sábado, janeiro 17, 2026

O cinema nacional - influência americana

Muito se fala do cinema brasileiro: se é bom ou ruim, se depende demais de incentivos públicos, se é popular ou autoral, político ou intimista. Trata-se de um cinema que, muitas vezes, falha em dialogar com o público e que, para romper essa barreira, acaba escorregando para um popularesco de comédia — frequentemente bem-sucedido em bilheteria, mas limitado em ambição estética.

Em um paralelo com o cinema americano e europeu, o Brasil se aproxima muito mais do modelo do cinema-arte europeu, sustentado por incentivos diretos — e instáveis — do Estado, do que da indústria cinematográfica formada nos Estados Unidos. Lá, o governo percebeu cedo que imagem é poder e passou a financiar, contínua e indiretamente, a indústria cinematográfica.

Primeiro, para empregar pessoas durante a Grande Depressão dos anos 1930 e manter o moral da população. Depois, durante a Segunda Guerra Mundial, como parte estratégica do Departamento de Guerra. Por fim, no pós-guerra, como instrumento de influência cultural global — uma verdadeira arma de propaganda, o chamado soft power.

No contexto do Plano Marshall, o governo americano apostou alto para transformar Hollywood em padrão mundial. Apenas a França reagiu de forma consistente a essa interferência cultural. Já durante a Guerra Fria, o cinema foi vendido como ideologia do American Way of Life, também com apoio governamental. Hollywood criou personagens como Rambo e filmes como Top Gun para apagar a derrota na Guerra do Vietnã. No mesmo período, porém, surgiu o contraponto: Platoon lembrava à opinião pública que aquela guerra fora perdida e marcada por escandalosos crimes de guerra cometidos por soldados americanos.



Enquanto isso, o Brasil seguia preso a mentalidades arcaicas, instituições frágeis e governantes que davam pouca importância à cultura. A França, por sua vez, entendeu cedo que perder o cinema significava perder a capacidade de narrar a si mesma. Fortalecer sua cultura tornou-se uma questão de Estado — não apenas uma indústria capitalista, como nos Estados Unidos.

Desde 1946, a França mantém um departamento de cinema que funciona sem interrupção, com financiamento automático e retorno do lucro para o próprio sistema. Trata-se de uma política pública de longo prazo, e não de uma política de governo, como ocorre no Brasil.

Aqui nos trópicos, diversas agências surgiram e desapareceram entre descasos governamentais, corrupção e falta de investimento. Durante décadas, o cinema brasileiro dependeu quase exclusivamente do esforço dos artistas. Nenhum governo militar deu real importância ao cinema; a principal discussão era se os filmes deveriam ser legendados ou dublados.

Um dos expoentes mais promissores desse período, Vladimir Herzog, terminou como chefe de redação da TV Cultura — e o final dessa história todos conhecem. O INC deu lugar à Embrafilme, depois ao Concine e, por fim, à Ancine. Ainda hoje, os recursos de financiamento seguem travados por disputas ideológicas.

Pior: no Brasil, vê-se cinema, mas pouco se entende do que se vê. Não se ensina estética, linguagem audiovisual ou leitura crítica da imagem. Vivemos uma adesão passiva ao cinema americano, com mínima interação com o riquíssimo cinema latino-americano.

Esse protecionismo cultural em favor dos Estados Unidos reflete muito do que somos culturalmente.

Vira-latas!


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