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sábado, janeiro 17, 2026

Cinema brasileiro - fases

 No Brasil, até a década de 1950, o cinema era feito de forma artesanal e regional, muitas vezes copiando a estrutura das radionovelas. Não existiam políticas públicas para o que era visto como entretenimento menor ou elitista. As produções se concentravam em poucos polos, sobretudo no eixo Rio–São Paulo, com algum destaque para o criativo Recife e para a pacata Cataguases, em Minas Gerais — um polo têxtil rico, com uma jovem burguesia industrial aberta à modernidade e com capacidade de investimento para fomentar a moda e, indiretamente, a cultura.

Cataguases tornou-se um dos núcleos do modernismo brasileiro pelas ações do cineasta Humberto Mauro, que fez do cinema um verdadeiro laboratório de linguagem. Mas fazer cinema é algo que molda a sociedade e exige financiamento contínuo. A ausência de uma política pública consistente acabou por extinguir aquele oásis cultural no interior de Minas.

Diante do domínio cultural americano, o cinema nacional, a partir dos anos 1950, foi naufragando até que o braço cultural protecionista da Era Vargas fez surgir, com financiamento governamental via INCE (Instituto Nacional do Cinema Educativo), a Rádio Nacional e a Atlântida. Nascia um cinema que queria encontrar o povo, criando musicais e sátiras sociais. Era desprezado pela elite intelectual, mas sustentado pelo talento e pelo esforço contínuo de nomes como Oscarito e Grande Otelo.

A revanche intelectual veio a partir de 1958, com o Cinema Novo de Glauber Rocha, Ruy Guerra e Nelson Pereira dos Santos. Influenciados pelo neorrealismo italiano e pelo ambiente artístico efervescente dos anos JK, esses filmes traziam um viés crítico e estético que logo passou a ser visto com desconfiança nos primeiros anos do regime militar. O Cinema Novo teve muito mais reconhecimento externo do que interno e, aos poucos, foi sendo esvaziado. Em 1969, as verbas passaram a ser condicionadas à exaltação do regime e, em 1975, o modelo foi definitivamente desmontado. A antiga INCE deu lugar ao INC, que passou a se ocupar basicamente de classificação indicativa, censura e controle da importação de filmes.

Com a produção cinematográfica praticamente abandonada nos anos 1970, coube às pequenas produções de pornochanchadas manter o sistema respirando por aparelhos. Produziam muito, com qualidade discutível, até que surgiu a Embrafilme, adotando um modelo de financiamento por antecipação de bilheteria. Isso abriu espaço apenas para filmes com garantia de retorno. Foi um prato cheio para Luiz Severiano Ribeiro e, em conjunto com o crescimento da televisão, consolidou grandes sucessos populares, como os filmes dos Trapalhões. Mais uma vez, a comédia aparecia como saída para vencer a crise, sustentada por bilheterias robustas.

Com a queda do regime militar, o cinema caiu junto. Vieram anos de pouco estímulo e de importação quase exclusiva de cinema americano. Enquanto isso, a produção cinematográfica latino-americana florescia. No final do governo Sarney, o modelo de financiamento começou a mudar com a Lei Sarney, permitindo investimentos privados em troca de benefícios fiscais — o embrião de uma lei que ainda renderia muita controvérsia.




Chegou então o colapso do governo Collor. As agências foram desmontadas até serem extintas. O cinema passou a ser algo que sempre podia acabar, visto como um investimento altíssimo e extremamente arriscado. Nesse cenário improvável, a rainha Xuxa acabou salvando a produção nacional, garantindo bilheterias expressivas. Sem ela, o cinema brasileiro teria praticamente desaparecido das salas comerciais nos anos 1990.

Com o governo FHC, surge a Lei Rouanet, uma política pública de Estado que atravessou diferentes governos. A estabilidade permitiu o renascimento da indústria, com o Estado deixando de escolher os filmes e transferindo essa decisão às empresas financiadoras. Isso ampliou a pluralidade temática e estética. Carlota Joaquina, Central do Brasil, O Quatrilho e Cidade de Deus são exemplos claros dessa diversidade.

Com o tempo, o sistema foi se engessando com a criação do Fundo Setorial do Audiovisual, que passou a operar por editais. Os filmes começaram a ser pensados mais para vencer editais do que para dialogar com o público ou buscar risco estético. Ainda assim, a roda seguiu girando, com produções importantes como Carandiru, 2 Filhos de Francisco, Nosso Lar e Deus é Brasileiro, além de modelos seriados de grande sucesso, como Minha Mãe é uma Peça, De Pernas pro Ar, Se Eu Fosse Você e Tropa de Elite. O sistema híbrido — governo e iniciativa privada — deu garantias financeiras e relativa liberdade criativa. Nunca se produziu tanto cinema bom no Brasil.

Entre 2017 e 2022, instalou-se uma crise ideológica profunda e uma paralisia produtiva. Pode-se culpar a pandemia, mas a cultura nacional tornou-se refém de um campo de batalha ideológico. A censura passou a ser indireta, por meio de cortes seletivos de recursos. A desconfiança voltou a rondar produtoras e empresas sérias. Ao mesmo tempo, a saturação do modelo americano, somada às greves de roteiristas e atores, provocou uma redistribuição de talentos pelo mundo. O crescimento do streaming ajudou a manter a indústria viva em meio a uma crise global.

Mais uma vez, os ventos políticos mudam. Sem uma política de Estado sólida, seguimos na gangorra ideológica. Vivemos hoje uma fase especialmente fértil, com grandes produções brasileiras arrebatando prêmios mundo afora, como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto.
Resta saber até quando essa maré favorável vai durar.



O cinema nacional - influência americana

Muito se fala do cinema brasileiro: se é bom ou ruim, se depende demais de incentivos públicos, se é popular ou autoral, político ou intimista. Trata-se de um cinema que, muitas vezes, falha em dialogar com o público e que, para romper essa barreira, acaba escorregando para um popularesco de comédia — frequentemente bem-sucedido em bilheteria, mas limitado em ambição estética.

Em um paralelo com o cinema americano e europeu, o Brasil se aproxima muito mais do modelo do cinema-arte europeu, sustentado por incentivos diretos — e instáveis — do Estado, do que da indústria cinematográfica formada nos Estados Unidos. Lá, o governo percebeu cedo que imagem é poder e passou a financiar, contínua e indiretamente, a indústria cinematográfica.

Primeiro, para empregar pessoas durante a Grande Depressão dos anos 1930 e manter o moral da população. Depois, durante a Segunda Guerra Mundial, como parte estratégica do Departamento de Guerra. Por fim, no pós-guerra, como instrumento de influência cultural global — uma verdadeira arma de propaganda, o chamado soft power.

No contexto do Plano Marshall, o governo americano apostou alto para transformar Hollywood em padrão mundial. Apenas a França reagiu de forma consistente a essa interferência cultural. Já durante a Guerra Fria, o cinema foi vendido como ideologia do American Way of Life, também com apoio governamental. Hollywood criou personagens como Rambo e filmes como Top Gun para apagar a derrota na Guerra do Vietnã. No mesmo período, porém, surgiu o contraponto: Platoon lembrava à opinião pública que aquela guerra fora perdida e marcada por escandalosos crimes de guerra cometidos por soldados americanos.



Enquanto isso, o Brasil seguia preso a mentalidades arcaicas, instituições frágeis e governantes que davam pouca importância à cultura. A França, por sua vez, entendeu cedo que perder o cinema significava perder a capacidade de narrar a si mesma. Fortalecer sua cultura tornou-se uma questão de Estado — não apenas uma indústria capitalista, como nos Estados Unidos.

Desde 1946, a França mantém um departamento de cinema que funciona sem interrupção, com financiamento automático e retorno do lucro para o próprio sistema. Trata-se de uma política pública de longo prazo, e não de uma política de governo, como ocorre no Brasil.

Aqui nos trópicos, diversas agências surgiram e desapareceram entre descasos governamentais, corrupção e falta de investimento. Durante décadas, o cinema brasileiro dependeu quase exclusivamente do esforço dos artistas. Nenhum governo militar deu real importância ao cinema; a principal discussão era se os filmes deveriam ser legendados ou dublados.

Um dos expoentes mais promissores desse período, Vladimir Herzog, terminou como chefe de redação da TV Cultura — e o final dessa história todos conhecem. O INC deu lugar à Embrafilme, depois ao Concine e, por fim, à Ancine. Ainda hoje, os recursos de financiamento seguem travados por disputas ideológicas.

Pior: no Brasil, vê-se cinema, mas pouco se entende do que se vê. Não se ensina estética, linguagem audiovisual ou leitura crítica da imagem. Vivemos uma adesão passiva ao cinema americano, com mínima interação com o riquíssimo cinema latino-americano.

Esse protecionismo cultural em favor dos Estados Unidos reflete muito do que somos culturalmente.

Vira-latas!


sábado, dezembro 20, 2025

Salomé por trás da arte

Se você tem mais de 40 anos, provavelmente se lembra de uma personagem criada por Chico Anysio: Salomé Maria da Anunciação, mais conhecida como Salomé do Passo Fundo. Para quem não se recorda, Salomé ligava para políticos e pessoas influentes assumindo um curioso ar de intimidade com o poder, comentando fatos do cotidiano político de forma ácida, irônica e extremamente crítica.


O personagem mais citado na época de sua criação, no final dos anos 1970, foi João Baptista de Oliveira Figueiredo, então presidente do Brasil. Com ele, Salomé aparentava uma intimidade ainda maior: chamava-o de “guri”, de “João” e dizia ter sido sua professora.

O cenário político daquele período era de uma abertura lenta, gradual e ainda trêmula. O presidente parecia precisar de um “empurrãozinho” para avançar em medidas como o fim dos Atos Institucionais, a Lei da Anistia e outras reformas que colocariam fim a mais de vinte anos de ditadura. Ainda havia censura nos meios de comunicação. Nesse contexto repressivo, o público se surpreendia com a liberdade de Salomé para criticar o governo. O humor funcionava de forma indireta e simbólica, permitindo leituras sociais que o confronto direto não permitiria.

Diferente do que se poderia esperar de um regime militar, Figueiredo recebeu a sátira com entusiasmo, chegando a convidar Chico Anysio para uma apresentação no Palácio do Planalto, em dezembro de 1979.

Figueiredo talvez na foto mais clássica do fotojornalismo brasileiro

A inspiração para a personagem parece ter vindo de Djanira de Oliveira Lângaro, viúva de um ex-político gaúcho. No passado, Djanira fora considerada uma mulher belíssima: foi eleita Rainha do Carnaval em 1919 e A Mais Bela Gaúcha dos Pampas em 1923. Tinha o hábito de ligar para políticos influentes, governadores e até presidentes, mantendo com eles uma relação peculiar.


Djanira num carro alegórico do carnaval num desfile em Passo Fundo

À esquerda, Djanira Lângaro. À direita, Chico Anysio caracterizado como Salomé (1979).

Do ponto de vista psicológico, o arquétipo criado por Chico Anysio se aproxima de um narcisismo defensivo (exatamente como o presidente parecia se colocar). Salomé se coloca como irresistível, desejada por todos, ocupando o centro absoluto das atenções. Essa autoimagem inflada funciona como mecanismo de defesa, possivelmente como resposta à solidão, ao medo do esquecimento e ao avanço da idade (exatamente como a ditadura parecia estar). O erotismo, em Salomé, não aparece como prazer, mas como instrumento de controle: ela insinua, constrange e provoca. Não é uma sedutora clássica, mas uma provocadora invasiva, que se sustenta mais na erotização do passado do que na presença real de uma senhora de cerca de 70 anos.

Salomé também apresenta uma histeria teatral: fala alto, exagera nos gestos, dramatiza tudo. Remete à histeria freudiana clássica, marcada pela necessidade constante de palco, pelo medo do silêncio e pelo horror à invisibilidade — mesmo em uma personagem que já venceu o tempo. Ela acredita na própria narrativa, ainda que atue silenciosamente nos bastidores.

O nome Salomé, no entanto, não é casual. Ele nos remete simbolicamente à Salomé bíblica, não de forma literal, mas arquetípica. Sua história aparece nos evangelhos de Marcos (6:17–29) e Mateus (14:3–12). ambas as narrativas começam descrevendo como João Batista foi capturado por Herodes por dizer que o casamento de Herodes com Herodias, esposa de seu irmão Filipe, é ilegal (Lev 20:21). Em Marcos, Herodias guarda rancor contra João por isso e quer matá-lo, mas ela se abstém porque Herodes o teme. Em Mateus, Herodes quer matá-lo, mas se abstém porque teme o povo, que acredita que ele é um profeta.  Em ambas as narrativas, Salomé dança em um banquete realizado no aniversário do rei Herodes. Em troca de suas danças agradáveis, Herodes promete que dará tudo o que ela pedir. 

Hans Horions - A dança de Salomé para Herodes 1634

Quando pergunta à mãe, Herodias, o que deve pedir, a mãe a instrui a pedir "a cabeça de João, o Batizador." Quando Salomé pede isso a Herodes, ela acrescenta às palavras da mãe "em bandeja" (Marcos 6:24–25). Chico Anysio subverte essa tragédia em humor por meio do bordão:

“Eu faço a cabeça de João Baptista ou não me chamo Salomé.”


Gustave Moreau, L'Apparition, 1876–77, mostra Salomé



O nome Salomé também aparece no Evangelho de Tiago, texto apócrifo atribuído a Tiago, irmão de Jesus. Nessa narrativa, uma Salomé, incrédula de uma virgem ter dado dado luz a um filho parte para a manjedoura para "inserir o dedo e comprovar a natureza dela" (Maria). Percebendo que ela era realmente virgem, sua mão pega fogo mas um anjo lhe diz para colocar a mão flamejante no neném (Jesus), ao fazer isso sua mão é curada sendo assim o primeiro milagre e fazendo com que Salomé fosse considerada a primeira discípula de Cristo, embora marcada para sempre pelo estigma da incredulidade. mas que ficou marcada como incrédula. Assim como incrédulos estavam todos diante da vontade política de Figueiredo de acabar com a ditadura.


terça-feira, novembro 11, 2025

O que fica de eterno em nós ...

Se Heráclito nos ensinou que tudo flui, há também uma sabedoria que nos convida a perceber o que permanece — aquilo que não se dissolve com o tempo, que não se curva às circunstâncias, que não se apaga com o esquecimento.
O permanente não é o oposto da mudança, mas o eixo silencioso que sustenta o movimento.

Enquanto o mundo gira em torno da impermanência, há uma dimensão do ser que se mantém intacta: o espírito, a consciência profunda, a essência que nos conecta ao eterno. É nessa dimensão que encontramos o que é verdadeiramente real — não o que muda, mas o que dá sentido à mudança. Rochas não são eternas, mas no meio do turbilhão das coisas, muitas vezes elas são o ponto seguro para nos apoiar, aí está a importância do eterno.


O que é o seu eterno? A fé? O que você carrega dentro de si ? Suas convicções ou suas crenças? Os conhecimentos que o levam a transcender, percebendo o sentido das coisas? O espírito?

Dentro das concepções que temos de Deus, é possível afirmar que Ele é eterno. E, se o ser humano foi criado à Sua imagem e semelhança, não seria lógico supor que também carregamos algo de eterno em nós?

Qual parte de nós perece, e qual parte segue?
A parte de Deus que habita em nós pode ser chamada de alma ou espírito — mas se pensarmos na alma como algo mais ligado à personalidade e ao corpo, então o espírito seria essa entidade imperecível, incorpórea e eterna. Essa essência não se altera com o tempo, não se desgasta com as emoções, não se perde nas ideias. É ela que nos permite pensar e sentir o eterno, mesmo em meio ao caos da existência.

A consciência do eterno nos liberta da tirania do efêmero. Quando cultivamos o espírito, não nos desesperamos com o tempo físico — serenamo-nos, como quem se ancora no centro da eternidade. E é nesse ponto que nascem as aspirações mais nobres que podemos ter:

  • A vontade de evoluir, mesmo diante das quedas.

  • A busca pelo justo, pelo belo, pelo verdadeiro — e por outros valores que não se desgastam.

  • A memória afetiva que resiste ao tempo e transforma dor em sabedoria.

  • O conhecimento transcendente, que não se consome como o metal, mas se multiplica e se eterniza dentro de nós.

O permanente não nega a mudança — ele a orienta. É como o caule que sustenta a flor, mesmo quando ela murcha. É como o céu que permanece, mesmo quando as nuvens passam.
O espírito é esse céu interior, onde podemos cultivar ações que não perecem, pensamentos que não se dissolvem, sentimentos e valores morais que não se corrompem.

Na filosofia oriental — especialmente no budismo, no taoismo e no hinduísmo — encontramos uma visão que dialoga profundamente com essa ideia de que “o permanente não nega a mudança, ele a orienta”.
O budismo ensina a impermanência (anicca), reconhecendo que tudo está em constante transformação, mas que há um campo de consciência serena — como o céu por trás das nuvens — que observa o fluxo sem se confundir com ele.

O céu contempla o turbilhão as nuvens na placidez do lago? O tempo muda tudo, mas o céu permanece. 

O taoismo expressa essa harmonia entre o mutável e o imutável através do Dao, o princípio invisível que sustenta o movimento das coisas.
Já o hinduísmo, com a noção de Atman ou Brahman, vê o espírito como o núcleo eterno da realidade — imutável e silencioso — que dá sentido à dança da vida.
Embora cada tradição tenha sua linguagem, todas convergem na mesma intuição: há uma dimensão interior — seja consciência, Dao ou espírito — que permanece, orientando as mudanças externas e permitindo cultivar pensamentos e valores que atravessam o tempo sem se corromper.

Se tudo passa, o eterno permanece como direção.
Ele não é um lugar fixo, mas um estado de consciência.
E é nesse estado que podemos afirmar o melhor de nossas vidas — como navegantes que enfrentam as ondas, mas seguem guiados pelas estrelas que não se apagam.

O mundo gira, as ondas vão e vem, as estrelas rompem o tempo, demoram mas se vão... a luz fica em meio a escuridão.

O permanente é o que nos torna humanos em nossa dimensão mais elevada.
É o que nos conecta ao divino, ao tempo profundo, à sabedoria que não envelhece.
Em meio à metamorfose ambulante, é o que nos permite ser sem deixar de evoluir.
Se o impermanente nos ensina a desapegar, o permanente nos ensina a consagrar.



domingo, novembro 09, 2025

Preste atenção ... O mundo é um moinho

 Heráclito de Éfeso com a noção de que tudo está em constante mudança, registrou pela primeira vez a constatação do devir, paradoxalmente é uma noção que ... fica! Se aproximando bastante com as filosofias orientais (a impermanência é um dos três pilares do budismo e o ciclo de samsara do hinduísmo que mostra a existência como um fluxo contínuo e o Taoísmo chinês como o Tao sendo o caminho natural do universo, fluído e em transformação), Heráclito teve a atenção de combinar Homem e Natureza, na sua frase famosa:

"Nenhum homem entra duas vezes no mesmo rio, pois nem o homem é o mesmo, nem o rio."

Essa citação expressa a ideia de que tudo flui (panta rhei, em grego), e nada permanece igual. Tanto o rio (com sua água corrente) quanto o homem (com suas experiências e pensamentos) estão em constante transformação.

Heráclito acreditava que a mudança é a essência da realidade — uma visão que influenciou profundamente a filosofia ocidental. A partir daí a arte e a ciência se apropriaram da noção da impermanência, demonstrando até com a física quântica moderna e termodinâmica que energia e matéria estão em constante movimento, que o Universo está em expansão, e nada é estático - nem o tempo, como demonstrou a teoria da relatividade de Einstein. (que coloca em cheque até o fluir do tempo).

Filósofos existencialistas começaram a abordar o lado humano disso, com Nietzsche e Sartre destacando o ser humano sempre em construção e uma identidade não fixa, sendo moldada pelas circunstâncias, escolhas e experiências. E nem precisa ser um gênio inconstante como o de Salvador Dali ou Vicent Van Gogh, basta ver os diferentes heterônimos de múltiplas identidades de Fernando Pessoa. A ideia também foi abordada pelas artes.

A Persistência da Memória - Salvador Dali


A Noite Estrelada - Vicent van Gogh transmitindo sensação de turbulência emocional e transformação interior do artista, a Lua e estrelas brilham enquanto a cidade dorme. É um cosmo vivo e eterno diante da efemeridade da vida.


“Nossa cabeça é redonda para permitir ao pensamento mudar de direção”- Francis Picabia.

Diante dessa "Metamorfose Ambulante", tudo passa... tudo muda, inclusive nossas idéias e emoções e aí podemos " dizer o contrário do que dizemos antes.... ou se hoje eu te odeio, amanhã já se apagou". O Homem como um turbilhão de ideias e sentimentos pode se proteger da ideia de que esta em constante transformação, "do que ter a velha opinião formada sobre tudo!" afinal o próprio mundo a nossa volta muda e "nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia".





sexta-feira, julho 25, 2025

Culto ao luxo fake que lucra com a alienação coletiva

 Em tempos de redes sociais aceleradas e vitrines digitais infinitas, o culto ao luxo fake se estabeleceu como um fenômeno que vai muito além da estética: ele alimenta uma lógica de alienação coletiva — fabricando desejos, deformando valores e lucrando com a ilusão.

Não é preciso ter para parecer. Essa é a nova regra do jogo.

O cenário atual é dominado por influencers que ostentam marcas de grife, carros de alto padrão e estilos de vida glamourosos — frequentemente sustentados por empréstimos, permutas ou réplicas. Nesse universo, o luxo deixou de ser expressão de sucesso real e passou a ser uma performance: um papel social cuidadosamente encenado para ganhar atenção, seguidores, validação. O consumo virou espetáculo, e quem não entra em cena fica invisível.

Essa encenação não é inofensiva: ela movimenta uma indústria que explora, sem pudor, o desejo por pertencimento. Vendas de produtos falsificados, aluguel de itens de luxo, marcas paralelas e publicidade aspiracional são apenas algumas das engrenagens desse sistema.


As plataformas digitais ajudam a perpetuar o ciclo, recompensando quem parece ter mais — independentemente de como ou por que. Por trás da promessa de sucesso imediato, há uma armadilha emocional. A busca compulsiva por status provoca frustração, ansiedade, baixa autoestima. Muitos consomem como resposta ao vazio, tentando preencher com likes aquilo que falta em si mesmos. Nessa lógica, não há tempo para reflexão, nem espaço para autenticidade: o que importa é ser notado, mesmo que seja só pela casca.

Esse culto ao luxo fake distorce relações, neutraliza a empatia e enfraquece noções importantes como propósito, comunidade e essência. Em vez de fortalecer identidades, uniformiza comportamentos. Em vez de inspirar transformação, promove comparação.

E nesse ritmo acelerado, perdemos o que mais importa: o valor da verdade, do tempo e daquilo que não pode ser comprado. Reconhecer o luxo fake como uma construção vazia é o primeiro passo para romper esse ciclo. É preciso coragem para se desconectar da lógica da aparência e reconectar-se com o que é real: o afeto, a simplicidade, os processos verdadeiros — que não cabem em vitrines, mas preenchem a vida.

Luxo de verdade é viver com significado.




quinta-feira, julho 24, 2025

Quando a evolução nos deixou em pé

Graças a Charles Darwin, fomos capazes de comprovar cientificamente aquilo que já intuíamos: o ser humano, assim como os outros animais e toda a natureza, está em constante evolução. Essa verdade sutil explica as dezenas de inadaptações que ainda habitam nosso organismo — traços herdados de uma vida instintiva que hoje coexistem com uma realidade racional e até espiritual.

Em algum ponto da jornada evolutiva, nossa espécie deu um salto cognitivo que continua envolto em mistério. Alguns atribuem isso ao refinamento da técnica manual; outros à conquista da locomoção bípede, que libertou nossas mãos; há quem defenda que foi nossa alimentação — especialmente entre caçadores coletores — que despertou a mente, com a ingestão de cogumelos alucinógenos desencadeando novas formas de percepção, imaginação e raciocínio.

Mas por que esse salto não ocorreu em outras espécies?

Fato é que, num momento chave da nossa história evolutiva, nosso corpo mudou drasticamente. As sinapses se aceleraram, os sentidos se refinaram, o poder de cognição expandiu. O cérebro cresceu tanto que já não cabia na antiga estrutura. E para sustentá-lo, erguemos a cabeça, perdemos a cauda, assumimos a postura vertical. Nossos quadris e coluna não estavam prontos, e ainda hoje sofremos com a sobrecarga na lombar, nos joelhos, nas articulações.


Ao se erguer, o humano viu mais longe. Caçou, em vez de ser caçado. A visão tornou-se mais importante que o olfato, a cabeça cresceu precocemente — criando um novo desafio à reprodução. Fêmeas tiveram de reduzir o tempo gestacional para acomodar crânios cada vez maiores. Por isso, somos os recém-nascidos mais dependentes do reino animal: enquanto uma girafa já nasce caminhando, nós precisamos de quase um ano só para dar os primeiros passos.

A verticalidade trouxe ganhos, mas também exigiu compensações. O coração teve que se adaptar para bombear sangue contra a gravidade, o sistema digestivo abandonou o processo de ruminação, dependendo cada vez mais das bactérias intestinais. Os sisos tornaram-se vestígios de uma era em que mastigar exigia mais esforço.

E aqui estamos. Bípedes, cabeçudos, frágeis ao nascer, mas gigantes na imaginação ... e se ainda estamos evoluindo é de se supor que ainda estamos pelo caminho.

A evolução não é um caminho de perfeição, mas de transformações. Ela nos deixou com dores nas costas e joelhos problemáticos, mas também com a capacidade de pensar sobre tudo isso — e de contar a nossa própria história com palavras. 

Se a evolução do corpo nos parece mais perceptível, a evolução mental nos mostra a cada dia como éramos e onde chegamos sem nos dar indícios de onde podemos chegar. Resta a questão espiritual que saiu do medo, passou por crenças e que vai nos levando para um encontro consigo mesmo e com o que chamamos por Deus ... aí sim, a perfeição!


segunda-feira, julho 21, 2025

A Linguagem como Território

Falar é uma coisa curiosa. Ao mesmo tempo em que expressamos aquilo que nos torna comuns, revelamos o que temos de mais singular. A linguagem carrega a marca da coletividade e, também, a assinatura da individualidade.

Existe uma cumplicidade silenciosa entre quem escreve e quem lê. As palavras têm o poder de criar laços, mas também de romper acordos — são pontos de conflito e, paradoxalmente, os instrumentos mais eficazes para resolvê-los. Usar a linguagem é quase um milagre: ela transforma ideias em redes invisíveis que nos conectam.

Assim como as palavras se espalham pelas ruas, reinventando a linguagem falada, nossos pensamentos brotam em formas imprevisíveis. A singularidade de uma ideia pode se manifestar por meio de gírias, sotaques, neologismos. Cada letra forma palavras, que se unem em discursos, que constroem relações — e dentro delas, a própria vida.

O português do Brasil, por exemplo, é uma língua única: resultado de uma fusão rica de outros idiomas, uma identidade linguística que se desdobra e se reinventa. Linguagem é uma das maiores riquezas de um povo. E a forma como ela define o mundo ao nosso redor é o que nos eleva a novos patamares de cultura e consciência.

Compreender a língua que se fala vai além do respeito à gramática ou à norma culta. É reconhecer o outro, sua história, sua identidade. Respeitar diferentes formas de expressão é, sobretudo, respeitar culturas diversas — e esse talvez seja um dos grandes desafios da onda civilizatória, especialmente quando se trata dos povos indígenas originários.

Afinal, o que significa "evoluir"? É abandonar formas antigas ou aprender a conviver com a diversidade?

Impor uma cultura não é apenas silenciar outra — é arrancar sua raiz mais profunda. Às vezes, entender corretamente uma palavra pode ser mais poderoso do que qualquer lei: proteger a “terra” para os povos indígenas não é apenas garantir território físico, mas assegurar que ali permaneça viva sua alma, sua visão de mundo, suas raízes e cultura, enfim ... sua conexão com a vida.

 

sábado, dezembro 28, 2024

Pílulas de inquietudes para reflexão e ... ação !

Avanços tecnológicos, globalização, sociedade da informação... Comunicação instantânea, encurtamento das distâncias, análise de dados, novas profissões, relacionamentos virtuais, avanços da medicina, conforto... Mas, estamos realmente usufruindo dessas conquistas ? Como sociedade e de forma igual ?
No mundo atual, as transformações culturais têm favorecida a solução de conflitos com base no respeito, aproximando as pessoas ao invés de afastá-las? 
E a miséria? Por quanto tempo ainda existirá ? Já temos plenas condições de oferecer o básico para todos e por que até hoje ainda não fizemos, porque até hoje o tema da pobreza ainda incomoda a sociedade humana. Falta de água, falta de acesso a recursos básicos de saneamento, fome e  analfabetismo... Se são temas que incomodam, porque o foco da sociedade sabota esses temas ?
Um país gasta US$2 bilhões numa bomba que matou 70 mil pessoas e "aliviou a agonia da guerra", coisa insana e desnecessária a guerra, mas poderia o homem viver sem ela ? Enquanto soldados americanos massacram 300 famílias no Vietnam, o comandante da tropa se defende falando que precisa "atacá-los para protegê-los"....
Ditadores massacram a liberdade de comunicar, a pobreza mata a liberdade de sonhar.... E o que seria do Homem sem o sonho que nos possibilita avançar as dificuldades, criar utopias e ver além da tristeza e do desamparo?
O direito de sonhar é o pai de todos os demais direitos, quando regimes de exceção limitam o sonho, limitam a liberdade de pensamento e a expressão deles, ele limita a valorização do homem como ser psicológico único e ali se morre. É preciso viver em pensamento pleno para não morrer. Sem os sonhos viveríamos numa miséria maior que a material porque matariamos a esperança.

domingo, junho 09, 2024

Deus 1

Afinal o que é DEUS ? Através dos séculos crenças e religiões tentaram traçar uma imagem para entender o que é DEUS? Obviamente há uma tendência natural de imaginá-lo como uma figura humana, supremo de toda a sabedoria mas enérgico pintou-se Deus como um senhor de meia idade, branco, de cabelos e barbas brancas, simbolizando uma suposta pureza, longevidade e sabedoria; forte e musculoso para demonstrar todo o seu poder. Mas porque diante de toda a natureza ele deveria ter a forma humana, algumas crenças o pintam como um animal, de uma Salamandra a um Caramujo e porque então não teria ele a aparência de uma tartaruga ? 

As dúvida e inquietudes vão muito além das aparências de um Deus, sua forma de atuar como sendo um pai bom e amoroso ou um mestre que nos dita cada caminho a seguir. Acompanhando nossas atitudes como quem nos controla como marionetes ou apenas um Criador que definiu Leis e processos naturais que nos rodeiam e a qual estamos sujeitos ? Isso porque nem entramos ainda no mérito mais básico que é sobre a existência de Deus, uma inquietude pertinente nessa reflexão, mas partimos do pressuposto básico de que se existe criação, existe um criador...

Poder da criação já seria por si só algo que nos faz divagar ao longo da existência humana, se pensarmos no Universo então ... Microcosmos e Macrocosmos seria tudo uma coincidência natural ? Ou somos o fruto de um poder criador inteligente? Saindo agora de uma discussão sobre a imagem de Deus e de uma tendência a querer humanizá-lo ... existe uma inteligência única dentro dos milhares de processos naturais que já conseguimos conhecer ? Somos fruto de uma criação ? Se fomos gerados espontaneamente, e regidos por algumas Leis gerais, o que ou quem definiu essas Leis ? Se fomos criados por um Deus ... quem criou o próprio Deus? Seria ele o conjunto de tudo o que não podemos compreender ? Assim como a fé é o poder que não controlamos... 

Pensamos num Deus supra humano numa tentativa de nos reconhecer Nele (e lá vem o narcisismo humano de tentar suas próprias imperfeições sempre!), mas isso ocorre por pura incompetência nossa de conseguir imaginar  algo que não conhecemos, Deus pode ser simplesmente uma energia criadora de magnitude imensa a ponto de criar e acompanhar toda a sua criação, Ele pode também ter criado regras, Leis que funcionariam em todo o universo e toda a existência estaria sujeito a essas regras, ditariam o conhecimento divino e através delas tudo seria orquestrado sem necessariamente uma interferência direta de Deus , algo como por exemplo a Lei da gravidade que existe em menor ou maior grau influenciando por onde se vá no Universo, desde os átomos, até os astros, todos os corpos estão sujeitos a essa "ação de Deus" e de seu conhecimento.  E como tentar conhecer algo que não está presencialmente diante de nossos olhos e que seja muito maior que a nossa capacidade intelectual? Como amar algo que não conhecemos bem ? É como amar uma pessoa, criamos um sentimento por algo que conhecemos e criamos expectativa por algo que supomos conhecer.

Conhecer um Criador a partir de sua criação é um caminho viável na maioria dos casos, é como tentar entender a psicologia de Leonardo Da Vinci a partir de seus escritos, suas pinturas, o lugar onde viveu , temos muita coisa palpável para trabalhar, mas devemos ter um pouco de imaginação para tentar conceber um pouco como era o gênio a partir de seu trabalho. É uma pesquisa semelhante que tentamos conduzir para entender Deus. A partir de sua obra divina, buscar entendê-Lo. Mas onde estaria a obra de Deus? Espalhada pelos quatro cantos do mundo ? Por todo o Universo? Nas coisas mínimas? Se entendermos um Deus criador de tudo, em tudo existe uma partícula divina. Teríamos que compreender toda a física, a química e a biologia  a partir dos processos matemáticos para entender um pouco que que é Deus? É claro que um cientista opera nesse caminho há milênios, mas e se quisermos entender os sentimentos?  Porque ir buscar no mundo subatômico se podemos começar com algo muito perto de nós ? Porque não supor que a inteligência humana deriva de uma inteligência de seu Criador para que possamos dentro de nosso micro cosmos traçar paralelos com Deus e compreendê-lo mais? Se Deus nos criou, decerto existe uma partícula Divina dentro de cada um de nós e dentro de cada coisa nesse universo vasto e complexo. E aí está algo para nos aprofundar em pesquisa. Tão perto, e tão distânte, teoricamente Deus está dentro de nós, porque nã começar por entender a nós mesmos? Ou em coisas que estão por perto, no nosso cotidiano, na natureza que nos rodeia? Onde e quando reconhecemos Deus? Estamos aptos a fazer essa pesquisa, a descobrir aos poucos sobre essa energia que supõe-se que tenha nos criado? Será que podemos nos decepcionar por não chegar a lugar nenhum ou a chegar em algum lugar que não poderemos compreender?

Se pararmos para pensar e reconhecer onde vemos seria um caminho fácil para encontrar  Deus. Mas é preciso ficar atento para ter certeza de que  estaremos reconhecendo Ele realmente com os nosso olhos, ouvidos e ... Sentimentos. Estamos como olhos , ouvidos e sentimento atentos para captar Deus em cada coisa ? Ou passamos batidos por ele em 99,9% do nosso tempo? Porque se Deus está em tudo, é possível  sentir sua presença na natureza, nas relações humanas, no amor, no carinho e no ódio. Aonde você viu Deus ? No abrir de olhos diário, numa mãe dando aconchego ao seu filho? Num ato de ternura, na compreensão das tais Leis? Nas religiões  que definem  Deus tanto sendo um senhorzinho barbudo quanto um caramujo? Nas suas atitudes diárias? Onde está o Seu Deus ? 



segunda-feira, outubro 10, 2022

Humanidade encurralada nos sonhos dos mortos




 Vivemos num mundo vazio, tomado por informações irrelevantes, por formadores de opinião auto denominando-se influenciadores digitais que determinam o pensamento moderno, os costumes, as atitudes, o consumo. Vivemos numa humanidade à mercê do pouco uso que se faz com o que nos difere do resto das espécies, a inteligência. Mas mesmo assim ainda avançamos como civilização, tendo avanços nas ciências, medicina, criando novas formas de artes, novas formas de interação, de comunicação, indo além dos horizontes já conquistados !

E onde mais poderíamos avançar ? Que novos campos poderiam ser desenvolvidos como a tecnologia dos computadores e celulares? Se tecnicamente a humanidade avançou muito, ainda vemos a brutalidade nas relações humanas, não sabemos lidar com nossa psique, com nosso espírito, temos conceitos distorcidos de tempo, de criação, de existência. Vivemos o que aparentamos, olhamos assustados para o que somos por dentro, não cuidamos do nosso planeta, não protegemos outras espécies, não entendemos os relacionamentos  de leis universais e naturais que regem a vida. Não sabemos conviver civilizadamente... O conceito de civilização começou com uma perna quebrada, ali naquele primeiro momento onde os arqueólogos descobriram uma ossada com um osso de fêmur calcificado inicia-se o conceito de civilização e de vida em sociedade. É simples explicar, num período dos homens das cavernas sair para caçar era extremamente arriscado, conseguir uma caça por si só difícil e durante muito tempo os hominídeos viviam cada um por si, uma fratura de perna significaria a inoperância para caçar, o abandono à própria sorte e ... por fim, a morte ! Mas um indivíduo que chegou a vida adulta, com uma fratura calcificada significa que ficou curado e que coube a algum semelhante cuidar dele enquanto ficava curado, esse alguém que teve pela primeira vez a empatia com seu semelhante, reforçou os laços humanos e possivelmente ali naquele esqueleto calcificado brotou pela primeira vez a gratidão! Difícil saber se foram de fato os primeiros fenômenos mas  com certeza foram os primeiros que puderam ser registrados, num tempo onde a comunicação como a de hoje nos impedia de registrar a vida da civilização. Mesmo aquele esqueleto calcificando sendo tão igual a nós... nos parece tão distante, mas o DNA é fundamentalmente o mesmo, o que nos difere é o conhecimento!

O vazio é existencial, quando os valores humanos não preenchem nossa existência, a solidez da vida acaba ao menor ato de desespero onde busca-se acabar com ela. A devoção pelo que é belo deu lugar ao que vende e tem apelo comercial, não se busca mais fazer o melhor mas o que pode ser consumido rápido. Com isso não se produz arte, não come-se bem, não há conhecimento e sim informação em demasia, se mortos tem sonhos são almas penadas vagando no vazio mas o vazio é estreito porque nem ele prolifera num terreno tão infrutífero quanto o que vemos agora, gerações perdidas e sem certezas em relação ao futuro, sem construir um futuro, sem esperanças no presente, sem sonhos, sem planos e com muita religião ... muita crença e pouca fé!  


quinta-feira, dezembro 05, 2019

Particularidades dos holocaustos

Estamos acostumados a ver as cenas do holocausto judeu com aquelas cenas horríveis de cadáveres jogados em covas rasas, filas imensas entrando nos crematórios, números de judeus mortos sendo contados aos milhares, fotos de centenas de sapatos espalhados pelos campos de concentração. O gigantismo para contar uma história dentro da nossa história de humanidade, o aparato grandioso da guerra, muitas vezes esconde as pequenas milhões de estórias ceifadas de cada Humano que passou por essa experiência. Não são 6 milhões de judeus mortos na história, mas 6 milhões de histórias destruídas nas particularidades da guerra. Contos de famílias felizes que perderam tudo e que simplesmente deixaram de existir para a humanidade.

O caso mais famoso é o de Anne Frank, existem outros tantos, existem relatos de superação, de coragem, de covardia, de medo, de dor, de perda .. muitos poucos de esperança. A ótica que retratou a guerra durante muitos anos foi a de movimentos grandiosos de guerra, aos poucos foram aparecendo as pequenas histórias da particularidade de cada família, de cada pessoa, casos como o de Anne Frank, Lili Jaffe, Adolpho Block, Miriam Ziegler, Sam Piviniki e outros tantos mostram famílias despedaçadas, parentes brutalmente separados e um enorme buraco que deixou milhares de humanos, sem pátria, sem chão e sem sentido de vida. Muitos dos relatos dos sobreviventes nos levam a um sentido mínimo de Humanidade e dignidade que se não lhes dava esperança ... minimamente os faziam sobreviver mesmo que instintivamente e daí encontravam forças para reagir a morte.

Existiam centenas de campos de concentração, alguns deles também eram de extermínio, Auschwitz era o maior deles, mas olhar a História só por essa visão bem particular é fechar os olhos pelo que acontecia em Sobibor, Treblinka, Lwow ... a forma de olhar a História pode mudar em muito o nosso sentimento pelas coisas que aconteceram, nos colocar em sintonia pelo que uma pessoa passou naqueles momentos pode nos dar a real condição de vida e sobrevivência. Transformar nosso conhecimento em sentimento e daí a importância de não se fazer esquecer para não repetir. 

Da mesma forma que o termo holocausto nos faz pensar só em extermínio de judeus na segunda guerra é bom deixar claro que até nesse termo acabamos escondendo particularidades que semântica nos dá .. se pensarmos que o termo HOLOCAUSTO vem do grego para representar a queimar todos e exterminar podemos traçar paralelos, não em números, mas em sofrimento com outros momentos da história, nem é preciso recorrer à Roma antiga, Gengis Kan, Inquisição, os Incas, as Guerras Guaraníticas, a Primeira Guerra Mundial, o Extermínio de Pol Pot, o genocídio Armênio, os expurgos Stalinistas, Mianmar, o Estado Islâmico, a Bósnia, o Sudão do Sul ou os Pogroms. Existem genocídios bem perto de nós, na nossa história recente como a Guerra da Tríplice Aliança dizimando o Paraguai, o extermínio em massa de Canudos, o Contestado, o hospício de Barbacena, as prisões do Estado Novo. 

Matar, torturar, exterminar sistematicamente pessoas tendo como motivação eliminar as diferenças de nacionalidade, raça, religião e etnia são coisas prometemos nunca mais ver, depois de vermos o holocausto nazista, mas que continuam por aí como se ninguém olhasse para a particularidade deles e o ódio que os cria.

quarta-feira, outubro 09, 2019

Coringa um filme necessário para dizer que o Ser humano não é tão perfeito quanto a sociedade impõe ...

Uma desnorteante dessincronização da sonoplastia, cenas exuberantes e memoráveis, tomadas sombrias de um filme denso, interpretado no seu papel principal por Joaquin Phoenix, um conturbado e brilhante ator que teve um megalomaníaco personagem escolhido a dedo para ele.

Bem ... o personagem é pop mas nasceu bem antes dos quadrinhos da Marvel, numa inspiração melodramática de Vitor Hugo (O Homem que Ri). A partir de origens diversas o vilão desse filme tem uma história sofrida, quase que comovendo o público a torcer pelo vilão. Apesar do personagem nos fazer imaginar uma comédia com seus atos, a trama psicológica é triste, sua risada insana... nada tem de engraçada mas é um distúrbio patológico muito mais associado a depressão após um trauma físico.  No transtorno da expressão emocional involuntária, as crises de choro e/ou riso, além de serem incontroláveis, tendem a ser desproporcionais ao estímulo recebido, podendo estar completamente dissociada do estado de humor do paciente ou mesmo ser contraditória ao contexto no qual o estímulo está inserido. Tipo quando o público faz, quando um anão tenta sair da cena de um crime brutal do filme com o sangue respingado pelo cenário. Se o público acha graça em algum momento do filme ... por uma piada infeliz, uma risada contagiante, mesmo que desesperadora, é porque precisa apontar o dedo para si e questionar como somos capazes de não conseguir controlar nosso sistema sensível diante de uma narrativa tão perturbadora.

Um homem adulto que vive a cuidar da mãe nos parece uma boa pessoa, mas não é! Num tempo em que vivemos de falar de propósitos de vida, o dele é " trazer risos e alegria ao mundo" .... mas não é bem assim que a trama ocorre! Porque as oportunidades da vida nem sempre são as que persistimos em seguir obcecadamente. Não é porque a sociedade nos tenta enfiar, goela abaixo o positivismo, a alta performance e o bem estar constante das redes sociais que seremos assim. É impossível ser feliz sempre, ter consciência de que o Ser Humano é falho e que por isso somos igualmente falhos nos dá um conforto ao errar e um ânimo a mais para consertar. A tristeza é algo que o mundo tenta sufocar para manter uma felicidade difícil de se sustentar na eloquência das horas vividas entre no nosso ego e as nossas almas.

Não são poucos os que tem transtornos mentais, menos ainda são aqueles que por um momento da vida passaram por momentos de descompressão emocional, dramas psicológicos que sufocam os sentimento e acabam por sufocar a si mesmos, como um homem que quer conter o riso quando só pensa em chorar. Em certo momento do filme existe uma citação bastante reflexiva: " A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que vocês se comporte como se não tivesse", isso é a demonstração de como não estamos preparados para conviver em sociedade com pessoas com esses transtornos, por séculos colocávamos esses doentes em reclusão, em condições físicas cruéis e pouco humanitárias. O Brasil tem a casa de genocídio de Barbacena, Os Estados Unidos o Athem Lunatic Asylum, a Austrália a Inglaterra tem os seus. Sempre tentando proteger a sociedade de transtornos mentais, mas também dos veteranos de guerra, dos homossexuais, das prostitutas, dos infiéis matrimoniais, dos pecadores da Igreja e etc.

Num tempo em que uma das maiores causas de afastamento profissional sejam fatores psicológicos, num tempo de Prozac e Fluoxicitina curando bullying, a sociedade ainda cobra o sorriso, a alegria de um almoço de domingo, a heterossexualidade, a crença religiosa, a saúde física, a aceitação o tempo todo, a magreza, o vestido da moda, a certificação profissional ... Nos levam a ser cada vez mais o que exigem e cada vez menos em nossa essência. Na imaginosa Gotham City isso leva ao caos dos oprimidos diante da crise higiênica e dos serviços públicos, daí para a onde de violência é um passo, como animais encarcerados matam-se os semelhantes e o líder de todo o movimento é sem querer,o Coringa. Mesmo vilão, gera empatia por, como os demais, ser desassistido por uma sociedade corrupta, hipócrita e delirante. Que sofrem a violência da maldade explícita mas também aquele sutil, escondida em pequenos atos, palavras e julgamentos.

Existem várias maneiras de sair desse cinema ... simplesmente frios diante de um filme de ficção, assombrado, exitado com os atos de violência, pensando nas reações de um agredido diante de seus agressores ou com uma necessidade de olhar o mundo e a si mesmo com mais sensibilidade, compaixão e pensando na frase do Coringa: 

"Sou eu ou o mundo que está ficando mais louco?"


Alguns números do terror:

60.000 mortos no manicômio de Barbacena (entre mulheres adúlteras, presos políticos, infiéis religiosos).
3.000 castrados no Topeka State Hospital do Kansas (entre epiléticos, "bobos", crimonosos leves).
2.600 paciente no Danvers State Hospital que comportava 600.
9.000 mortos no Beechwort Lunatc Asylum (sem diagnóstico de loucura).
800 infectados propositalmente com Hepatite B no Willowbrook State Hospital.
2.400 pacientes no Trans-Allegheny Lunac Asylum que comportava 250 pacientes.
3.393 afastamentos do trabalho no Brasil em 2016 por depressão

Todos tem histórico de abusos sexuais, maus tratos e tortura!

.... e a velha tia segue feliz para a missa de domingo depois de ter sossego por internar o sobrinho homossexual numa casa de cuidados mentais do governo...



quinta-feira, julho 25, 2019

A história do fim da ideologia

Até o final dos anos 80 o mundo assistia brigas ideológicas de alto nível, não se resumia a uma guerra fria ideológica entre comunistas e capitalistas, se olharmos com detalhe havia um arco iris de tendências  espectros dentro de cada vertente ideológica. Existiam os Trabalhistas (tanto de direita quanto de esquerda), os Sociais Democratas, os Verdes, Comunistas tradicionais russos, que não se batiam muito com os chineses, existia toda uma vertente ideológica liberal britânica que tinha um feitio diferente dos democratas americanos, que lutavam contra os comunistas cubanos que tinham o seu ditador, mas que sua vez lutavam contra os ditadores militares latino americanos. E esses mesmos ditadores tinham suas diferenças, os argentinos eram mais brutais que os brasileiros, o chileno voltava sua economia para o liberalismo enquanto aqui no Brasil o movimento era estatizante.

O final da década de 80 foi chegando e a vida foi perdendo a cor no mundo inteiro. Um impacto direto da derrocada comunista sem essencialmente haver uma vitória real do capitalismo, as ditaduras latinas cederam o poder para governos democráticos imersos em problemas sócio econômicos sérios enquanto uma dezenas de países europeus estavam reconstruindo suas economias e tentando se encontrar ideologicamente. Cazuza retratou bem esse momento de frustração geral no seu álbum Ideologia, onde a capa mostrava uma miríade de símbolos antagônicos entre si.



Em meio a isso um sujeito chamado Lula que representava um partido trabalhista essencialmente sindical se lançava candidato a presidência do Brasil. Uma década se passou e seu discurso foi ficando vazio mas sua persistência o fez aparar a barba, atenuar a fala, melhorar o terno, alinha seu discurso com os dos seus inimigos e .... substituir o furor do idealismo político pelo estratégico marketing eleitoral. Quando ganhou sua eleição, já estava distante daquele líder sindical de outrora. 

Começou então a andar com quem não devia, fazer o que não lhe condizia, renegar a sua ideologia, aos poucos foi se perpetuando no poder, somente para governar... era o poder pelo poder. Emplacou releição, criou artificialmente uma candidata substitua a ele e viu seu poder ruir sem uma ideologia para lhe sustentar. Os desejos dos partidos seguiam a política do toma lá, dá cá criada pela política dos governadores há 100 ano atrás e alimentada pelos mensalinhos da política nacional. 

Surgiu então a direita, alimentando-se de uma ideologia de fake news, simplificando o debate político numa briga de Fla X Flu e alimentando a fúria bélica dos certos contra os errados, os vermelhos comunistas contra os brasileiros nacionalistas. Discursos viraram tweets, bom senso virou  ... virou ... não, o bom senso se perdeu! Fomos criando uma dificuldade de lidar com quem pensa diferente, perdemos a autocrítica e o debate de alto nível de outrora foi trocado pelos Memes de internet. 

Nesse caminho perigoso de radicalismos extremos de parte a parte, professores não se dão o respeito, alunos os gravam em sala de aula para intimidar, caçamos bruxas como no Macarthismo, abrimos caminho para uma Revolução Cultural ao estilo chines e a uma Jihad evangélica. As instituições vão entrando em colapso, esvaziamos a autoridade de quem as tem ... no meio dessa bipolaridade social doutrinamos sem ideologia e sem idéias, sem construção mas baseadas no fato de ser contrários aos outros, perdemos nossa identidade, e com isso vamos perdendo por quem lutar como se perde o orgulho de uma vitória ou o sabor do aprendizado de uma derrota, como lágrimas que se perdem no meio da chuva. Vida humana no meio do nada....


sexta-feira, julho 19, 2019

A verdade vos fará livres!

A verdade vos fará livre .... mas onde está a verdade? Em tempos de relacionamentos rasos, pouca profundidade dos fatos, fake news, diálogos rápidos, ideologias trocadas por marketing político, discursos substituidos por memes. Onde estará a verdade de tudo ? Parece difícil encontrar a verdade das coisas, escolher alguém para crer num mundo construído de mentiras e frases vazias. Pode ser que procurar alguma verdade num mundo externo ao nosso nariz seja como procurar agulha num palheiro, então que tal começar a procurar uma verdade dentro de nós mesmos.

O autoconhecimento nos leva a encontrar onde está nossa própria verdade, e apesar de estarmos tão próximos da nossa essência, muitas vezes não olhamos para nós mesmos, já que vivemos  uma vida para os outros. São filhos que seguem a profissão escolhida pelos pais, compromissos que temos que assumir para seguir a agenda dos clientes. Discursos que não são nossos mas que seguimos por uma paixão irracional. Amores carnavalescos que não tocam a nossa essência. 

Quando vamos ver, nossa vida passou e temos muita dificuldade em encontrar nossa própria agenda, nossa marca nas conquistas, nossa força de vontade por encontrar um espaço próprio na história. Aí nos damos conta que não possuímos nem a nossa própria verdade. Para começar a procurar uma verdade pra chamar de sua, não procure nos livros de auto ajuda, nas palavras mal escritas de um blog qualquer, não procure olhando o horizonte de pessoas que passam pela nossa vida, não procure nas crenças e nem nas religiões que dependem de uma fé cega para mostrar a verdade. Procure em você mesmo, procure nas reflexões que faça, nas aspirações e inspirações que surgem longe do nosso sentimentalismo barato. Procure em tu mesmo e encontrará a verdade pois ela está na abundância de tudo que é essencial para a nossa vida, desde as ideias até o ar que respiramos... procure no amor próprio e no amor ao próximo, aquele amor que nos infla o peito de nos dá uma sensação de gratidão.

É o amor irrestrito que nos torna livres da intolerância, do preconceito, é ele que nos liberta dos dogmas, do traiçoeiro pensamento que nos sabota e nos derrota. É amando ao próximo e a nós mesmos que podemos falar com sinceridade, olhar com profundidade os olhos dos outros, é com esse amor que construímos a vida e encontramos a nossa paz.

segunda-feira, julho 08, 2019

João Gilberto

A impressão é que 10 em cada 10 músicos que viveram os anos 50 no Brasil falavam de um cara que tinha um jeito descompassado de tocar violão, uma voz que ficava longe de um crooner mas que, com esse estilo diferente de tudo que já tinha sido ouvido, influenciou suas carreiras. Esse cara se chamava João Gilberto e com ele se foi a memória de um Brasil que despontava para ditar cultura pelo mundo afora, junto com a conquista de uma copa do mundo em 58, a arquitetura, a música e o cinema mostravam ao mundo um país cosmopolita que se emancipou da semana de arte moderna de 22 com um nível de sofisticação nunca antes vistas num país que aos poucos deixava de ser rural e que em breve iria ter uma nova capital. O mundo nos descobriu como nação intelectualmente independente quando descobriu João Gilberto.

João se foi e com ele uma horda de boas lembranças de Nara Leão, Vinícius de Moraes, Miúcha, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Baden Powell, Leny Andrade, Tom Jobim, Pixinguinha, Cartola, Elis Regina, Tim Maia ... não que estivessem totalmente relacionados entre si mas que simbolizavam uma face bem brasileira de fazer a música de forma diferente, à exaltando como arte. E se ainda existem: Chico, Toquinho, Gil, Caetano, Ivan Lins, Roberto Carlos, Guilherme Arantes, João Bosco, Hermeto Pascoal, Zé Ramalho, Erasmo Carlos ... renegados a um ostracismos gigante, talvez até porque não conseguiram passar o bastão para uma nova geração de artistas, como João Gilberto fez influenciando tanta gente. Ah! ainda figuram nessa lista de influenciados Frank Sinatra, Bono Vox, Sting, Al Jarreau, Doris Day, Diana Krall.

Um músico obcecado pelo silêncio que apareceu num vácuo de vibratos de vozeirões como Cauby Peixoto, Orlando Silva e Francisco Alves. Num país de grandes violonistas, foi João que colocou o instrumento sob as luzes indo além do Samba Canção e do Jazz, incorporando um sentimento a instrumentação. Algo difícil de ser explicado porque é muito bem sentido nos compassos entre som e silêncio que ecoam arrebatadores nos nossos corações. Não é a toa que um disco tipicamente de Bossa Nova, mesmo cantandos em português seja um dos mais celebrados da história do Jazz. O LP Getz/ Gilberto é tão arrebatador quanto ouvir Chega de Saudade sem nenhuma referência anterior a Bossa Nova. Ou o show de João Gilberto no Carnigie Hall. 

João Gilberto é um convite ao ouvir, é um convite ao perfeccionismo e a atenção. Coisas tão difíceis num tempo de ímpeto comercial, talvez por isso ele tenha sido tão recluso, tão incompreendido, tão chato! O cara que sempre esteve a frente do seu tempo, ficou preso no passado, onde o glamour era só um banquinho e um violão.

terça-feira, março 26, 2019

Banalização da violência

Entre as dezenas de vídeos chocantes, memes, mensagens de bom dia, eis que chega pelo Whatsapp uma gravação de um cara ao telefone pedindo para trocar um sanduíche que foi entregue errado. Diante do pouco caso da atendente para o problema do cara, acabo  me identificando com ele, acho um absurdo o que se passa e de certa forma concordo com a ira do cara. O que se segue me causa espanto e .... risos! A banalidade vira assunto de jornal nacional ... o tal cara vai na lanchonete espancar a atendente que não cumpriu bem o seu papel, o cara, usando de sua disposição de policial resolve surtar e levou a vias de fato transbordando toda a ira que carrega no seu pobre emprego. 

Confesso que errei por rir da situação, mas o riso não foi pelo fato dele bater na mulher, mas as consequências que uma coisa tão banal teve. A circunstância patética que a vida as vezes tem, é que me faz observar o fato com distanciamento. Não se pode rotular o cara de monstro (apesar de que tem que ser punido, ainda com mais rigor por ser treinado a conviver em situações de stress). O fato dele ter perdido a linha é algo que infelizmente é compreensível (de forma alguma justificável!) ... quantas vezes não estouramos por motivos completamente banais, chega a ser patético numa sociedade tragicômica como a nossa onde a violência é banalizada e mortes são apenas números amontoando-se dentro de um estilo de vida raso, inconsequente e egoísta. 

O Estado é responsável direto nessa formação cultural brasileira, aqui negros foram escravizados até a morte e achamos essa vergonha apenas um fato histórico que já passou! Aqui marinheiros eram espancados, adversários ideológicos eram torturados, lavradores expulsos de terras na base do tiro. Revoltas se tornaram extermínio em massa, heróis que fizeram chacina vivem livres por aí ... cidades que carregam no nome as gotas de sangue dos seus antepassados mortos (veja o caso de Florianópolis), aqui jovens entram em escolas atirando nos amigos mas a sociedade americana é que está corroída. Existem as violências brutais que levam as vias de fato, como um homem que espanca uma mulher, existem as violências que se cometem privando uma criança da merenda escolar, ou não punindo exemplarmente aquele que cometeu um ato de violência, são violências morais, mentais ... abusos que vão de contra a nossa Humanidade. 

Se o Estado patrocina nossa violência diária, cada indivíduo se torna frio e indiferente às violências que vê ... tudo é um circo de likes enquanto não muda em si próprio, e não dá para mudar o mundo se não começarmos a mudar a nós mesmos. A impressão é que só não somos piores porque falta poder de fogo! (mas em breve o Estado vai resolver esse problema!). Do garoto bem educado no aconchegante seio familiar e na melhor escola da cidade que se transforma num boçal bruto dentro do Maracanã espancando um idoso, até o pai de família que para o carro para o pedestre atravessar a rua do condomínio de luxo, mas que ao sair dali  vira um monstro no transito. Todos parecem ter um instinto violento dentro de si, alguns controlam ... outros não. Conhecer a si mesmo é uma forma de melhorar sempre e conter essa ira, mas o Homem vem cada vez mais se distanciando do seu interno, tem sido avesso as reflexões, tem terceirizado seus pensamentos a vendedores de fé e de perdão. Coisas banais que resultam em indiferença e riso diante da maior tragédia humana ... a falta da consciência de que somos parte de uma unidade humana e que o opositor é mais semelhante que imaginamos ... é a falta da tal humanidade que acreditamos pertencer.

segunda-feira, agosto 13, 2018

O aprender e o ensinar


Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa e ignoramos outras. Isso nos dá diariamente uma oportunidade enorme de aprendermos sempre. Não é a questão de transformar o mundo pela educação, é preciso começar antes tentando mudar as pessoas, aí sim, pelo braço da educação  e depois seguir esse passo mudando o mundo através das pessoas transformadas que a educação criou. 



Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as amplas possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção, porém muitas vezes antes de construir algo é preciso destruir outras coisas que estão no mesmo lugar. Abrir mão de um dito conhecimento por outro é um processo que deve mexer não só com o pensamento mas com o sentimento pois desconstruir para depois construir é abdicar de muito esforço que já nos dispusemos a fazer durante a vida. Para isso, é bom lembrar que o universo está sempre em movimento, e nossa vida também é regida por esse vetor. Não somos um processo a parte do mundo ou do universo que nos rodeia, estamos inseridos nele como um processo dentro de outros tantos processos, todos se movimentando sempre, todos evoluindo na medida em que saem da inércia.

O conhecimento exige uma presença curiosa do sujeito em face do mundo. Requer uma ação transformadora sobre a nossa realidade demandando uma busca constante que vai implicar em invenções e reinvenções.... construções e desconstruções.

sábado, maio 12, 2018

30 músicas para ouvir


  1. Cavatina (tema de The Deep Hunter) - Stanley Myer
  2. The Winner Takes it All - Abba
  3. Comfortably Numb - Pink Floyd
  4. Us and Them -  Pink Floyd
  5. Sultans Of Swing - Dire Straits
  6. Sexual Healing Marvin Gaye
  7. Have you ever Seen the Rain - Creendence
  8. Every Breath you Take - The Police
  9. Don´t Stop Believin - Journey
  10. Pain Lies On The Riverside - Live
  11. Sweet Child O´Mine - Guns N´Roses
  12. New Year´s Days - U2
  13. The Logical Song - Supertramp
  14. My Way - Elvis Presley
  15. Total Eclipse of the heart - Bonnie Tyler
  16. Lord is it Mine - Supertramp
  17. Por Brilho - Oswaldo Montenegro
  18. Love Of My Life - Queen
  19. Stand By Me  - Jonh Lennon
  20. Tente Outra Vez - Raul Seixas
  21. Águas de Março - Tom Jobim
  22. O Bêbado e a Equilibrista - Elis Regina
  23. Força Estranha - Roberto Carlos
  24. Something - Beatles
  25. Rhapsody on a Theme of Paganini Op 43 - Rhachmanioff
  26. Bring on the Night - Sting
  27. Laura - Charlie Parker
  28. Caravansary - Kitaro
  29. Etude Opus 10 No3 Tristesse - Chopin
  30. Guru Sharanam - Tomaz Lima
Qual é a sua lista ? Alguma interseção com a minha?

sexta-feira, maio 11, 2018

50 filmes para ver


  1. Forrest Gump: O Contador de Histórias (1994)
  2. Coringa
  3. …E o Vento Levou (1939)
  4. Em algum lugar do Oeste
  5. A Lista de Schindler (1993)
  6. Sociedade dos poetas mortos
  7. Um Sonho de Liberdade (1994)
  8. O Poderoso Chefão (1972)
  9. O Poderoso Chefão: Parte II (1974)
  10. Os intocáveis 
  11. O Franco-Atirador (1978)
  12. Up – Altas Aventuras (2009)
  13. Rocky, um Lutador (1976)
  14. Coração Valente (1995)
  15. Seven – Os Sete Crimes Capitais (1995)
  16. Platoon
  17. Gladiador (2000)
  18. Gênio Indomável (1997)
  19. Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (1993)
  20. Titanic (1997)
  21. Toy Story (1995)
  22. Alien, o Oitavo Passageiro (1979)
  23. Blade Runner, o Caçador de Andróides (1982)
  24. O Silêncio dos Inocentes (1991)
  25. O Encouraçado Potemkin (1925)
  26. A Caçada ao Outubro Vermelho (1990)
  27. A Dança dos Vampiros (1967)
  28. Tempos Modernos (1936)
  29. O Grande Ditador (1940)
  30. Pulp Fiction – 1994 
  31. A vida é Bela 
  32. Central do Brasil
  33. O Campeão 
  34. Quatrilho
  35. O menino que descobriu o vento 
  36. Lendas da Paixão
  37. 1942
  38. Rain man
  39. Black Rain a coragem de uma raça
  40. Casablanca (1942)
  41. Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (1981)
  42. Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas (1967)
  43. JFK
  44. Apolo 13
  45. Amadeus (1984)
  46. O segredo da cela 7
  47. O segredo dos seus olhos 
  48. A espera de um milagre
  49. Pulp Fiction 
  50. Cidade de Deus
Qual é a sua lista ? Alguma interseção com a minha?