sábado, janeiro 17, 2026

Cinema brasileiro - fases

 No Brasil, até a década de 1950, o cinema era feito de forma artesanal e regional, muitas vezes copiando a estrutura das radionovelas. Não existiam políticas públicas para o que era visto como entretenimento menor ou elitista. As produções se concentravam em poucos polos, sobretudo no eixo Rio–São Paulo, com algum destaque para o criativo Recife e para a pacata Cataguases, em Minas Gerais — um polo têxtil rico, com uma jovem burguesia industrial aberta à modernidade e com capacidade de investimento para fomentar a moda e, indiretamente, a cultura.

Cataguases tornou-se um dos núcleos do modernismo brasileiro pelas ações do cineasta Humberto Mauro, que fez do cinema um verdadeiro laboratório de linguagem. Mas fazer cinema é algo que molda a sociedade e exige financiamento contínuo. A ausência de uma política pública consistente acabou por extinguir aquele oásis cultural no interior de Minas.

Diante do domínio cultural americano, o cinema nacional, a partir dos anos 1950, foi naufragando até que o braço cultural protecionista da Era Vargas fez surgir, com financiamento governamental via INCE (Instituto Nacional do Cinema Educativo), a Rádio Nacional e a Atlântida. Nascia um cinema que queria encontrar o povo, criando musicais e sátiras sociais. Era desprezado pela elite intelectual, mas sustentado pelo talento e pelo esforço contínuo de nomes como Oscarito e Grande Otelo.

A revanche intelectual veio a partir de 1958, com o Cinema Novo de Glauber Rocha, Ruy Guerra e Nelson Pereira dos Santos. Influenciados pelo neorrealismo italiano e pelo ambiente artístico efervescente dos anos JK, esses filmes traziam um viés crítico e estético que logo passou a ser visto com desconfiança nos primeiros anos do regime militar. O Cinema Novo teve muito mais reconhecimento externo do que interno e, aos poucos, foi sendo esvaziado. Em 1969, as verbas passaram a ser condicionadas à exaltação do regime e, em 1975, o modelo foi definitivamente desmontado. A antiga INCE deu lugar ao INC, que passou a se ocupar basicamente de classificação indicativa, censura e controle da importação de filmes.

Com a produção cinematográfica praticamente abandonada nos anos 1970, coube às pequenas produções de pornochanchadas manter o sistema respirando por aparelhos. Produziam muito, com qualidade discutível, até que surgiu a Embrafilme, adotando um modelo de financiamento por antecipação de bilheteria. Isso abriu espaço apenas para filmes com garantia de retorno. Foi um prato cheio para Luiz Severiano Ribeiro e, em conjunto com o crescimento da televisão, consolidou grandes sucessos populares, como os filmes dos Trapalhões. Mais uma vez, a comédia aparecia como saída para vencer a crise, sustentada por bilheterias robustas.

Com a queda do regime militar, o cinema caiu junto. Vieram anos de pouco estímulo e de importação quase exclusiva de cinema americano. Enquanto isso, a produção cinematográfica latino-americana florescia. No final do governo Sarney, o modelo de financiamento começou a mudar com a Lei Sarney, permitindo investimentos privados em troca de benefícios fiscais — o embrião de uma lei que ainda renderia muita controvérsia.




Chegou então o colapso do governo Collor. As agências foram desmontadas até serem extintas. O cinema passou a ser algo que sempre podia acabar, visto como um investimento altíssimo e extremamente arriscado. Nesse cenário improvável, a rainha Xuxa acabou salvando a produção nacional, garantindo bilheterias expressivas. Sem ela, o cinema brasileiro teria praticamente desaparecido das salas comerciais nos anos 1990.

Com o governo FHC, surge a Lei Rouanet, uma política pública de Estado que atravessou diferentes governos. A estabilidade permitiu o renascimento da indústria, com o Estado deixando de escolher os filmes e transferindo essa decisão às empresas financiadoras. Isso ampliou a pluralidade temática e estética. Carlota Joaquina, Central do Brasil, O Quatrilho e Cidade de Deus são exemplos claros dessa diversidade.

Com o tempo, o sistema foi se engessando com a criação do Fundo Setorial do Audiovisual, que passou a operar por editais. Os filmes começaram a ser pensados mais para vencer editais do que para dialogar com o público ou buscar risco estético. Ainda assim, a roda seguiu girando, com produções importantes como Carandiru, 2 Filhos de Francisco, Nosso Lar e Deus é Brasileiro, além de modelos seriados de grande sucesso, como Minha Mãe é uma Peça, De Pernas pro Ar, Se Eu Fosse Você e Tropa de Elite. O sistema híbrido — governo e iniciativa privada — deu garantias financeiras e relativa liberdade criativa. Nunca se produziu tanto cinema bom no Brasil.

Entre 2017 e 2022, instalou-se uma crise ideológica profunda e uma paralisia produtiva. Pode-se culpar a pandemia, mas a cultura nacional tornou-se refém de um campo de batalha ideológico. A censura passou a ser indireta, por meio de cortes seletivos de recursos. A desconfiança voltou a rondar produtoras e empresas sérias. Ao mesmo tempo, a saturação do modelo americano, somada às greves de roteiristas e atores, provocou uma redistribuição de talentos pelo mundo. O crescimento do streaming ajudou a manter a indústria viva em meio a uma crise global.

Mais uma vez, os ventos políticos mudam. Sem uma política de Estado sólida, seguimos na gangorra ideológica. Vivemos hoje uma fase especialmente fértil, com grandes produções brasileiras arrebatando prêmios mundo afora, como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto.
Resta saber até quando essa maré favorável vai durar.



O cinema nacional - influência americana

Muito se fala do cinema brasileiro: se é bom ou ruim, se depende demais de incentivos públicos, se é popular ou autoral, político ou intimista. Trata-se de um cinema que, muitas vezes, falha em dialogar com o público e que, para romper essa barreira, acaba escorregando para um popularesco de comédia — frequentemente bem-sucedido em bilheteria, mas limitado em ambição estética.

Em um paralelo com o cinema americano e europeu, o Brasil se aproxima muito mais do modelo do cinema-arte europeu, sustentado por incentivos diretos — e instáveis — do Estado, do que da indústria cinematográfica formada nos Estados Unidos. Lá, o governo percebeu cedo que imagem é poder e passou a financiar, contínua e indiretamente, a indústria cinematográfica.

Primeiro, para empregar pessoas durante a Grande Depressão dos anos 1930 e manter o moral da população. Depois, durante a Segunda Guerra Mundial, como parte estratégica do Departamento de Guerra. Por fim, no pós-guerra, como instrumento de influência cultural global — uma verdadeira arma de propaganda, o chamado soft power.

No contexto do Plano Marshall, o governo americano apostou alto para transformar Hollywood em padrão mundial. Apenas a França reagiu de forma consistente a essa interferência cultural. Já durante a Guerra Fria, o cinema foi vendido como ideologia do American Way of Life, também com apoio governamental. Hollywood criou personagens como Rambo e filmes como Top Gun para apagar a derrota na Guerra do Vietnã. No mesmo período, porém, surgiu o contraponto: Platoon lembrava à opinião pública que aquela guerra fora perdida e marcada por escandalosos crimes de guerra cometidos por soldados americanos.



Enquanto isso, o Brasil seguia preso a mentalidades arcaicas, instituições frágeis e governantes que davam pouca importância à cultura. A França, por sua vez, entendeu cedo que perder o cinema significava perder a capacidade de narrar a si mesma. Fortalecer sua cultura tornou-se uma questão de Estado — não apenas uma indústria capitalista, como nos Estados Unidos.

Desde 1946, a França mantém um departamento de cinema que funciona sem interrupção, com financiamento automático e retorno do lucro para o próprio sistema. Trata-se de uma política pública de longo prazo, e não de uma política de governo, como ocorre no Brasil.

Aqui nos trópicos, diversas agências surgiram e desapareceram entre descasos governamentais, corrupção e falta de investimento. Durante décadas, o cinema brasileiro dependeu quase exclusivamente do esforço dos artistas. Nenhum governo militar deu real importância ao cinema; a principal discussão era se os filmes deveriam ser legendados ou dublados.

Um dos expoentes mais promissores desse período, Vladimir Herzog, terminou como chefe de redação da TV Cultura — e o final dessa história todos conhecem. O INC deu lugar à Embrafilme, depois ao Concine e, por fim, à Ancine. Ainda hoje, os recursos de financiamento seguem travados por disputas ideológicas.

Pior: no Brasil, vê-se cinema, mas pouco se entende do que se vê. Não se ensina estética, linguagem audiovisual ou leitura crítica da imagem. Vivemos uma adesão passiva ao cinema americano, com mínima interação com o riquíssimo cinema latino-americano.

Esse protecionismo cultural em favor dos Estados Unidos reflete muito do que somos culturalmente.

Vira-latas!