quarta-feira, junho 24, 2026

Reducionismo histórico

 


Qual a diferença entre a Balaiada, no Maranhão, e a Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul? Por que uma se tornou parte importante da identidade regional e nacional, enquanto a outra permanece esquecida dentro de uma quase marginalidade?

Existe uma tendência de reduzir ou ignorar histórias regionais. Quando isso acontece, populações inteiras perdem parte de suas referências, de seu orgulho e de seu senso de pertencimento. Sem contexto histórico próprio, muitos acabam apenas reproduzindo narrativas construídas por outros.

A história de um país deveria ser formada pela soma de suas histórias regionais. No entanto, muitas vezes ela acaba sendo construída em torno de grandes personagens e acontecimentos escolhidos como símbolos nacionais, enquanto outros são deixados de lado. Esses símbolos escolhidos, em geral vão sustentar narrativas e não necessariamente verdades.

É o que acontece quando determinados heróis históricos são exaltados e outros movimentos são esquecidos. Tiradentes, por exemplo, tornou-se símbolo nacional mais de um século depois da Inconfidência Mineira. Ao mesmo tempo, diversos episódios regionais que tiveram impacto profundo em suas localidades acabaram desaparecendo da memória coletiva.

A diferença entre preservar e apagar uma história não está apenas nos livros. Ela influencia a forma como um povo enxerga a si mesmo. O orgulho que os gaúchos mantêm da Guerra dos Farrapos ajudou a fortalecer uma identidade regional muito clara. Já o esquecimento de movimentos como a Balaiada privou gerações inteiras de uma parte importante de sua própria narrativa. E quantas outras histórias não são apagadas? Por um acaso o Grito do Ipiranga, retratado com pompa é mais importante que as cartas de Leopoldina (uma mulher a frente de sua época)? É mais importante que a as Guerras de Independência que seguiram e sustentaram o grito do imperador ? Movimentos anti lusitanos da Setembrada e da Balaiada ainda não são movimentos de independência contra Portugal ? 

E as lutas populares de Canudos, o Contestado, as Guerras Guaraníticas que marcam a imagem de um país pacífico assim como a independência como contada nos livros que reforça a transição pacífica de independência de um imperador português contra Portugal. As lutas regionais mostram o contrário do que o que se quer mostrar com a história oficial. Esse reducionismo histórico reduz o poder de fala  do povo, reduz sua ambição.

Parece clichê pensar que quando um povo perde sua história, perde também uma parte de sua identidade. E quem não conhece a própria história acaba aceitando com mais facilidade a história contada pelos outros, acaba sendo manipulado e tratado como coadjuvante da própria história.