Uma fábula sobre terras improdutivas, negócios extraordinários e as moedas que despertaram a curiosidade do fisco real.
Conta-se que, em um reino tropical, onde as terras eram vastas e os palácios frequentemente escondiam mais segredos que os antigos castelos, vivia um príncipe que demonstrava notável interesse pelo comércio de propriedades.
Não se contentava com as responsabilidades da corte. Entre uma reunião de conselheiros e outra, encontrava tempo para negociar quintas, solares e tenências, revelando um talento comercial que despertava a admiração de seus mais fiéis seguidores.
Certa ocasião, adquiriu duas propriedades por uma quantia relativamente modesta. Eram, segundo suas explicações, quintas pouco produtivas, que não ofereciam grandes rendimentos nem despertavam especial interesse.
Entretanto, algum tempo depois, aquelas mesmas propriedades foram vendidas por uma soma extraordinariamente superior.
A notícia percorreu o reino.
— Que maravilha! — exclamou um dos bobos da corte. — Nosso príncipe descobriu como fazer as terras produzirem ouro sem sequer plantar uma única semente!
— Talvez tenha encontrado uma mina! — sugeriu outro.
— Ou quem sabe as propriedades tenham sido abençoadas por alguma fada imobiliária! — acrescentou um terceiro.
Os conselheiros mais entusiasmados logo proclamaram que o príncipe possuía o raro dom de transformar terras improdutivas em fortunas.
Mas os fiscais do reino, pouco inclinados a acreditar em encantamentos, resolveram examinar os livros de registros.
E foi então que encontraram movimentações de moedas que despertaram sua atenção.
Havia pagamentos em espécie, valores declarados nas escrituras e circunstâncias financeiras que, segundo os investigadores, mereciam esclarecimentos.
Começaram a perguntar se todas as moedas envolvidas nas negociações haviam sido devidamente informadas ao tesouro real.
Seria apenas uma operação imobiliária especialmente lucrativa?
Teriam as propriedades adquirido valor por circunstâncias legítimas do mercado?
Ou existiriam pagamentos que não haviam sido integralmente registrados?
O príncipe afirmou que seus negócios eram honestos, que as propriedades haviam sido adquiridas e vendidas legitimamente e que nenhuma irregularidade fora cometida.
Seus defensores lembravam, com razão, que comprar barato e vender caro não constitui crime, assim como enriquecer por meio de negócios legítimos não é privilégio exclusivo da nobreza.
Mas os investigadores desejavam compreender o percurso das moedas.
Reuniram documentos, examinaram registros e levaram suas suspeitas aos tribunais.
Foi então que a história encontrou um novo personagem: a própria Justiça do reino.
Entre recursos, decisões e discussões sobre a validade das provas, parte dos elementos utilizados nas investigações acabou sendo invalidada. As acusações não resultaram em condenação definitiva do príncipe.
Os bobos da corte celebraram.
— Vejam! — gritavam. — Está provado que as terras eram mágicas!
Mas um velho filósofo, que acompanhava os acontecimentos da praça, corrigiu:
— Não, meus amigos. A ausência de condenação não prova a existência de magia. Significa que não houve uma decisão judicial definitiva estabelecendo a culpa. E isso deve ser respeitado.
Um jovem aprendiz aproximou-se e perguntou:
— Mestre, então o príncipe não poderia ter obtido um lucro tão grande de maneira honesta?
— Naturalmente que poderia — respondeu o sábio. — O mercado pode valorizar propriedades de forma extraordinária. O que os fiscais procuravam descobrir era se todas as transações haviam sido corretamente declaradas.
— E por que os habitantes continuam fazendo perguntas?
O filósofo apontou para as muralhas do palácio.
— Porque os homens públicos não são proibidos de enriquecer, mas devem compreender que sua proximidade com o poder torna legítimo o interesse da sociedade pela transparência de seus negócios.
O aprendiz pensou por alguns instantes.
— Então uma propriedade improdutiva pode produzir uma grande fortuna?
— Pode, meu rapaz. Mas não deveria produzir explicações tão difíceis de compreender quanto os encantamentos dos antigos alquimistas.
E assim, no Reino Tropical, as duas propriedades passaram a integrar as histórias mais curiosas da corte.
Para alguns, eram demonstração do talento comercial do príncipe. Para outros, permaneciam motivo de perguntas sobre valores e movimentações financeiras.
E, sem uma condenação que comprovasse as suspeitas, cabia aos habitantes distinguir a curiosidade legítima da acusação precipitada.
O velho filósofo, antes de recolher-se à biblioteca, deixou registrada sua última reflexão:
“A terra pode multiplicar seu valor sem produzir uma única espiga de trigo. Mas a confiança pública somente floresce quando os negócios dos poderosos podem ser examinados à luz do dia.”
E os bobos da corte continuaram anunciando o extraordinário talento imobiliário do príncipe.
Pois, naquele reino de faz de conta, havia propriedades que não produziam frutos, não criavam animais e não cultivavam trigo — mas, segundo os relatos, eram capazes de render uma verdadeira colheita de ouro.

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