Uma fábula sobre vaidade, espetáculos grandiosos e as moedas que circulavam nos bastidores.
Conta-se que, em um reino tropical, onde a nobreza apreciava tanto os aplausos quanto os privilégios, surgiu um projeto destinado a eternizar os grandes feitos do velho rei.
Não seria uma simples apresentação nas praças, dessas em que artistas mambembes divertiam os camponeses em troca de algumas moedas. Pretendia-se criar um espetáculo grandioso, capaz de percorrer feiras, teatros e salões, narrando as aventuras do monarca como se fossem as façanhas de um herói lendário.
A obra recebeu um nome misterioso: O Azarão.
Os arautos anunciaram que o público conheceria a coragem do soberano, suas batalhas e as dificuldades que enfrentara para alcançar o trono.
Entretanto, enquanto os artistas ensaiavam suas falas e os carpinteiros construíam os cenários, outra história começava a se desenrolar longe dos palcos.
Era a história das moedas.
Para financiar tamanho espetáculo, seriam necessários baús de ouro, carruagens, figurinos, músicos e toda uma companhia de artistas.
E, como frequentemente acontece quando o poder se aproxima das artes, apareceram mecenas interessados em contribuir para a glorificação do rei.
Alguns possuíam fortunas tão extraordinárias que suas moedas pareciam não conhecer o fundo dos cofres.
Certo dia, chegaram aos ouvidos dos conselheiros notícias de pedidos e possíveis transferências de somas gigantescas destinadas à produção.
As quantias eram tão elevadas que um velho contador, acostumado a calcular os tributos de aldeias inteiras, teria exclamado:
— Por todos os santos do reino! Com tamanho tesouro, poderíamos construir não apenas um teatro, mas uma cidade inteira para assistir ao espetáculo!
Os investigadores começaram então a examinar documentos, relatos e movimentações financeiras.
Quem havia prometido tantas moedas?
Quem efetivamente as entregara?
Por quais cofres teriam passado?
E que destino lhes fora reservado?
O nome do príncipe também surgiu nas apurações, em meio a relatos sobre pedidos de financiamento a um famoso mecenas. Ele negou qualquer irregularidade, enquanto os responsáveis pela investigação procuravam distinguir negociações legítimas, promessas e eventuais transferências de recursos.
Era importante, afinal, não confundir suspeitas com fatos comprovados.
Mas as perguntas começaram a incomodar os habitantes do reino.
Por que senhores tão poderosos desejariam financiar a glorificação do monarca?
Seria puro amor às artes?
Admiração pela história?
Ou esperariam os generosos mecenas conquistar alguma influência junto à família real?
Enquanto isso, no teatro, os atores continuavam ensaiando.
Um deles, encarregado de representar o velho rei, ergueu sua espada de madeira e proclamou:
— Sou o defensor das virtudes e o inimigo dos privilégios!
Nesse instante, um aprendiz, que acompanhava os ensaios, cochichou ao ouvido do diretor:
— Mestre, se o espetáculo é sobre as virtudes do rei, por que os fiscais estão tão interessados nos tesoureiros?
O diretor, temendo perder o financiamento, respondeu:
— Silêncio, rapaz! No teatro, cada personagem deve conhecer seu papel!
O jovem insistiu:
— Mas quem escreveu a história?
— Os dramaturgos, naturalmente!
— E quem paga aos dramaturgos?
O diretor permaneceu calado.
A pergunta atravessou os bastidores e chegou aos ouvidos de um velho filósofo que assistia aos ensaios.
Este sorriu e comentou:
— Meu jovem, todo espetáculo possui duas histórias. A primeira é aquela que os artistas representam diante do público. A segunda é a que se desenrola atrás das cortinas.
— E qual delas é a verdadeira? — perguntou o aprendiz.
— Ambas podem conter verdades. Mas a segunda, quando envolve grandes fortunas e homens da corte, exige livros de contas tão claros quanto o texto apresentado no palco.
Os meses passaram.
O Azarão continuou cercado de expectativas, enquanto os investigadores procuravam esclarecer a origem e a destinação dos recursos mencionados nas apurações.
Não havia sentença que autorizasse transformar todas as suspeitas em crimes demonstrados.
Mas o velho filósofo deixou uma reflexão aos habitantes:
“Quando os poderosos financiam a própria glória, cabe ao povo perguntar quem paga pelo espetáculo e o que espera receber em troca.”
E assim, no Reino Tropical, enquanto os artistas preparavam a história oficial do grande monarca, outra narrativa se escrevia silenciosamente nos bastidores.
Uma narrativa de mecenas, moedas, promessas e perguntas ainda sem resposta e moedas que não chegavam para pagar as despesas do espetáculo.
Pois, naquele reino de faz de conta, o Azarão talvez fosse apenas o título de uma peça. A verdadeira sorte estava em descobrir quem segurava as rédeas dessa fábula.

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