Uma fábula sobre doces, moedas misteriosas e os prodígios da contabilidade real.
Era uma vez, em um reino tropical onde os palácios reluziam ao sol e os nobres pareciam possuir talentos que escapavam à compreensão dos simples mortais, um príncipe que resolveu aventurar-se no comércio.
Cansado, talvez, das intermináveis discussões do palácio legislativo, tornou-se sócio de uma pequena loja de chocolates, instalada em uma movimentada feira comercial do reino.
Ali se vendiam bombons, trufas, barras de cacau e outras delícias capazes de adoçar até o humor dos mais rabugentos conselheiros reais.
Mas a lojinha possuía uma característica extraordinária: parecia ter uma habilidade especial para movimentar moedas.
E não, meu caro leitor, não estamos falando de moedas de chocolate!
Certo dia, os fiscais do reino, munidos de pergaminhos, ábacos e uma curiosidade inconveniente, resolveram comparar os registros comerciais com as quantias depositadas nos cofres da empresa.
Foi então que encontraram diferenças que lhes pareceram dignas de investigação.
Os números registrados em determinados documentos não correspondiam exatamente aos valores que circulavam pelas contas da pequena loja.
Os fiscais coçaram suas barbas.
Os contadores conferiram seus ábacos.
E os conselheiros começaram a cochichar pelos corredores.
— Seria alquimia? — perguntou um.
— Magia negra? — sugeriu outro.
— Bruxaria! — exclamou um terceiro, que nunca compreendera muito bem a matemática.
Um velho mercador, mais experiente, levantou uma hipótese ainda mais extraordinária:
— Talvez o príncipe tenha descoberto o segredo do lendário rei Midas, aquele que transformava em ouro tudo o que tocava!
E assim nasceu a famosa Teoria do Midas Tropical.
Segundo seus entusiasmados defensores, bastaria o príncipe tocar uma caixa de bombons para que dela brotassem moedas de ouro.
Os bobos da corte ficaram maravilhados.
— Que talento comercial! — gritavam.
— Que extraordinário empreendedor! — aplaudiam.
— Se o príncipe transforma cacau em ouro, por que não o nomeamos Ministro das Finanças? — perguntou um deles, provocando gargalhadas no salão.
Mas os investigadores, pouco afeitos à magia, levantaram uma possibilidade menos encantadora: suspeitaram que parte das moedas pudesse ter origem diferente da venda de chocolates e que a loja talvez estivesse sendo utilizada para disfarçar sua procedência.
Os responsáveis pelo estabelecimento contestaram as suspeitas. Alegaram que suas atividades eram legítimas e que as diferenças apontadas não demonstravam qualquer irregularidade.
Os tribunais não produziram condenação que confirmasse a utilização da loja para esconder dinheiro ilícito.
Ainda assim, a história percorreu tavernas, mercados e salões de banquetes.
Certa tarde, um jovem aprendiz perguntou ao velho sábio:
— Mestre, afinal, o príncipe possuía mesmo o toque de Midas?
O sábio sorriu.
— Não sei, meu rapaz. E tampouco podemos afirmar que tenha praticado algum crime sem provas válidas. Mas existe uma diferença entre a magia dos contos e a contabilidade dos comerciantes.
— Qual diferença, mestre?
— Nos contos, basta acreditar para que o encantamento funcione. Na contabilidade, é preciso demonstrar de onde vieram as moedas.
O jovem refletiu por alguns instantes.
— Então por que tantos bobos da corte acreditavam na teoria de Midas?
O velho respondeu:
— Porque há quem confunda admiração com explicação. E, quando um príncipe é muito admirado, até uma pergunta sobre números pode ser recebida como ofensa à Coroa.
E assim, a pequena loja continuou sendo lembrada não apenas pelos doces que vendia, mas pelas perguntas que despertou.
A Teoria do Midas Tropical jamais foi reconhecida pelos sábios como explicação científica, tampouco as suspeitas dos fiscais se converteram em condenação criminal.
Mas os habitantes aprenderam uma lição que nenhum alquimista poderia contestar:
O chocolate pode adoçar a boca, o ouro pode encantar os olhos, mas somente a transparência consegue esclarecer a origem das moedas.
E o velho sábio encerrou a história com uma última observação:
“Em um reino de faz de conta, acredita-se que o príncipe transforma chocolate em ouro. Em um reino de cidadãos, espera-se que todo comerciante consiga explicar suas contas.”

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