militar deu real importância ao cinema; a principal discussão era se os filmes deveriam ser legendados ou dublados.

Um dos expoentes mais promissores desse período, Vladimir Herzog, terminou como chefe de redação da TV Cultura — e o final dessa história todos conhecem. O INC deu lugar à Embrafilme, depois ao Concine e, por fim, à Ancine. Ainda hoje, os recursos de financiamento seguem travados por disputas ideológicas.

Pior: no Brasil, vê-se cinema, mas pouco se entende do que se vê. Não se ensina estética, linguagem audiovisual ou leitura crítica da imagem. Vivemos uma adesão passiva ao cinema americano, com mínima interação com o riquíssimo cinema latino-americano.

Esse protecionismo cultural em favor dos Estados Unidos reflete muito do que somos culturalmente.

Vira-latas!


sábado, dezembro 20, 2025

Salomé por trás da arte

Se você tem mais de 40 anos, provavelmente se lembra de uma personagem criada por Chico Anysio: Salomé Maria da Anunciação, mais conhecida como Salomé do Passo Fundo. Para quem não se recorda, Salomé ligava para políticos e pessoas influentes assumindo um curioso ar de intimidade com o poder, comentando fatos do cotidiano político de forma ácida, irônica e extremamente crítica.


O personagem mais citado na época de sua criação, no final dos anos 1970, foi João Baptista de Oliveira Figueiredo, então presidente do Brasil. Com ele, Salomé aparentava uma intimidade ainda maior: chamava-o de “guri”, de “João” e dizia ter sido sua professora.

O cenário político daquele período era de uma abertura lenta, gradual e ainda trêmula. O presidente parecia precisar de um “empurrãozinho” para avançar em medidas como o fim dos Atos Institucionais, a Lei da Anistia e outras reformas que colocariam fim a mais de vinte anos de ditadura. Ainda havia censura nos meios de comunicação. Nesse contexto repressivo, o público se surpreendia com a liberdade de Salomé para criticar o governo. O humor funcionava de forma indireta e simbólica, permitindo leituras sociais que o confronto direto não permitiria.

Diferente do que se poderia esperar de um regime militar, Figueiredo recebeu a sátira com entusiasmo, chegando a convidar Chico Anysio para uma apresentação no Palácio do Planalto, em dezembro de 1979.

Figueiredo talvez na foto mais clássica do fotojornalismo brasileiro

A inspiração para a personagem parece ter vindo de Djanira de Oliveira Lângaro, viúva de um ex-político gaúcho. No passado, Djanira fora considerada uma mulher belíssima: foi eleita Rainha do Carnaval em 1919 e A Mais Bela Gaúcha dos Pampas em 1923. Tinha o hábito de ligar para políticos influentes, governadores e até presidentes, mantendo com eles uma relação peculiar.


Djanira num carro alegórico do carnaval num desfile em Passo Fundo

À esquerda, Djanira Lângaro. À direita, Chico Anysio caracterizado como Salomé (1979).

Do ponto de vista psicológico, o arquétipo criado por Chico Anysio se aproxima de um narcisismo defensivo (exatamente como o presidente parecia se colocar). Salomé se coloca como irresistível, desejada por todos, ocupando o centro absoluto das atenções. Essa autoimagem inflada funciona como mecanismo de defesa, possivelmente como resposta à solidão, ao medo do esquecimento e ao avanço da idade (exatamente como a ditadura parecia estar). O erotismo, em Salomé, não aparece como prazer, mas como instrumento de controle: ela insinua, constrange e provoca. Não é uma sedutora clássica, mas uma provocadora invasiva, que se sustenta mais na erotização do passado do que na presença real de uma senhora de cerca de 70 anos.

Salomé também apresenta uma histeria teatral: fala alto, exagera nos gestos, dramatiza tudo. Remete à histeria freudiana clássica, marcada pela necessidade constante de palco, pelo medo do silêncio e pelo horror à invisibilidade — mesmo em uma personagem que já venceu o tempo. Ela acredita na própria narrativa, ainda que atue silenciosamente nos bastidores.

O nome Salomé, no entanto, não é casual. Ele nos remete simbolicamente à Salomé bíblica, não de forma literal, mas arquetípica. Sua história aparece nos evangelhos de Marcos (6:17–29) e Mateus (14:3–12). ambas as narrativas começam descrevendo como João Batista foi capturado por Herodes por dizer que o casamento de Herodes com Herodias, esposa de seu irmão Filipe, é ilegal (Lev 20:21). Em Marcos, Herodias guarda rancor contra João por isso e quer matá-lo, mas ela se abstém porque Herodes o teme. Em Mateus, Herodes quer matá-lo, mas se abstém porque teme o povo, que acredita que ele é um profeta.  Em ambas as narrativas, Salomé dança em um banquete realizado no aniversário do rei Herodes. Em troca de suas danças agradáveis, Herodes promete que dará tudo o que ela pedir. 

Hans Horions - A dança de Salomé para Herodes 1634

Quando pergunta à mãe, Herodias, o que deve pedir, a mãe a instrui a pedir "a cabeça de João, o Batizador." Quando Salomé pede isso a Herodes, ela acrescenta às palavras da mãe "em bandeja" (Marcos 6:24–25). Chico Anysio subverte essa tragédia em humor por meio do bordão:

“Eu faço a cabeça de João Baptista ou não me chamo Salomé.”


Gustave Moreau, L'Apparition, 1876–77, mostra Salomé



O nome Salomé também aparece no Evangelho de Tiago, texto apócrifo atribuído a Tiago, irmão de Jesus. Nessa narrativa, uma Salomé, incrédula de uma virgem ter dado dado luz a um filho parte para a manjedoura para "inserir o dedo e comprovar a natureza dela" (Maria). Percebendo que ela era realmente virgem, sua mão pega fogo mas um anjo lhe diz para colocar a mão flamejante no neném (Jesus), ao fazer isso sua mão é curada sendo assim o primeiro milagre e fazendo com que Salomé fosse considerada a primeira discípula de Cristo, embora marcada para sempre pelo estigma da incredulidade. mas que ficou marcada como incrédula. Assim como incrédulos estavam todos diante da vontade política de Figueiredo de acabar com a ditadura.


domingo, dezembro 07, 2025

O descanso da alma com amizades verdadeiras

A confiança de uma amizade nos permite desarmar, retirar aquela armadura pesada que tantas vezes precisamos vestir na caminhada diária. O mundo pode ser hostil, e por isso erguemos defesas mentais para proteger nossas convicções e nossa individualidade. Essa armadura, no entanto, não deve ser rígida a ponto de nos engessar, mas sim flexível, como uma malha de ferro que nos resguarda sem nos impedir de mudar. Ainda assim, é um fardo difícil de carregar o tempo todo. Por isso, precisamos de um refúgio sereno, livre de perigos, onde possamos descansar e aliviar o peso das costas — e esse abrigo é oferecido pelos amigos.

Aristóteles já afirmava que as amizades verdadeiras são essenciais para a felicidade humana. É nesse espaço de essencialidade que florescem a confiança, a entrega e o compromisso genuíno, não como cobrança, mas como fruto da partilha de valores como amor, respeito e gratidão.

Se a armadura existe para proteger quem realmente somos, as boas amizades cumprem o papel de nos resguardar quando estamos despidos, oferecendo acolhimento sem julgamentos. Afinal, é na presença dos amigos que encontramos a liberdade de sermos inteiros, sem máscaras, e ainda assim protegidos e respeitados.

 



Os ciclos que a vida faz

 Dentro de um clima tropical, nem sempre percebemos o mudar das estações. Não percebemos, mas a natureza é forte e constante, e a mudança está ali: constância dentro da mudança. Há ciclos!

Quando viajamos no inverno, isso fica evidente. O frio se impõe. O ar muda, a luz muda, a duração do dia muda. O silêncio das ruas anuncia uma estação inteira.

Já foi diversamente estudado como o ritmo de vida do ser humano mudou ao longo dos séculos por conta de novas tecnologias. Como a luz elétrica, a vigília noturna acabou; a vida noturna passou a ter mais agito. Com isso, perdemos o silêncio para reflexões mais profundas, o espaço de contemplação do universo e de como somos pequenos diante das estrelas. Talvez por isso tenhamos nos tornado tão megalomaníacos.

Deus é perfeito em Sua concepção; nós é que somos imperfeitos ao tentar impor nosso próprio ritmo à vida. A natureza ensina: se o corpo pede descanso, descanse; se o mundo se transforma, transforme-se também. . Transformar é como renascer, é como a natureza que nasce, cresce, morre e renasce transformando-se.  

Os exemplos estão a nossa volta: desde o girino, que tem que deixar de ser o que é para se tornar sapo, até uma cobra, que tem que deixar sua pele de lado de tempos em tempos; os ursos, que hibernam para se preparar par as mudanças; os insetos, que reservam comida para enfrentar o inverno; e o exemplo clássico da borboleta. É a sutil evolução da vida. Sim estamos em constante evolução, e não adianta remar contra a maré, é uma Lei Universal.

Quem quiser chegar a ser o que não é, deverá principiar por não ser o que é. Esse é o princípio de uma Lei Universal da mudança. Entender como funcionam essas Leis são verdadeiros pontos de apoio para entendermos como somos influenciados por aquela natureza que muda diante dos nossos olhos, mas que nem sempre percebemos. 

É como entender outra Lei Universal, a da gravidade, e conseguir tirar o melhor proveito dela para a nossa vida. Percebendo sua atuação ou não, ela está lá, em tudo: transformando, tropeços em quedas, mas também facilitando nossa vida quando sabemos usá-la; Por exemplo, ao se aproveitar uma queda d'agua para produzir energia elétrica (aquela mesmo que nos fez perder o brilhos das estrelas).

Leis assim, são poderosas e constantes, independente de onde estivermos. Ou seja, os ciclos existem mesmo que não estejamos dando atenção a eles. Ver os ciclos da natureza e estarmos sintonizados a movimentos sutis é de sábia importância para entender nosso humor e nossa vida. 

 Uma primavera que lembra a sensação de voltar a acreditar em algo: o tempo esquenta, os dias se alongam e as energias se renovam. Primavera é um tempo de sorrir e de recomeçar, com a euforia e a esperança de iniciar um novo ciclo. Alegre e harmonioso.

No verão, chegamos a um auge da renovação. É hora de doarmos a energia que recebemos; é tempo de expandir, criar planos, viver com intensidade - e as vezes até com exaustão, como pensou Vivaldi.

O outono chega como preparação para a introspecção do inverno. É hora de abrir mão da expansão de vida do verão, de reservar energias, soltar coisas que não vamos precisar no inverno. Como as árvores que se despedem de suas folhas, soltar é confiar no processo do ciclo que se renova; é aceitar finais para termos recomeços; é entender que nem toda perda é negativa e que pode-se abrir espaço para a renovação. Vivaldi mostra aqui uma maior consciência e controle das emoções.

E novamente o inverso: silêncio, pausa, recolhimento. É quando parecemos morrer, mas que estamos só nos recolhendo, hibernando para aceitar a passagem do tempo (mais uma daquelas Leis Universais impossíveis de reagirmos). Entendendo o silêncio, gastando pouca energia: eis o inverno de Vivaldi.

Temer invernos é reagir contra a ordem natural das coisas, que são mais fortes que nós. Isso funciona para a natureza que está ao nosso redor e para o que funciona dentro de nós. Invernos emocionais, psíquicos e intelectuais acontecem na nossa vida. Temos que saber reconhecê-los, respeitar nossos silêncios internos, nossa preparação; extravasar quando precisamos, calar também, com a certeza de que são ciclos e que nada dura para sempre. Todos os ciclos são necessários. E cada um tem uma característica bela que devemos reconhecer e acolher.


Relembre sua infância 


quinta-feira, novembro 20, 2025

Tenho saudade de tudo

 Tenho saudade da casa,

uma nostalgia profunda

e uma reflexão serena

sobre como poderia ter sido com você.

Tenho saudade em silêncio, 

Nas inquietudes da vida.

Mas nunca vou saber 

Da vida com você.

Saudade da segurança da sua voz,

Da decisão do teu amar,

Do incentivo, 

e do carinho do teu cuidar.

Tenho saudade de te amar!



Saudade das noites quentes,

Dos nossos corpos ardentes.

Tenho saudade de tudo

E não me arrependo de nada: 

De como moldamos a vida,

De como seguimos em frente 

E de como demos um passo pra trás, 

tentando buscar no passado 

a saudade do que fomos nós.

E me pego pensando que, diante de tanta saudade, 

se foi mesmo separação...

Uma realidade diversa, uma loucura ou alucinação.

Você ainda está aqui dentro, e não tenho saudade de nada.

Revivo tudo a cada instante -

um tormento:

Ter tudo, e depois não ter nada.

Aí, guardo você no meu peito

e, dentro de cada saudade que parece ser pouca,

junto os cacos da vida.

esqueço a nossa partida,

Perco a paz e a calma.

Tenho saudade de tudo, 

Como tatuagem na alma,

Como eco que não se desfaz.

E se o tempo não permitir reencontros,

que ao menos a saudade me embale

nas memórias que ainda sabem teu nome.

terça-feira, novembro 11, 2025

O que fica de eterno em nós ...

Se Heráclito nos ensinou que tudo flui, há também uma sabedoria que nos convida a perceber o que permanece — aquilo que não se dissolve com o tempo, que não se curva às circunstâncias, que não se apaga com o esquecimento.
O permanente não é o oposto da mudança, mas o eixo silencioso que sustenta o movimento.

Enquanto o mundo gira em torno da impermanência, há uma dimensão do ser que se mantém intacta: o espírito, a consciência profunda, a essência que nos conecta ao eterno. É nessa dimensão que encontramos o que é verdadeiramente real — não o que muda, mas o que dá sentido à mudança. Rochas não são eternas, mas no meio do turbilhão das coisas, muitas vezes elas são o ponto seguro para nos apoiar, aí está a importância do eterno.


O que é o seu eterno? A fé? O que você carrega dentro de si ? Suas convicções ou suas crenças? Os conhecimentos que o levam a transcender, percebendo o sentido das coisas? O espírito?

Dentro das concepções que temos de Deus, é possível afirmar que Ele é eterno. E, se o ser humano foi criado à Sua imagem e semelhança, não seria lógico supor que também carregamos algo de eterno em nós?

Qual parte de nós perece, e qual parte segue?
A parte de Deus que habita em nós pode ser chamada de alma ou espírito — mas se pensarmos na alma como algo mais ligado à personalidade e ao corpo, então o espírito seria essa entidade imperecível, incorpórea e eterna. Essa essência não se altera com o tempo, não se desgasta com as emoções, não se perde nas ideias. É ela que nos permite pensar e sentir o eterno, mesmo em meio ao caos da existência.

A consciência do eterno nos liberta da tirania do efêmero. Quando cultivamos o espírito, não nos desesperamos com o tempo físico — serenamo-nos, como quem se ancora no centro da eternidade. E é nesse ponto que nascem as aspirações mais nobres que podemos ter:

  • A vontade de evoluir, mesmo diante das quedas.

  • A busca pelo justo, pelo belo, pelo verdadeiro — e por outros valores que não se desgastam.

  • A memória afetiva que resiste ao tempo e transforma dor em sabedoria.

  • O conhecimento transcendente, que não se consome como o metal, mas se multiplica e se eterniza dentro de nós.

O permanente não nega a mudança — ele a orienta. É como o caule que sustenta a flor, mesmo quando ela murcha. É como o céu que permanece, mesmo quando as nuvens passam.
O espírito é esse céu interior, onde podemos cultivar ações que não perecem, pensamentos que não se dissolvem, sentimentos e valores morais que não se corrompem.

Na filosofia oriental — especialmente no budismo, no taoismo e no hinduísmo — encontramos uma visão que dialoga profundamente com essa ideia de que “o permanente não nega a mudança, ele a orienta”.
O budismo ensina a impermanência (anicca), reconhecendo que tudo está em constante transformação, mas que há um campo de consciência serena — como o céu por trás das nuvens — que observa o fluxo sem se confundir com ele.

O céu contempla o turbilhão as nuvens na placidez do lago? O tempo muda tudo, mas o céu permanece. 

O taoismo expressa essa harmonia entre o mutável e o imutável através do Dao, o princípio invisível que sustenta o movimento das coisas.
Já o hinduísmo, com a noção de Atman ou Brahman, vê o espírito como o núcleo eterno da realidade — imutável e silencioso — que dá sentido à dança da vida.
Embora cada tradição tenha sua linguagem, todas convergem na mesma intuição: há uma dimensão interior — seja consciência, Dao ou espírito — que permanece, orientando as mudanças externas e permitindo cultivar pensamentos e valores que atravessam o tempo sem se corromper.

Se tudo passa, o eterno permanece como direção.
Ele não é um lugar fixo, mas um estado de consciência.
E é nesse estado que podemos afirmar o melhor de nossas vidas — como navegantes que enfrentam as ondas, mas seguem guiados pelas estrelas que não se apagam.

O mundo gira, as ondas vão e vem, as estrelas rompem o tempo, demoram mas se vão... a luz fica em meio a escuridão.

O permanente é o que nos torna humanos em nossa dimensão mais elevada.
É o que nos conecta ao divino, ao tempo profundo, à sabedoria que não envelhece.
Em meio à metamorfose ambulante, é o que nos permite ser sem deixar de evoluir.
Se o impermanente nos ensina a desapegar, o permanente nos ensina a consagrar.



domingo, novembro 09, 2025

Preste atenção ... O mundo é um moinho

 Heráclito de Éfeso com a noção de que tudo está em constante mudança, registrou pela primeira vez a constatação do devir, paradoxalmente é uma noção que ... fica! Se aproximando bastante com as filosofias orientais (a impermanência é um dos três pilares do budismo e o ciclo de samsara do hinduísmo que mostra a existência como um fluxo contínuo e o Taoísmo chinês como o Tao sendo o caminho natural do universo, fluído e em transformação), Heráclito teve a atenção de combinar Homem e Natureza, na sua frase famosa:

"Nenhum homem entra duas vezes no mesmo rio, pois nem o homem é o mesmo, nem o rio."

Essa citação expressa a ideia de que tudo flui (panta rhei, em grego), e nada permanece igual. Tanto o rio (com sua água corrente) quanto o homem (com suas experiências e pensamentos) estão em constante transformação.

Heráclito acreditava que a mudança é a essência da realidade — uma visão que influenciou profundamente a filosofia ocidental. A partir daí a arte e a ciência se apropriaram da noção da impermanência, demonstrando até com a física quântica moderna e termodinâmica que energia e matéria estão em constante movimento, que o Universo está em expansão, e nada é estático - nem o tempo, como demonstrou a teoria da relatividade de Einstein. (que coloca em cheque até o fluir do tempo).

Filósofos existencialistas começaram a abordar o lado humano disso, com Nietzsche e Sartre destacando o ser humano sempre em construção e uma identidade não fixa, sendo moldada pelas circunstâncias, escolhas e experiências. E nem precisa ser um gênio inconstante como o de Salvador Dali ou Vicent Van Gogh, basta ver os diferentes heterônimos de múltiplas identidades de Fernando Pessoa. A ideia também foi abordada pelas artes.

A Persistência da Memória - Salvador Dali


A Noite Estrelada - Vicent van Gogh transmitindo sensação de turbulência emocional e transformação interior do artista, a Lua e estrelas brilham enquanto a cidade dorme. É um cosmo vivo e eterno diante da efemeridade da vida.


“Nossa cabeça é redonda para permitir ao pensamento mudar de direção”- Francis Picabia.

Diante dessa "Metamorfose Ambulante", tudo passa... tudo muda, inclusive nossas idéias e emoções e aí podemos " dizer o contrário do que dizemos antes.... ou se hoje eu te odeio, amanhã já se apagou". O Homem como um turbilhão de ideias e sentimentos pode se proteger da ideia de que esta em constante transformação, "do que ter a velha opinião formada sobre tudo!" afinal o próprio mundo a nossa volta muda e "nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia".





sábado, outubro 25, 2025

A Educação que Forma o Ser

Vivemos tempos em que o sistema educacional parece cada vez mais voltado para resultados técnicos, provas padronizadas e conteúdos que, embora importantes, não dão conta da complexidade da vida. A escola ensina matemática, ciências, línguas — mas muitas vezes esquece de ensinar o que é o Ser humano, além do sentido biológico. Esquece de preparar o indivíduo para lidar com suas emoções, tomar decisões éticas, enfrentar desafios econômicos e construir uma vida com propósito.

É urgente repensar a educação. Precisamos de uma formação que vá além do intelecto e alcance o coração, a consciência, o caráter.

Educar para o caráter é cultivar valores como respeito, empatia, honestidade e responsabilidade. Não se trata de doutrinar, mas de oferecer espaços de reflexão, diálogo e vivência. O aluno precisa entender que suas escolhas têm impacto — em si mesmo, nos outros e no mundo.

Educar para a autonomia econômica é ensinar o valor do trabalho, do planejamento, da gestão financeira. É preparar o jovem para lidar com dinheiro de forma consciente, para empreender, para buscar sua independência com dignidade. Isso é liberdade.

Educar para o cumprimento das obrigações é formar cidadãos comprometidos com o coletivo. A escola deve ensinar que disciplina, pontualidade e responsabilidade não são apenas regras, mas ferramentas para construir confiança e respeito mútuo.

Cultivar bem as sementes, deixar que raízes fortes em valores sustentem galhos voltados para o conhecimento e o futuro.

Educar para o amor ao trabalho e ao progresso é inspirar o aluno a enxergar o trabalho como expressão de criatividade e transformação. É mostrar que o progresso não é apenas tecnológico, mas também moral, espiritual e comunitário.

Educar para a inteligência emocional é oferecer ferramentas para que o aluno reconheça suas emoções, lide com frustrações, desenvolva resiliência e construa relações saudáveis. Em um mundo cada vez mais acelerado e exigente, essa habilidade é essencial.

Educar para a vida em sociedade é preparar o indivíduo para conviver com o diferente, respeitar a diversidade, dialogar com maturidade e contribuir para o bem comum. A escola é o primeiro laboratório da cidadania.

A educação que queremos é integral, humanista, prática e transformadora. Uma educação que forma não apenas profissionais, mas pessoas conscientes, livres e comprometidas com o bem.

Educar é um ato de amor, coragem e esperança. Que nossas escolas sejam jardins onde floresçam seres humanos inteiros, livres de preconceitos, medos e com os olhos voltados para as oportunidades da vida propõe, buscando sempre o desenvolvimento integral pessoal e da sociedade, pois esse é o verdadeiro sentido da vida.

sábado, outubro 18, 2025

Somos sociais

Sobre a interdependência humana...

Vivemos cercados por conquistas que não são exclusivamente nossas.  
O alimento que consumimos, muitas vezes, não foi plantado por nossas mãos — e mesmo quando foi, as sementes são fruto de séculos de seleção e conhecimento acumulado por outros.

Vestimos roupas que não costuramos.  
Comunicamo-nos em línguas que não inventamos.  
Pensamos com base em conceitos matemáticos que não descobrimos. Entendemos um pouco de nós pelo esforço de físicos, biólogos e filósofos que detinham um pensamento muita vezes diferenciado do nosso.

Somos protegidos por leis que não criamos, e que são mantidas por pessoas que sequer conhecemos.

A tecnologia que usamos diariamente — dos processadores ao software — é resultado do trabalho de mentes brilhantes que vieram antes de nós.

Somos tocados por músicas que não compusemos. Por poemas escritos antes de nascermos.

Somos curados por médicos, medicamentos e práticas desenvolvidas por gerações de cientistas e profissionais da saúde.

Somos um mosaico de saberes e devemos gratidão a tudo que veio até nós pelas obras de outros semelhantes .... somos feitos de um pouco dos outros, somos sociais na essência.

Tudo o que fazemos está ancorado em uma vasta rede de conhecimento, cultura, esforço e sacrifício humano.  
Somos profundamente interdependentes por tudo que é criado ou foi criado por gerações passadas, somos um acúmulo de experiências e realizações da nossa civilização e ser grato a tudo isso é um ato de humildade e reconhecimento de que somos seres sociais.

quarta-feira, outubro 01, 2025

Entrelaçados


No meio do caos da semana,
num instante que escapa da pressa,

o pensamento sussurra silêncio, 
a saudade que tenho de ti.

Então no reencontro ...
corpos se amassam
bocas se acham

e nossas mãos se procuram
como abrigo antigo.

Na cama, o cansaço,
mas o último suspiro do dia
é a prece muda da gratidão:
estarmos ainda lado a lado,
porto seguro um do outro.

Mesmo que a rotina nos empurre
para lados opostos,
há sempre uma lembrança sutil
dos motivos que nos enlaçaram.

Levar uma vida mais leve
Ter gestos simples diante da vida
Um admirar o outro ...
Entre brigas, risos e distrações 
nos reconectar sempre.

É olhando pra nós que entendemos:
a vida é simples,
o tempo molda,
e o afeto amadurece como fruto

Seguimos assim...

no agito da vida,
no enlace do olhar,
na certeza serena
de que ainda é amor.